Explicando a Ressurreição sem Recorrer a Milagres – Parte 4b: Mudanças de aparência

Esse texto é complemento feito por mim à tradução do texto de Robert M. Price que coloquei aqui no blog recentemente, Explicando a Ressurreição sem Recorrer a Milagres – Parte 4: Os Sósias.

Cito aqui as objeções colocadas por um leitor do orkut:

O que dá a entender da leitura das passagens é que ele aparecia em diferentes formas aos discípulos, no caso de Tomé por exemplo ele teria aparecido especialmente com aparência igual a com que morreu e inclusive com feridas nas mãos, lado e pés mas não foi o caso em todas aparições segundo os detalhes dos relatos.

[…]

(Marcos 16:12)
12 Ainda mais, após estas coisas apareceu em outra forma a dois deles ao andarem, pois estavam indo para o campo. . .
(João 20:25) 25 Conseqüentemente, os outros discípulos diziam-lhe: “Temos visto o Senhor!” Mas, ele lhes disse: “A menos que eu veja nas suas mãos o sinal dos pregos e ponha o meu dedo no sinal dos pregos, e ponha a minha mão no seu lado, certamente não acreditarei. . .
(João 20:27) 27 A seguir, disse a Tomé: “Põe o teu dedo aqui, e vê as minhas mãos, e toma a tua mão e põe-na no meu lado, e pára de ser incrédulo, mas torna-te crente.”

[…]

Jesus não tem as feridas em suas aparições gloriosas -e luminosas- no Apocalipse, não tenho dúvida que ele estava com um incorruptível corpo de glória totalmente regenerado, quaisquer feridas que os discípulos achassem ao tocar nele teriam de ser simuladas pelo Cristo como forma de fortalecer a fé dos mesmos que era ele próprio (ou seja aceitando o desafio imposto por Tomé).  Não vejo que a ressurreição dos mortos inclua que a pessoa fique com as mesmas chagas e deficiências de quando morreu, como se fosse um zumbi! Mas sim um novo corpo perfeito e transformado.

Minha resposta:

Vejamos primeiro o contexto do versículo apresentado em Marcos. Ele conta que Jesus se apresentou de uma forma para Maria Madalena e de outra ao discípulos. Mas o que seria esse “manifestou-se de outra forma” que Marcos diz?

Se isso quer dizer uma mudança de aparência física, então temos um problema sério. Por que Cristo agiria assim? Por que ele mudaria sua aparência, as feições de seu rosto e corpo, e dificultaria o reconhecimento daqueles que ele desejava que acreditassem em sua ressurreição e que espalhassem sua palavra? Isso não faz muito sentido do ponto de vista teológico. Será que Marcos se referia exatamente a mudança de forma física mesmo?

Para responder essa pergunta, vejamos o que o original dizia. Cliquem nesse link para Marcos 16:9-12 e vejam como coloquei no modo comparado para vocês verem o original em grego. O termo usado, que se pronuncia ephanerothe, e cuja grafia não poder colocada aqui no WordPress (vejam na imagem abaixo), não quer dizer manifestação no sentido de aparência, mas manifestação no sentido de apresentação. Prova disso é o sentido que João dá a essa palavra. Vejam essa outra tradução comparada feita em João 1:18. Nesse versículo, a revelação de Jesus é meramente se mostrar a nós homens, se apresentar a nós. E o mesmo verbo é usado, só que aqui conjugado. Vejam este link do excelente site Bible Lexicon que a mostra a passagem em grego e aqui o que o verbo phaneros significa. Em João 21:1, o termo é usado duas vezes sem chegar sequer perto de remeter à forma física.

Então, não temos porque crer que Jesus mudou sua aparência física, mas sim que ele se apresentou de outra forma. Uma interpretação completamente válida seria dizer que Jesus simplesmente abordou os discípulos de outra forma, e no máximo significaria que ele tinha cortado o cabelo, deixado a barba crescer ou trocado as roupas! Tudo isso está de certa forma dentro do que Marcos escreveu, mais do que mudanças em suas feições físicas. Se Marcos quisesse realmente se referir a mudanças físicas, provavelmente teria procurado um verbo mais claro, que não fosse causar confusão.

E mesmo que Marcos pretendesse realmente afirmar a mudança física, isso só reforçaria a tese dos sósias. Ora, Marcos ouviu as pessoas dizerem que viram Jesus, mas que não se parecia exatamente com eles. Marcos deve ter desconfiado que essas pessoas não viram Jesus coisa nenhuma, mas somente uma pessoa parecida. E então elas dizem a ele que Jesus mudou de aparência e que por isso demoravam tanto para reconhecer e por isso que cada um fazia uma descrição diferente. Então Marcos acredita nessas explicações ad hoc e põe no evangelho.

– Rapaz, você ouviu dizer que Jesus ressuscitou?
– Sim! Inclusive tenho quase certeza que o vi ontem!
– Cara, eu também tive essa mesma impressão semana passada, dois dias depois da tumba ter sido encontrada vazia. Eu não tenho certeza absoluta, porque a barba dele estava maior do que o normal e isso dificultou o reconhecimento, mas só pode ter sido ele!
– Sério? O homem que vi ontem estava com a barba curta mas estava mais moreno do que o normal. Será que um de nós está enganado?
– Ah não, deve ter sido ele em ambas aparições. Ele aparou as barbas e pegou sol, só isso. Acho que de uma semana para cá, dá tempo dele mudar a aparência desse tanto.
– Concordo, deve ser isso mesmo! Vou sair correndo contando para todo mundo!

