A Falácia Genética e o Ateísmo – Parte 1: Parsons e o Hobbit

Olá amigos,

Como eu já havia prometido no post Falácias: Falácia Genética, estou iniciando uma série que discute a relação entre a Falácia Genética e o Ateísmo, mais especificamente entre tal falácia e ao debate entre religião e ateísmo. Ocorre que alguns argumentos visam invalidar o outro lado apelando para as origens da crença (e da não-crença) e que portanto podem ser classificados como Falácias Genéticas.

Keith Parsons, um filósofo ateu, alega que certos argumentos ateus não são, na verdade, Falácias Genéticas. Ele argumenta que o conceito dessa falácia, quando levado muito a sério, não nos permite saber quando estamos diante um raciocínio realmente inválido e um que na verdade é válido. A visão de Parsons sobre o tema, entretanto, é controversa e há quem pense que ele se equivocou aqui, conforme apresentarei nas outras partes. Aliás, quem quiser defender o ponto de vista dele ou quiser tentar atacar antes de ver o que as pessoas que não concordam têm dizer, fiquem à vontade.

Sobre a metodologia de escrita, eu vou me restringir a traduzir textos encontrados em blogs e sites em inglês escritos por profissionais e deixar que uma análise pessoal seja feita pelo Bruno Almeida. Os textos são bem curtos então não adiantaria eu tentar trazer um resumo a vocês. Enfim, apreciem…

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Título Original: Theism and the Genetic Fallacy
Autor: KEITH M. PARSONS
Publicado Originalmente em: The Secular Outpost * (15/01/2009)
Tradução: Marco Aurélio Suriani (Mr. Monk)
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O TEÍSMO E A FALÁCIA GENÉTICA

Os céticos sustentam há muito tempo que a propensão humana para acreditar em deuses é devida a uma característica penetrante e potente da psicologia humana – a tendência de projetar a forma e a atividade humana. O filósofo grego Xenófanes, talvez o primeiro crítico da religião, observou mais de 2.500 anos atrás que os deuses das pessoas pareciam e agiam como elas. Etíopes adoravam deuses com narizes achatados e cabelo encaracolado. Pessoas de cabelo vermelho e pessoas de olhos azuis tinham deuses com cabelo vermelho e olhos azuis. Povos guerreiros têm deuses guerreiros. Se bois e cavalos tivessem mãos e pudessem fazer desenhos, disse Xenófanes, seus ídolos seriam bois e cavalos. Os deuses gregos eram argumentativos, turbulentos, e indecentes, não ao contrário dos próprios gregos. Javé, o Deus da Bíblia, é tão antropomórfico como todos os outros: Ele (e ele é definitivamente um “ele”) golpeia, recompensa, emite ordens, muda de ideia, sofre de crises de ciúme e raiva, grita, engravida uma fêmea humana, e caminha no jardim ao entardecer. Então, os deuses, incluindo Deus, parecem originalmente ter sido apenas uma projeção da tendência humana de antropomorfizar, de enxergar ocorrências naturais como efeitos de poderosos agentes humanóides.

Teístas respondem que tal argumento, se tomado como apoio ao ateísmo, incorre na “falácia genética”. Você comete a falácia genética quando você confunde duas questões que devem ser distinguidas: (a) Quais processos causais respondem pelas origens psicológicas de uma crença? (B) Quais fundamentos racionais existem para avaliar se uma crença é verdadeira? Só porque você pode explicar por que alguém tem uma certa crença (ele aprendeu de sua mãe, por exemplo), não significa que a crença não possui verdade objetiva ou validade. Eu poderia ser “programado” a pensar que Deus existe, mas, no entanto, ele pode realmente existir, como argumentos e provas poderiam mostrar. Como diz o ditado, só porque você é paranoico não significa que as pessoas não estão mesmo atrás de você; do mesmo modo, só porque você está “programado” a acreditar em Deus não significa que Deus não existe (Talvez, na verdade, foi Deus que programou você para acreditar nele!).

