Craig e o Massacre de Newtown – Parte 2: O que está em jogo

Este post é um pequeno complemento ao que foi publicado há alguns dias intitulado Craig e o Massacre de Newtown. Julguei erroneamente que a maioria dos cristãos fosse entender o que realmente estava em jogo naquela publicação, que fossem entender que esta não era uma crítica do ateísmo à religião como um todo, mas uma crítica àquela visão apresentada por Craig.

Desconfiei que houve um erro de interpretação quando, em mídias sociais, alguns cristãos tentaram defender Craig. Desconfiei porque acredito que a grande maioria dos cristãos não concorda com aquilo que o apologista realmente quis dizer na ocasião. Acredito que algumas pessoas que discordam dele o defenderam porque não entenderam, e num ato de automatismo, o defenderam achando que estavam defendendo sua própria fé. Então vamos explicar o que Craig realmente estava dizendo e colocar a limpo o que realmente estava em jogo.

A primeira coisa a se saber é que Craig parte do pressuposto de que a teoria moral válida é a Teoria do Comando Divino (doravante TdoCD), que basicamente diz que tudo que Deus ordenar é certo, mesmo que possa parecer absurdo. Essa teoria, entretanto, não é unânime sequer dentro da teologia. A maioria dos cristãos tem preferido a Teoria da Lei Natural (doravante TdaLN), que diz que Deus embutiu uma moralidade correta no mundo, ou na natureza, e que pode ser deduzida pela razão.

Teologicamente falando, cabe a mim provar que qualquer uma delas é falsa? Não! Para mim, que não acredito em Deus, ambas são falsas, logo não preciso fazer demonstrações teológicas.

Contudo, dentro de um ponto de vista um pouco mais amplo, fora da teologia, aí sim faz sentido – para mim – tentar desacreditar a TdoCD. Mas o que eu posso fazer? Se eu fosse capaz de mais do que provar – provar E convencer – qualquer pessoa de que Deus não existe, eu estaria feito e tudo se resolveria. Mas não posso.

Então me resta tentar demonstrar o absurdo que é acreditar na TdoCD. Veja, ela leva uma pessoa como Craig acreditar que tudo bem: Deus pode permitir um massacre de inocentes desde que isso ajude ele a ter um relacionamento melhor com sua criação. Parece razoável?

Daí alguém pode dizer: “mas o mundo é um lugar muito mal, precisamos dessa relação com Deus para nos sentirmos melhor” ou algo parecido, mas daí vem a pergunta: é preferível viver em mundo onde Deus evita o mal e nós temos menos motivos pelos quais temer e sofrer ou num mundo onde Deus não evita o mal e nós temos que procurá-lo para renovar nossa esperança?

Aliás, segundo Craig, Deus não só permite o mal, como o usa como forma de nos lembrar que devemos nos relacionar com ele! Será que nos relacionar com ele é mais importante do que uma vida menos miserável? Será que é moralmente aceitável um ser que usa crimes para nos deixar em pânico e nos forçar a buscar auxílio dele? Será que é moralmente aceitável ser coagido a se relacionar com alguém, mesmo que esse alguém seja nosso criador?

Se eu pudesse estabelecer como metáfora a história de um policial que ao invés de impedir crimes, apenas consola as vítimas, poderíamos pelo menos nos degladiar sobre um assunto muito mais delicado: esse livre-arbítrio “hard core” realmente faz sentido? Mas essa não é a metáfora mais correta. A metáfora mais adequada seria a de um policial que deliberadamente permite os crimes que poderia evitar para depois consolar as vítimas. Um policial que fizesse isso, seria um canalha com sérios problemas sociais e afetivos. Por que um Deus que faz isso não é?

Só a TdoCD pode justificar Deus se comportando dessa maneira. Por isso, ela é errada e por isso acho desprezíveis as conclusões que se tira delas e, de certa forma, as pessoas que recorrem a ela.

Se por outro lado Craig seguisse a TdaLN, ele diria que Deus permitiu os ataques porque não se permite agir sobre o mundo, mas espera que as pessoas, ao verem isso, reflitam e busquem melhorar e que ele pode ajudar quem não estiver suportando os males do mundo. Seria a metáfora do policial omisso mas que tem ombro amigo, e eu não ficaria tão indignado como fiquei.

Veja que minha crítica foi feita pelo lado de fora, sem entrar na questão teológica de qual das duas teorias é correta. Aliás, minha crítica pode ser feita perfeitamente por qualquer cristão que siga a TdaLN e que condene o uso da TdoCD.

