Explicando a Ressurreição sem Recorrer a Milagres – Conclusão: A Dissonância Cognitiva (ou: Não é preciso nenhum milagre aqui!)

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Título Original: Explaining the Resurrection without Recourse to Miracle
Autor: Dr. Robert M. Price
Publicado Originalmente em: The End of Christinaity,
editado por John W. Loftus, Prometheus Books, EUA, 2011, Capítulo 9
Tradução: Marco Aurélio Suriani
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SÓ PRECISA DE UMA FAÍSCA PARA ACENDER O FOGO – NÃO DE UM MILAGRE

Será que imaginar o começo de uma nova religião requer que se force os limites de lei natural? Muitas delas alcançaram êxitos impressionantes, não somente numéricos, e ninguém fica tão intrigado. O Sociólogo Rodney Stark mostra como a expansão do cristianismo a partir de um círculo de fiéis sectários a uma crescente e influente seita que se tornou uma candidata credível para a religião do estado de Roma (assim como o mitraísmo e o louvor a Baal [35] tinham sido candidatos antes) se emparelha ao sucesso de seitas modernas análogas, tais como a Igreja Mórmon e a Igreja da Unificação, no mesmo período de tempo. [36] Nenhum milagre foi necessário, embora certamente houvessem virtudes cristãs que a tornou atraente, como o judaísmo tinha feito antes com os estranhos e com os pagãos. Os cristãos devem estar orgulhosos do sucesso inicial de sua fé, mas não há nada de sobrenatural nisso. [37] Tenha em mente que apelar para um milagre é simplesmente admitir que não podemos ainda explicar o fenômeno. Mas nós podemos. Existem inúmeros fatores que não envolvem sobrenaturalismo que explicam o sucesso cristão.

Algumas pessoas se focam diretamente nas consequências da morte de Jesus. Se ele não ressuscitou dos mortos de fato, como podemos explicar a súbita expansão da nova fé? Por que o círculo dos discípulos simplesmente não desistiu e não voltou para casa? Não é necessária nenhuma rejeição a milagres propriamente dita para julgar que a ascensão do cristianismo após a morte decepcionante de Jesus não precisa de um. Ela pode ser facilmente explicada em termos de redução via dissonância cognitiva. Leon Festinger, Henry Riecken e Stanley Schachter, em seu clássico psicossocial “Quando a profecia falha”, [38] desenvolveu uma teoria da “dissonância cognitiva” para explicar as reações de um culto UFO ao fracasso de sua profecia de uma invasão alienígena. [39] Extremamente constrangidos publicamente, muitos ainda assim ficaram com o grupo e, de fato, redobraram seus esforços de recrutamento. Por quê? Aparentemente, por um lado, o nível de humilhação teria sido muito profundo para enfrentar e aceitar. Não importa o quão difícil deve ser engoli-la, qualquer racionalização seria menos dolorosa do que a ter que lidar consigo mesmo e com os outros caso quisessem admitir os erros e encarar a realidade. (Alguns membros decepcionados dos modernos cultos messiânicos cometeram suicídio ao invés de encarar os fatos.) Eis o que acho dos discípulos de Jesus: eles tinham abandonado todos os trabalhos e atividades mundanas, até mesmo a família, a fim de juntar-se a Jesus e sentar-se à sua direita e à sua esquerda em sua glória que estava se aproximando. Agora ele é vergonhosamente morto, e só se pode imaginar as piadinhas que guardavam, por exemplo, para os dois discípulos assim que voltassem para a casa em Emaús. Talvez eles tenham programado de chegar em casa na calada da noite!