No entanto, a acusação de que os ateus cometem a falácia genética é um tanto equivocada e hipócrita. Às vezes, de fato, a história causal de uma crença não tem qualquer influência sobre a sua credibilidade: eu posso ter aceitado originalmente o Teorema de Pitágoras de tanto o meu professor de geometria do ensino médio o ter martelado na minha relutante cabeça, mas se eu já posso provar isso, a história de como eu adquiri minhas crenças sobre o Teorema de Pitágoras é irrelevante para o meu julgamento atual sobre a sua solidez. Por outro lado, há momentos em que a história causal de uma crença é altamente relevante para os seus méritos epistêmicos. Uma crença adquirida pelo funcionamento normal dos órgãos dos sentidos humanos em circunstâncias apropriadas (por exemplo, acreditar que alguém, Bill Clinton, digamos, está presente porque ele é visto de perto, em plena luz do dia e com nada no caminho) é claramente mais credível do que uma adquirida por uma alucinação. Se um amigo, conhecido por ser de confiança, nos disse que ele só viu Bill Clinton andando na rua, e nós acreditamos que suas funções cognitivas e sensoriais estavam normais, provavelmente aceitaremos que Bill Clinton estava na área. Mas se nós sabemos que o nosso amigo sofre uma condição psicológica peculiar que o torna propenso a ter alucinações com o Bill Clinton, nós iremos rejeitar veementemente a alegação de que Bill Clinton estava na vizinhança. Da mesma forma, se nós identificamos na psique humana um poderoso mecanismo que inclina as pessoas a acreditar em deuses – quer eles realmente existam ou não – então nós devemos, salvo quando houverem razões fortes para o contrário, rejeitar a crença em deuses.

A acusação teísta também é hipócrita. Todo mundo ignora todos os tipos de idéias por nenhuma outra razão além do fato de sabermos como essas ideias surgiram. Suponha que hajam alguns fãs fanáticos de J.R.R. Tolkien por aí que acham que Hobbits realmente existem e que ainda por cima afirmam isso de maneira agressiva. Nós temos a responsabilidade de levar as reivindicação dos crentes nos Hobbits a sério? Você pode refutar a existência de Hobbits? Acho que não. A razão por que ninguém, ou quase ninguém, leva a existência real dos Hobbits a sério é que todos nós sabemos de onde a ideia de Hobbits veio. Tolkien inventou tais ideias. Se os crentes nos Hobbits nos acusam de cometer a falácia genética, misturando a questão de onde a ideia de Hobbits veio com a questão de sua existência real, nós apenas riríamos deles. O mesmo vale para adoradores contemporâneos de Zeus e de Odin; sabemos que Zeus e Odin são produtos do folclore e da mitologia, ou seja, que eles foram simplesmente inventados, e não nos recai o ônus de ter que considerar a sua existência real. Teístas acham a comparação odiosa, mas realmente não há nenhuma razão óbvia pela qual não devemos considerar o Yahweh da mesma forma como consideramos Zeus e Odin.

Ver a série completa aqui:
A Falácia Genética e o Ateísmo – Parte 2: O Erro de Parsons


* O texto original já não se encontra mais disponível em nenhum endereço mantido por Parsons. Quando eu trouxe o texto para cá, ele estava no link indicado e foi traduzido da maneira mais fiel que sou capaz.

Um Código para a Conduta Intelectual – Parte 8: O Princípio da Relevância

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Título Original: Attacking Faulty Reasoning: A Practical Guide to Fallacy-Free Arguments Autor: T. Edward Damer
Publicação: Wadsworth Publishing; 6ª ed. (2008), pgs. 32 e 33
Tradução: Marco Aurélio Moura Suriani (Mr. Monk)

O PRINCÍPIO DA RELEVÂNCIA

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Aquele que apresenta um argumento a favor ou contra uma posição deve estabelecer apenas razões cuja verdade fornecem alguma evidência para a veracidade da conclusão.