O que está em jogo aqui é o quão absurda era essa ideia de Craig de que Deus promove o mal no mundo como uma mensagem de que devemos nos relacionar com ele para termos mais esperança. Se ao menos o “maldito” ficasse quieto no canto dele, o mundo seria melhor e, pobrezinho, não daríamos a mínima para ele. O que está em jogo aqui é uma crítica à TdoCD e não uma crítica a toda moralidade cristã. Não que eu não queira criticar toda ela, mas esse caso só me dá material para criticar a TdoCD especificamente. Eu desejava mostrar o quanto é absurda a ideia de Craig de Deus usando o massacre como mensagem de Natal e que de quebra colocar a base dele em cheque.

Alguns cristãos, imersos em sua (completamente negada) falta de conhecimento sobre religião, trocaram os pés pelas mãos e acharam que ao me criticar estavam defendendo a crença em Deus sendo que, na verdade, defender Craig nesse caso é defender um Deus que usa os crimes dos outros para promover a si mesmo, numa atitude que seria claramente mesquinha e desprezível se feita por qualquer outra pessoa.

Se não foi isso que aconteceu, então quem me criticou prefere a TdoCD à TdaLN e concorda que está tudo bem em acreditar num Deus que age dessa forma, mas meu palpite é que eles não sabiam sequer o que estava em jogo nessa conversa toda.

E aí? Vão continuar defendendo Craig e a visão de Deus que ELE tem?

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Uma consideração sobre “Craig e o Massacre de Newtown – Parte 2: O que está em jogo”

  1. Também recebi esse tipo de questionamento:

    Sobre a questão do assassinato de crianças, grato por você ter deixado claro que o ateísmo não tem como validar tal ato como certo ou errado. E que para emitir um parecer sobre o caso, ele, o ateísmo, necessita recorrer a uma “moral secular”, o que na verdade, quando avaliada de um ponto de vista a longo prazo, nada mais é do que algo temporário e mutável, ou seja, se hoje um determinado ato é classificado como errado, amanhã poderia ser encarado como certo. E isso, no final das contas, não passa de outra ilusão (vista a partir do tempo), pois pode alternar sua “polaridade”, tornando-se inconfiável e não servindo como base de apoio para nada.

    O ateísmo não se propõe como sistema moral. Eu não disse que ele não tem como validar, mas sim que ele não precisa validar. O ateísmo é uma descrença, e como tal, não tem a obrigação de explicar a moralidade. Isso, obviamente, não impede o ateu de ter de responde de onde ele tira a moralidade. A moral secular é aquela que não depende de nenhum deus, de nenhuma crença sobrenatural para ser deduzida. A própria TdLN não entra em conflito com essa visão! A única diferença é que ela parte do pressuposto de que a moral que os seculares forem capaz de deduzir, apesar de correta, não é algo natural, mas algo embutido por Deus.

    Esse negócio de ser mutável, puts… para começar, toda moral é mutável, inclusive a cristã. Deus exigia, no Novo Testamento, rituais que hoje não exige mais. A “Nova Aliança” sobre a qual muitos falam, é uma mudança na moralidade. Ter que acreditar em Jesus também é mudança que ocorreu. Se isso fosse parâmetro para alguma coisa… teria que jogar a moral cristã na mesma lixeira que a secular.

    Segundo lugar, que não tem problema a moralidade sofrer mudanças com o tempo. A sociedade muda, e os contextos socio-culturais também. Cada época exige moralidades um pouco diferentes. Por exemplo, é moral condenar alguém por homicídio sem provas concretas? Depende… a jurisprudência brasileira tem apresentado uma leve tendência a responder que não.

    Jura? Juro. Não só a brasileira, como a norte americana. Isso tudo por causa do narcotráfico.

    Se um traficante começa a matar seus concorrentes e inimigos na região em que atua, como provar que ele está matando? IM-POS-SÍ-VEL. Agora, a justiça deve amarrar suas próprias mãos e dizer: “não vou fazer nada”? Muitos dizem que sim, mas se procurar bem, verá casos onde traficantes assim foram condenados sem praticamente prova alguma, só com depoimentos (muitas vezes duvidáveis, feitos por traficantes que nunca se beneficiariam com a prisão do réu)

    Acha isso certo? Não seria, se a situação não demandasse a falta de rigor que capaz de possibilitar uma atitude mais severa.

    Agora, se uma situação social pode levar à moralização de algo assim, ela poderia levar à moralização de massacres como o de Newtown? Teoricamente sim. Mas daí você teria que me dizer em que situação social seria aceitável entrar numa escola armado e matar 27 crianças sem nenhum motivo aparente. Na prática, isso jamais aconteceria, pois dentro dos critérios usados para validar moralmente uma atitude, jamais haveria uma situação em que isso seria aceitável. Não se preocupe, não vamos aprovar isso nunca.

    Em contrapartida, na teoria do Comando Divino, isso seria aceitável se Deus se interessasse no resultado dessa ação.

    A moral secular JAMAIS aprovaria esse massacre. A moral cristã, como você viu o Craig fazendo, a aprovou, mesmo que num nível menos aparente, mas aprovou.

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