Por outro lado, alguém pode esperar atenuar, ou mesmo reverter, a repulsa do público à sua fé redobrando os esforços para converter estranhos a ela. Cada nova pessoa recrutada significava mais um que admitia que sua parte na campanha de ridicularização pública estava errada (como o ladrão arrependido na cruz). Então essa pessoa fica mais ocupada do que nunca batendo nas portas. “Quando as pessoas estão comprometidas com uma crença e com um curso de ação, uma evidência que claramente a refuta pode simplesmente resultar no aprofundamento da convicção e no aumento do proselitismo.” [40] Eles simplesmente começaram de novo, racionalizando que eles haviam interpretado mal isso ou aquilo da primeira vez, mas que nada iria parar o trem dessa vez! Não há milagre envolvido em nada disso. Uma reviravolta de 180 graus não é suficiente para conter as esperanças de crentes. [41] Na verdade, a derrota súbita e total pode funcionar como uma catalisador para acender a bomba com mais força do que da primeira vez. Longe de ir contra a natureza, essa é precisamente a forma como a natureza humana funciona!

Mas, realmente, todo esse maquinamento é necessário? Isso não seria como atirar num rato com uma espingarda? Alguém é incapaz de retratar os discípulos desolados, seja de Jesus ou do Dr. King, se reunindo após o choque inicial do assassinato de seu líder, se recompondo de seu pânico momentâneo, e depois se unindo uns aos outros para redobrar seus esforços em levar a causa do mestre em seu nome, e inventando histórias de que eles precisavam fazer isso? Isso é a coisa mais natural do mundo; o único “milagre” que precisamos para explicar “a transformação dos discípulos.”

CONCLUSÃO: ELEMENTAR, MEU CARO WATSON!

A ascensão do cristianismo é notável, mas não misteriosa. Gostaríamos de saber muito mais do que sabemos sobre um grande número de aspectos de origens cristãs. Mas é apenas falsa e absurda a alegação de que não poderíamos explicar o aumento da fé cristã na ressurreição sem apelarmos a um milagre. Não é o caso de só nos ter restado postular circunstâncias especiais ou multiplicar hipóteses. O crescimento da fé na ressurreição simplesmente não é nenhum problema. Se colocarmos a questão nos termos preferidos pelos apologistas da fé, negaríamos que há qualquer problema em explicar os “fatos da manhã de Páscoa”, sem recorrer a uma suspensão da lei natural. Argumentar que a fé na ressurreição não poderia ter aparecido e se espalhado a menos que tivesse sido iniciada por um verdadeiro milagre da ressurreição é como dizer que alienígenas do espaço devem ter construído as pirâmides, uma vez que não sabemos como isso poderia ter sido feito com os recursos que é sabido que os antigos egípcios dispunham. Não, mesmo que não soubéssemos como os antigos egípcios poderiam ter projetado e produzido as estruturas, a nossa ignorância de nenhuma forma poderia justificar algum apelo a uma “explicação” sobre a qual nós sabemos menos ainda. Mas não estamos sequer em tal posição. Nós não estamos coçando a cabeça nos perguntando como a fé na ressurreição surgiu. Simplesmente não há nenhum mistério.

Notas e Referências:

35. Sim, culto a Baal! Isso foi ideia do imperador Heliogábalo; tal culto já havia sido popular na Síria Romana.

36. Rodney Stark, The Rise of Christianity: A Sociologist Reconsiders History (Princeton: Princeton University Press, 1996).

37. Richard Carrier, Not the Impossible Faith: Why Christianity Didn’t Need a Miracle to Succeed (Raleigh, NC: Lulu, 2009). Veja o capítulo 2, do Carrier, neste volume.

38. Leon Festinger, Henry Riecken, and Stanley Schachter, When Prophecy Fails: A Social and Psychological Study of a Modern Group that Predicted the Destruction of the World (New York: Harper and Row Torchbooks, 1964).

39. A teoria da dissonância cognitiva está bem estabelecida na psicologia e tem sido aplicada sobre as origens do cristianismo por Adela Collins e outros: ver Carrier, “Burial of Jesus,” 387–88 (com nota 55, 392); e Carrier, “Plausibility of Theft,” 356–57, para vários outros exemplos na história da religião.

40. Festinger, Riecken, and Schachter, When Prophecy Fails, 12.

41. Eric Hoffer, The True Believer: Thoughts on the Nature of Mass Movements (New York: Harper and Row, 1951).

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