Um segundo princípio usado para determinar se um argumento é bom tem a ver com relevância das premissas. As premissas de um bom argumento devem ser relevantes para a verdade ou para o mérito da conclusão. Não há nenhuma razão para perder tempo avaliando a verdade ou a aceitabilidade de uma premissa se ela sequer é relevante para a verdade da conclusão. A premissa é relevante se sua aceitação fornece alguma razão para acreditar na conclusão, ou que conte a favor dela, ou que tenha alguma influência sobre a sua verdade ou o seu mérito. A premissa é irrelevante se a sua aceitação não tem qualquer influência sobre a conclusão, ou não fornece nenhuma evidência para ela, ou não tem nenhuma conexão com a sua verdade ou o seu mérito.

Na maioria dos casos, a importância de uma premissa é determinada pela sua relação com as outras premissas, apesar de que em alguns casos, premissas adicionais podem ser necessárias para tornar a relevância de uma premissa particular mais aparente. A maioria de nós está familiarizada com casos de advogados que convencem um juiz inicialmente cético de que uma questão ou um pedaço de testemunho aparentemente irrelevantes são sim relevantes, ao introduzir outra prova ou testemunho.

Um primeiro passo importante na reconstrução do argumento de outra pessoa, então, é verificar se há quaisquer irrelevâncias óbvias. No contexto da discussão informal, nós geralmente encontramos um grande número de trechos variados, porém irrelevantes. A maior parte deles não têm a intenção de ser uma parte do argumento e pode, portanto, ser ignorada com segurança. No entanto, às vezes é difícil saber se o argumentador pretende usar uma reivindicação particular como um motivo relevante para acreditar que a conclusão a ser verdadeira ou se ela serve algum outro propósito, como o fornecimento de informações importantes para a compreensão do contexto da questão em análise. Se este último for o verdadeiro caso, não é uma parte do argumento e não deve ser incluído como uma parte da sua reconstrução. Se o primeiro caso é verdadeiro, ele deve definitivamente ser incluído, mesmo que uma avaliação posterior possa mostrar que ela é irrelevante.

Nos termos da lógica tradicional, as premissas de um argumento são relevantes se a conclusão em algum sentido se segue delas. Se o argumento é dedutivo, a conclusão necessariamente segue suas premissas caso o argumento seja modelado através de uma forma logicamente correta ou válida. Em tais casos, as premissas são obviamente relevantes para a conclusão, porque a conclusão de um argumento dedutivo formado corretamente simplesmente explicita o que já está implícito nas premissas.

Se o argumento é indutivo, a conclusão se segue de suas premissas se elas apoiam ou tendem a confirmar a verdade da conclusão. No entanto, determinar se as premissas de um argumento indutivo apoiar fortemente ou adequadamente a verdade de sua conclusão depende também da forma como essas premissas atendem aos outros critérios de um bom argumento.

Argumentos falham em se adequar ao princípio da relevância de diversas maneiras. Alguns argumentos usam apelos irrelevantes, como um apelo à opinião comum ou à tradição, e outros usam premissas irrelevantes, como chegar à conclusão errada a partir das premissas ou usar premissas erradas para apoiar a conclusão.

Uma pessoa pode querer fazer duas perguntas com o objetivo de determinar se uma premissa ou raciocínio particular é relevante. Primeiro, poderia a veracidade da premissa tornar uma pessoa mais propensa a acreditar que a conclusão seja verdadeira? Se a resposta for sim, a premissa é provavelmente relevante. Se a resposta é não, a premissa provavelmente não é relevante. Em segundo lugar, mesmo que a premissa seja verdadeira, ela deve ser levada em consideração na tarefa de determinar se a conclusão do argumento é verdadeira ou não? Por exemplo, o fato de um novo filme ter tido a maior bilheteria na história deve ser levado em consideração na hora de determinar a qualidade do filme? Se a resposta for não, então uma premissa que faz tal alegação é irrelevante. Se a resposta for sim, o que é pouco provável, então a premissa deve ser considerada como relevante.

