A Falha da Ciência e da Filosofia Natural na Era das Trevas – Parte 4: Mendel e as Impressoras

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Título Original: The Intellectual Decline of Europe /
Failure of Ancient Science and Natural Philosophy
Autor: DAVID DEMING
Publicado Originalmente em: Science and Technology in World History,
Vol. 2 – Early Christianity, the Rise of Islam and the Middle Ages,
McFarland & Company, EUA, 2010, pgs. 47-56
Tradução: Marco Aurélio Suriani
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MENDEL E AS PRENSAS DE IMPRESSÃO

Na ciência moderna, a verdade provisória é estabelecida através do critério de repetibilidade. Um programa sistemático de observação ou experimentação é realizado e os resultados são comparados. Se quase todo mundo obtém o mesmo resultado, chega-se ao acordo de uma verdade ou consenso provisórios. O método funciona razoavelmente bem, mas requer substratos tecnológicos e econômicos. Deve haver uma comunidade de cientistas e uma estrutura organizacional fornecida por uma ou mais sociedades profissionais. Isso só pode existir em sociedades prósperas. Mais importante, os resultados individuais têm de ser amplamente distribuídos: tem que haver uma prensa de impressão (ou seu equivalente eletrônico).

A importância da imprensa é ilustrada pela experiência de um monge austríaco do século XIX, Gregor Mendel (1822-1884). Mendel se tornou um monge cristão porque isso “libertou-o imediatamente da sua luta pela existência”, [38] e permitiu-lhe completar sua educação. Ele entrou em um monastério em Brünn, Áustria, em 1843 com a idade de 21. Em 1847, ele foi ordenado padre.

Mendel era um estudante talentoso. No Instituto Filosófico da Universidade de Olmütz, “ele alcançou o mais alto grau em todos os cursos, exceto em filosofia teórica e prática, na qual ele teve a segunda melhor nota.” [39] Mas Mendel nunca foi capaz de passar no exame de certificação do estado para os professores, falhando em 1850 e em 1856. Mendel era muito nervoso e estava freqüentemente doente. Quando a ele foi atribuído o dever de cuidar de um doente, ele “foi acometido de uma timidez paralisante e então ele próprio ficou gravemente doente.” [40]

Mendel freqüentou aulas na Universidade de Viena entre 1851 e 1853. Seus estudos primários foram em física, mas ele também teve aulas de ciências naturais, incluindo química, matemática, zoologia e botânica. Em 1853, Mendel retornou ao mosteiro em Brünn e ensinou ciência natural na escola técnica lá até 1868. Evidentemente, ele foi autorizado a ensinar, embora ele nunca foi capaz de passar no exame de licenciamento estatal.

Em 1854, Mendel começou a realizar experimentos de melhoramento de pés de ervilha no jardim do mosteiro, testando “34 variedades para a constância de suas características.” [41] Após dois anos de trabalho preliminar serem concluídos, Mendel escolheu investigar a hereditariedade de sete tipos de diferenças cruzando pés de ervilha. O pé de ervilha tem sete pares de cromossomos, um fato que nem Mendel nem ninguém no século XIX poderia ter imaginado. Sete era o maior número de diferenças que Mendel poderia ter escolhido para investigar e obter resultados significativos. A escolha dos sete era, evidentemente, baseada em insigths obtidos por Mendel durante seus experimentos preliminares.

Mendel concluiu seu estudo em 1863, e publicou seus resultados na revista Proceedings, da Sociedade de História Natural de Brünn em 1866. Foi talvez um dos dez mais importantes trabalhos científicos já publicados, mas o manuscrito foi largamente ignorado. Até o ano 1900, podia-se contar nas mãos as referências ao trabalho de Mendel na literatura científica. [42]

Quinhentos exemplares da revista em que o artigo de Mendel apareceu foram impressos. Destes, 115 foram distribuídos aos “institutos científicos ou bibliotecas.” [43] Mendel ordenou 40 reimpressões que, presumivelmente, foram enviadas para os cientistas de renome, incluindo Charles Darwin. Apenas uma pessoa se preocupou em devolver a correspondência de Mendel, o Professor Nägeli da Universidade de Munique. E a carta de Nägeli indicou que não compreendia o trabalho de Mendel. [44] Ninguém percebeu plenamente a importância das descobertas de Mendel.

Independente de suas falhas em exames formais, os colegas de Mendel evidentemente o tinham em alta conta. Em 1868, ele foi eleito abade do seu mosteiro, uma posição que não permite ter tempo para a pesquisa científica. A carreira científica de Mendel foi encerrada prematuramente.

Em 1884, Mendel morreu em relativa obscuridade e o novo abade queimou todos os seus artigos. [45] Pouco antes de sua morte, Mendel declarou: “eu passei por muitos momentos amargos na minha vida. No entanto, admito com gratidão que os bons e belos momentos foram muito mais numerosas do que os outros. Meu trabalho científico me trouxe muita satisfação e estou convencido de que o mundo inteiro irá reconhecer os resultados desses estudos.” [46]

O trabalho de Mendel ficou enterrado em bibliotecas por 34 anos. Em 1900, três outros cientistas independentemente duplicaram os resultados Mendel. Quando procuraram na literatura, eles descobriram que a mesma teoria da genética já havia sido publicada 34 anos antes por um desconhecido monge austríaco. [47]

Em 1902, a revista Nature relatou, “cerca de dois anos atrás, foi feita a descoberta de que Gregor Mendel, que fora Abade de Brünn, tinha muito tempo antes disso, na reclusão de seu claustro, concebido e realizado através de uma série notável de experimentos em fertilização-cruzada; e extraiu deles uma teoria plausível o suficiente para, caso sua verdade possa ser estabelecida, colocar toda a questão da hereditariedade numa base inteiramente nova.” [48] Com o tempo, a teoria de Mendel se provou “plausível”, e ele se tornou reconhecido como o fundador da ciência da genética.