Se alguém tem dificuldade para imaginar um diálogo como esse sendo a verdadeira explicação para as narrativas bíblicas, então essa pessoa está com bloqueios mentais carolas em níveis avançados demais. É perfeitamente plausível! E nem estou supondo que eles fossem idiotas, mas sim que não tivessem acesso a fotos, a meios de comunicação em massa e a um jornalismo minimamente bem preparado e que possibilitasse averiguar suas impressões.

Agora me digam: o que é mais provável? Que pessoas tenham visto homens parecidos com Jesus e, dado o enorme burburinho de ressurreição, os tomaram pelo Cristo ressurreto e depois contornaram alegando que ele mudava de aparência ou será que Jesus ressuscitou e ficou trocando de forma física, sendo que já mostrei que tal mudança é teologicamente problemática? Como podem ver, não preciso supor nenhum milagre para explicar nada.

Passemos agora para a passagem em João. Engraçado como o comentarista colocou dois versículos, o 25 e o 27, e não colocou o 26, que está entre eles…

25 Disseram-lhe, pois, os outros discípulos: Vimos o Senhor. Mas ele disse-lhes: Se eu não vir o sinal dos cravos em suas mãos, e não puser o dedo no lugar dos cravos, e não puser a minha mão no seu lado, de maneira nenhuma o crerei.
26 E oito dias depois estavam outra vez os seus discípulos dentro, e com eles Tomé. Chegou Jesus, estando as portas fechadas, e apresentou-se no meio, e disse: Paz seja convosco.
27 Depois disse a Tomé: Põe aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos; e chega a tua mão, e põe-na no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente.

Estou defendendo aqui a tese dos sósias. Se esse homem que eles viram era um sósia farsante, quando Tomé perguntou cadê as feridas, o salafrário não tinha nenhuma. O que ele fez? Foi embora e passou alguns dias ponderando: “será que compensa furar minha própria mão para enganá-los?” Depois de finalmente tomar coragem, ele fura as próprias mãos, espera mais uns dias para não parecerem que são recentes e depois volta e as apresenta a Tomé.

Mas quem faria um absurdo como esse? Oh, haveria alguém capaz de furar as próprias mãos para que uma outra pessoa levasse a fama de ter ressuscitado? Reconheço que uma pessoa normal não faria isso, mas um louco, quem sabe? Talvez algum discípulo desconhecido de Jesus que resolveu fazer isso em sua loucura provocada pela negação da morte do mestre. Não sei. Parece absurdo, e de fato é um pouco, mas é condizente com as narrativas (podemos pensar que isso aconteceu e que o anúncio da ressurreição foi a prova de que a farsa deu certo) e é mais provável do que qualquer milagre.

Aliás, essa é a pergunta chave aqui: o que é mais provável? Um homem fazendo isso, ou Jesus ressuscitando e depois esperando oito dias para mostrar uma ferida que poderia ter mostrada na primeira chance que teve? Jesus queria fazer seus discípulos crerem na ressurreição, então não faz sentido esconder essa evidência a princípio, esperando que acreditem mesmo sem ela, mas mostrando oito dias depois. A explicação sobrenatural, além de mais improvável que a natural, é teologicamente problemática. Como crer nela? Não adianta, também não precisamos de milagre nenhum para explicar essa passagem.

Arremato essa resposta com duas objeções teológicas a Jesus mudando de aparência:

1) Mudar sua aparência vai contra a alegada intenção de construir um ministério baseado em sua ressurreição. Será que ele queria o anúncio de sua ressurreição contivesse essa dúvida (“Hum.. porque demoraram tanto para reconhecer? Aí tem coisa!”) ou será que ele preferiria que o anúncio não deixasse dúvidas (“As pessoas batiam o olho e já percebiam: aquele era Jesus Glorioso e ele está vivo novamente!”)? Teologicamente, o que faz mais sentido?

2) Um Jesus que pode mudar de aparência e até controlar as suas chagas não é Jesus ressurreto, mas sim um novo Jesus. Ele não ressuscitou, mas sim retornou como um novo tipo de ser. Talvez agora seja só um espírito! O corpo antigo era um humano, agora o novo corpo (se realmente há um) é divino e tem poderes mágicos. Não são o mesmo ser físico, só a consciência que é a mesma. Não podemos falar em ressurreição nesses termos, pois esta palavra se refere a outro tipo de retorno dos mortos. Da mesma forma que simples aparições não são consideradas ressurreições, mesmo envolvendo uma pessoa voltando dos mortos, o fato de Jesus ter trocado a categoria de ser e retornado aqui não deveria ser considerado ressurreição só porque ele voltou. Sim, se fosse verdade seria de fato um enorme feito mesmo assim, mas o nome estaria errado e isso importa muito.

Por fim, desafio meus leitores a também tentar explicar a passagem de oito dias e a mostrar que Marcos provavelmente se referia a uma mudança nas feições físicas. Essa explicação deve ser coerente e seu proponente deve mostrar porque ela é mais provável do que a minha, da mesma forma que eu dei coerência à minha e tentei mostrar porque ela é mais provável. Uma explicação teológico dos motivos para Jesus agir desses modos também é praticamente obrigatória.

Alguém topa?

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