Métodos Teológicos e Apologistas Aplicados a Super-Heróis

Quando vi a imagem acima, me vieram à cabeça as longas discussões nas quais teólogos e apologistas cristãos mergulham sua mente, aplicando métodos rigorosíssimas a… absolutamente p*%%@ nenhuma. Qual a natureza dos anjos? Os cabelos deles são sempre louros? A Bíblia nos diz que Maria morreu virgem ou não? Homens podem se tornar santos e continuar intercedendo por nós? Jesus era filho de Deus ou só mais profeta? Afinal, o Inferno existe ou não? Quando Maria Madalena descobriu a tumba vazia, estava sozinha ou acompanhada? O que realmente quer dizer a história da maçã no livro de Genêsis? Temos alma? – os adventistas dizem que não. O Papa é falível? As respostas a várias perguntas como estas acima não diferem em nada à resposta dada à pergunta acima: quem é mais forte, o Super Homem ou o Goku?

Mais engraçado ainda é ver como pessoas notavelmente inteligentes ao longo da história passaram preciosa parte da vida e empreenderam grande parte de suas capacidades à tentativa de justificar ideias de um bando de pastores de cabra da antiguidade e histórias sobre um judeu mágico que transformava água em vinho e que controlava o momento exato em que furos de prego apareciam em sua mãos para poder salvar o mundo dele mesmo (surpreendentemente, sem obter êxito algum).

Mas para não ficar só no campo da palhaçada, vamos nos lembrar que essas discussões por vezes se desdobram em inconvenientes. Acostumam-se a empregar esse método a coisas ridículas e acabam o aplicando também a coisas sérias. A escravidão (de forma geral) é condenada, é endossada ou é apoiada pela Bíblia? Podemos usar camisinha em relações sexuais? O que a Bíblia acha dos homossexuais? Seria engraçado, se não fosse um hábito que faz pessoas inteligentes se tornaram inúteis e que faz questões importantes receberem o mesmo tratamento que trivialidades irrelevantes.

Saber distinguir questões importantes de questões irrelevantes é o primeiro passo para que uma sociedade comece a caminhar na direção do desenvolvimento humano e a desenvolver conhecimentos que tragam o bem estar geral e não que saciem a curiosidade tola e sem sentido. É importante, acima de tudo, que as nossas mentes mais brilhantes não percam seu tempo aplicando rigorosos padrões de investigação a questões boçais como a existência ou não da Santíssima Trindade.

Mas não dá para esperar muito, já que o próprio líder deles preferiu usar sua suposta capacidade ilimitada para andar sobre a água e para atravessar portas trancadas pelo lado de dentro ao invés de ensinar noções básicas de higiene e saneamento básico, de metodologia científica e a importância da busca pela verdade, de cultivo de plantas e criação de animais de corte, de moralidade e filosofia, de economia, de política e etc. Então, porque esperar que seus seguidores hajam de forma diferente?

Um Código para a Conduta Intelectual – Parte 7: O Princípio Estrutural

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Título Original: Attacking Faulty Reasoning: A Practical Guide to Fallacy-Free Arguments Autor: T. Edward Damer
Publicação: Wadsworth Publishing; 6ª ed. (2008), pgs. 31 e 32
Tradução: Marco Aurélio Moura Suriani (Mr. Monk)

O PRINCÍPIO ESTRUTURAL

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Aquele que argumenta a favor ou contra uma posição deve usar um argumento que atenda aos requisitos estruturais fundamentais de um argumento bem formado. Tal argumento não usa proposições que se contradizem, que contradizem a conclusão, ou que explícita ou implicitamente assumem a verdade da conclusão. Também não deve tirar inferências dedutivas inválidas.

O primeiro critério utilizado para determinar se um argumento é bom é a exigência de que seja estruturalmente sólido. Um argumento deve parecer e funcionar como um argumento. Em outras palavras, ele deve ser formado de tal maneira que a conclusão seja necessariamente decorrente das suas premissas, no caso de argumentos dedutivos, ou provavelmente seja decorrente das suas premissas, no caso de os argumentos indutivos.