No mundo antigo, os manuscritos tinham que ser impressos à mão. Foi um processo difícil e trabalhoso que restringia a ciência a uma atividade individual e que tornava difícil estabelecer um critério pelo qual se poderia entrar em acordo sobre verdades objetivas. Ninguém reconheceu imediatamente a descoberta de Mendel após ampla circulação de seus resultados. Se os relatórios de resultados de Mendel tivessem se limitado a um punhado de cópias feitas à mão, teria sido ainda mais difícil.

Mendel realmente recebeu reconhecimento, mas não durante sua vida. Isso só foi possível porque o seu trabalho tinha sido amplamente distribuído e arquivado. Levou tempo, mas eventualmente as contribuições científicas do monge obscuro entraram no mainstream. Mas se Mendel tivesse vivido no século V aC, é improvável que alguém tivesse tido o trabalho de copiar e distribuir a obra de um autor desconhecido, especialmente quando ninguém reconhecia o manuscrito como possuindo qualquer valor especial. Platão e Aristóteles tiveram seu trabalho reconhecido e preservado em parte por causa de suas ligações políticas e status social. Muitos gênios do mundo antigo devem ter passado para o esquecimento, e seus trabalhos perdidos para sempre.

A imprensa pode parecer ser uma máquina simples, mas provavelmente estava além das capacidades tecnológicas dos antigos gregos e romanos. A capacidade de fazer cópias em massa é inútil sem uma fonte abundante de material para imprimir em cima. O papel foi inventado na China em 105 dC, mas não foi introduzido na Europa até 1150 dC. [49] “A principal razão para essa falha no desenvolvimento da impressão reside, sem dúvida, no fato de que não havia oferta abundante de material de impressão de uma textura uniforme e de forma conveniente. O fornecimento de papiro era estritamente limitado, cada tira tinha de ser presa a outra tira, e não havia nenhum tamanho padrão de folha. O papel ainda tinha que vir da China para libertar a mente da Europa. Se houvessem prensas, elas teriam que ficar paradas enquanto os rolos de papiro eram lentamente feitos.” [50]

A tecnologia da prensa de impressão também depende das técnicas metalúrgicas necessárias para produção em grandes quantidades. O primeiro tipo usado na Europa c. 1450 “foi uma liga de estanho e chumbo”, e as técnicas utilizadas para sua fundição provavelmente foram emprestadas da fabricação do estanho. [51] A tinta também era um problema. Antes da imprensa, a impressão à mão era feita com uma tinta à base de água, cuja cor preta derivava de fuligem ou de galato férrico. Mas a tensão superficial da água torna difícil a aplicação da tinta à base de água de modo uniforme nas superfícies de metal. Prensas de impressão que empregavam tipografia de metal empregava uma tinta com base em um “verniz de óleo de linhaça”, que foi provavelmente inventada por Johann Gutenberg (1398-1468). [52]

Embora a tecnologia para o desenvolvimento de uma imprensa estivesse faltando, também faltava imaginação. Em nenhum manuscrito antigo há qualquer declaração de que um meio de impressão mecânica era possível ou mesmo desejável. Não parece ter havido o entendimento de que uma ampla disseminação de conhecimento poderia beneficiar a humanidade. Aristóteles evidentemente não se importou em gravar e distribuir sistematicamente o seu conhecimento. O que sabemos de Aristóteles vem de um punhado de manuscritos mofados que escaparam do esquecimento através de puro acaso. E a maioria desses manuscritos parecem ter a forma de notas de aulas gravadas pelos alunos, em vez de uma tentativa cuidadosa do mestre de arquivar seus pensamentos.

Continua…

Notas e Referências:

38. Weiling, F., 1991, Historical Study. Johann Gregor Mendel, 1822–1884. American Journal of Medical Genetics, vol. 40, p. 4.
39. Ibid., p. 3.
40. Ibid., p. 5.
41. Encyclopædia Britannica Online, 2009, Mendel, Gregor, retrieved March 16.
42. Weiling, F., 1991, Historical Study. Johann Gregor Mendel, 1822–1884. American Journal of Medical Genetics, vol.
40, p. 10–11.
43. Ibid., p. 10.
44. Henig, R. M., 2000, The Monk in the Garden. Houghton Mifflin, New York, p. 152.
45. Ibid., p. 171.
46. Weiling, F., 1991, Historical Study. Johann Gregor Mendel, 1822–1884. American Journal of Medical Genetics, vol. 40, p. 21–23.
47. Henig, R. M., 2000, The Monk in the Garden. Houghton Mifflin, New York, p. 179–198.
48. F. A. D., 1902, Mendel’s Theory of Heredity. Nature, no. 1719, vol. 66, p. 573.
49. Singer, C., 1956, Epilogue. East and West in Retrospect, in A History of Technology, vol. 2, edited by Charles Singer. Oxford University Press, London, p. 771.
50. Wells, H. G., 1921, The Outline of History, Third Edition. Macmillan, New York, p. 347.
51. Clapham, M., 1957, Printing, in A History of Technology, Chapter 15, vol. 3, editado por Charles Singer. Oxford University Press, London, p. 386.
52. Ibid., p. 381.

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