Um bom argumento também deve nos fornecer razões para acreditar que a conclusão merece a nossa aceitação. Como a maioria das discussões sobre temas polêmicos são iniciadas porque a conclusão do argumento ainda não foi aceita por todos os participantes, o argumentador vai usar premissas que são mais prováveis de serem aceitas do que a conclusão. Se essas premissas são aceitas e elas levam à conclusão, é mais provável que a conclusão também seja aceita.

Por esta razão, um bom argumento não deve usar uma premissa que assume a verdade da conclusão, que faz a mesma reivindicação que a conclusão, ou que faz uma afirmação que não é diferente da conclusão. Uma estrutura de argumento que usa tal premissa é chamada de “petição de princípio”, já que não é dada nenhuma razão independente para aceitar a conclusão. Tal argumento viola a própria natureza de um argumento, uma vez que o argumento é uma reivindicação apoiada por pelo menos uma outra alegação. Uma petição de princípio não fornece nenhuma outra alegação em apoio da sua conclusão; portanto ela é estruturalmente falha e não pode ser útil para nós na tarefa de determinar o que fazer ou o que acreditar.

Outra característica estrutural de um argumento que poderia torná-lo fatalmente falho seria uma cujas premissas são incompatíveis umas com as outras. Um argumento que tem tais premissas é aquele do qual qualquer conclusão, não importa o quão estranha, pode ser retirada. O fato de um argumento com premissas incompatíveis poder gerar um resultado absurdo demonstra que não pode sequer funcionar como um argumento. Ele certamente não pode nos ajudar a decidir o que fazer ou no que acreditar. O mesmo é verdade para um argumento cuja conclusão contradiz uma das premissas. Uma conclusão que contradiz uma alegação do mesmo argumento viola a lei da não-contradição (ou A ou não-A), o que significa que nenhuma conclusão lógica pode ser alcançada; ou para ser mais preciso, a “conclusão” não pode ser uma conclusão. Por exemplo, se uma pessoa alegou que a pena capital é moralmente aceitável (A), porque a pena de morte é moralmente errada (não-A), a “conclusão” não foi claramente estabelecida a partir da premissa, portanto, o argumento não se qualifica como um argumento.

Finalmente, há regras da lógica dedutiva bem estabelecidas que se aplicam tanto ao raciocínio condicional quanto ao silogístico. Violar qualquer uma delas seria criar uma falha estrutural em um argumento dedutivo. Por exemplo, uma regra estabelece que não se pode trocar o sujeito com o predicado em uma afirmação universal afirmativa (todos os X são Y) e assumir o mesmo valor de verdade para a declaração invertida (todos os Y são X); pois apesar de ser verdade que “todas as batatas são os vegetais”, não é verdade que “todos os vegetais são batatas.” Por isso, seria uma violação das regras da lógica dedutiva trocar a reivindicação original pela invertida. Uma vez que a violação deste ou de qualquer outra regra dedutiva cria uma situação em que nenhuma conclusão deveria ou poderia ser logicamente alcançada, qualquer argumento de que viola uma dessas regras é estruturalmente falho.

Deve-se fazer várias perguntas ao aplicar o princípio estrutural a um argumento particular. O argumento está de acordo com a estrutura fundamental de um argumento, fornecendo pelo menos uma reivindicação (a premissa) cuja verdade pode tornar mais provável que alguma outra alegação (a conclusão) seja verdadeira? Poderia alguma das premissas-chave do argumento ser interpretada como fazendo a mesma reivindicação que a conclusão? Alguma premissa contradiz outra premissa? A conclusão contradiz alguma premissa? Se o argumento é dedutivo, a estrutura do argumento viola qualquer lei conhecida de lógica dedutiva?

(NdoT.: Para quem não percebeu, qualquer argumento que viole o Princípio Estrutural de Damer está incorrendo em uma Falácia Formal. Existe uma lista de falácias formais mais comuns (podem ser encontradas em sites como a wikipedia facilmente), como a Afirmação do Consequente (“Se A implica em B e B é verdadeiro, então A é verdadeiro” é um argumento estruturalmente falho e formalmente falacioso.) Vejam meu artigo sobre Falácias Formais: Falácias: uma breve introdução – e poderão se aprofundar no assunto. Para quem não sabe o que é um argumento sólido, basta ver neste post aqui: O que é um Argumento? – Parte 3b: Validade e Solidez.)

Um Código para a Conduta Intelectual – Parte 6: O Princípio da Caridade

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Título Original: Attacking Faulty Reasoning: A Practical Guide to Fallacy-Free Arguments Autor: T. Edward Damer
Publicação: Wadsworth Publishing; 6ª ed. (2008), pgs. 19 e 20
Tradução: Marco Aurélio Moura Suriani (Mr. Monk)

O PRINCÍPIO DA CARIDADE

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Se o argumento de um participante é reformulado por um adversário, ele deve ser cuidadosamente expresso na sua versão mais forte possível que seja consistente com o que se acredita ser a intenção original do argumentador. Se houver qualquer dúvida sobre essa intenção ou sobre qualquer parte implícita do argumento, o argumentador deve receber o benefício da dúvida na reformulação e/ou, quando possível, a oportunidade de alterá-lo.

Uma vez que um argumento foi reformulado, a discussão torna-se então uma questão de analisar se foi reconstruído de forma justa. Para assegurar a equidade, deve-se permitir que o argumentador corrija ou até mesmo refine ainda mais, de modo que a melhor versão possível do argumento fique sob escrutínio.

Se você está reconstruindo um argumento de seu oponente, você deve fazer todos os esforços para ser tão cuidadoso quanto possível em formular o argumento que você acha que ele ou ela realmente pretendia fazer. Você não precisa transformá-lo em um argumento diferente ou melhor do que é, mas você deve dar o argumentador o benefício de qualquer dúvida que você possa ter sobre a sua intenção. Isso significa que você deve estar disposto a fornecer as peças não declaradas ou implícitas do argumento para eliminar qualquer confusão obviamente irrelevante, e talvez até mesmo a utilizar uma linguagem mais clara ou mais precisa do que a utilizada no argumento original. Você não deve, no entanto, tentar melhorar o argumento fornecendo premissas que não estão presentes de maneira nem explícita nem implícita.

Uma vez que a versão mais forte de um argumento do adversário for colocada em uma forma padronizada, com todo o material estranho esclarecido, seu caráter defeituoso pode ser bastante aparente. Na verdade, os defeitos podem ser tão óbvios que o argumentador pode até acusá-lo de distorcer o argumento. Para ajudar a evitar tal problema, você pode pedir para o argumentador confirmar a exatidão de seu trabalho antes de chamar a atenção para qualquer falha no argumento dele. Se os defeitos do argumento são claramente expostos por colocá-lo em forma padrão, o argumentador pode ser tentado a fazer alterações no argumento de imediato, a fim de torná-lo melhor. Se você estiver se sentindo especialmente de caridade, você pode até querer dar uma mão útil para o processo.

Deve estar claro agora que uma boa discussão em geral e uma boa argumentação em particular impõem uma exigência ética a seus participantes. Mas há também uma razão prática para ser justo com argumentos dos outros. Se nós deliberadamente criamos e em seguida atacamos uma versão fraca do argumento original, nós provavelmente iremos falhar em alcançar os próprios objetivos que a discussão é projetada para servir. Se estamos realmente interessados ​​na verdade ou na melhor resposta para um problema, então nós queremos avaliar a melhor versão de qualquer argumento apresentado em apoio de uma das opções. Portanto, se não lidarmos com a melhor versão agora, nós eventualmente teremos de fazê-lo, uma vez que uma versão sem caridade pode ser corrigida pelo argumentador ou por outros. Faríamos bem, então, para sermos justos, deixar os nossos adversários alterar qualquer parte de nossa reconstrução de seus argumentos.