Explicando a Ressurreição sem Recorrer a Milagres – Parte 4: Os Sósias

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Título Original: Explaining the Resurrection without Recourse to Miracle
Autor: Dr. Robert M. Price
Publicado Originalmente em: The End of Christinaity,
editado por John W. Loftus, Prometheus Books, EUA, 2011, Capítulo 9
Tradução: Marco Aurélio Suriani
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NÓS JÁ NOS VIMOS ANTES?

À primeira vista, a ideia de que o Senhor Ressuscitado era, hm, uma outra pessoa, talvez algum outro salvador, ou alguém representando Jesus, parece bobagem. Identidade errada? Você só pode estar brincando! Mas os próprios Evangelhos introduzem esta suspeita – não a de que alguém estava representando o Jesus morto (como as pessoas que posteriormente alegaram ser David Koresh, por exemplo [N.doT.: é mais ou menos como alguém alegando ser Cleópatra ou Júlio César hoje em dia]), mas sim a suspeita de que os seus discípulos em luto, resistentes em deixá-lo ir, agarraram-se à ilusão de que algum indivíduo desconhecido que encontraram logo após a crucificação deve realmente ter sido Jesus, vivo novamente.

Se quiséssemos fazer o papel de verdadeiros críticos do Novo Testamento, e não apenas jogar o jogo dos apologistas, nós provavelmente devemos chegar a algo como a teoria de James M. Robinson na qual o motivo para o não reconhecimento era decorrente do entendimento original de que aparições de ressurreição seriam como explosões de luz brilhante e ofuscante, na qual nenhuma forma humana poderia ser facilmente delineada. [29] Pense em Apocalipse 1:14-16; ou Marcos 9:2-3; ou Mateus 17:2 (muitas vezes tomada como uma narrativa deslocada da ressurreição); ou Atos 9:3-6: todos estes representam um Jesus brilhante com uma radiação sobrenatural. [30]

Como tal, ele não é facilmente reconhecível. “Quem és tu, Senhor?” (Atos 9:5). Robinson acha que esta é a origem e o ambiente natural do motivo. O problema é que ela foi herdada por narrativas da Páscoa que foram reescritas como se o Jesus carnal tivesse se levantado da maca do necrotério e se anunciado: o mesmo homem, no mesmo corpo. Nesse caso, por que eles não conseguiram reconhecê-lo da mesma forma que faz um parente chamado para o identificar um defunto?

O motivo do não reconhecimento já não serve, funcionando apenas como um lembrete revelador da fé pascal de tempos passados. (Do mesmo modo, as histórias que ainda retratam o Jesus Ressuscitado no meio de uma luz da qual não conseguimos chegar perto não são mais apresentados como tecnicamente histórias de ressurreição! Agora elas são visões especiais concedidas a indivíduos ou pequenos grupos, antes ou depois da Páscoa).

As histórias de Páscoa que são contadas atualmente apresentam um Jesus carnal, sem os efeitos especiais, mas ainda há este persistente detalhe de duvidar que é ele mesmo, ou até mesmo de pensar que ele é uma outra pessoa. Os discípulos a caminho dos Emaús  (Lucas 24:13-35) conversam com o homem durante horas, e apenas quando ele desaparece, ocorre a eles que era seu velho mestre. Os discípulos, mesmo ao receberem ordens diretas, ponderam se é realmente ele (Mateus 28:17“mas eles [não “alguns deles”] duvidavam”). [31] (N.doT.: Não deixem de ler essa nota!) Maria Madalena no túmulo também não reconhece Jesus (João 20:14). Os discípulos desiludidos, se reajustando a uma vida mundana, vêm Jesus na praia, mas eles não o reconheceram (João 21:4). Vamos dar aos apologistas o benefício da dúvida e agir como se essas histórias evangélicas da Páscoa fossem, como eles insistem, narrativas genuínas de encontros. Todo esse negócio de não reconhecimento, que nós jamais esperaríamos, inevitavelmente convida à suspeita de que os encontros de Páscoa eram realmente avistamentos de, encontros com, figuras só mais tarde identificadas como Jesus, e depois como um meio de escapar da tristeza e do desespero.

“Percebendo” que era Jesus em retrospecto não era tão bom como percebê-lo no momento exato, mas depois surgiu uma vantagem: tal afirmação não poderia ser desmascarada. É como quando alguém dá instruções a uma pessoa perdida que parece familiar, mas não pode ser reconhecida, e mais tarde um amigo lhe diz: “Eu ouvi tal celebridade estava na cidade hoje, sem aviso prévio.” E então se pensa, “Deve ter sido ele! Se eu tivesse percebido isso naquele momento! Eu poderia ter pedido um autógrafo!” Mas que diabos, ainda assim é muito emocionante. E, claro, poderia não ter sido a celebridade, e uma vez que você não pode mais verificar de uma forma ou de outra, você ainda pode contar a história, usando o elemento de incerteza apenas como tempero.

Marcos (6:14; 8:28) fornece um precedente marcante quando nos diz (duas vezes, não menos) que muitas pessoas acreditavam que estavam vendo ou ouvindo sobre um João Batista ressuscitado, apesar de Marcos afirmar saber mais: era um caso de identidade trocada, uma vez que a figura era na verdade Jesus. Não é exagero se perguntar se a mesma coisa aconteceu no caso de Jesus. Afinal, havia uma abundância de tais figuras ao redor. Celso nos diz que sempre havia um profeta circulando pela Fenícia e pela Palestina:

Há muitos, que não possuem nome …, que profetizam pela menor desculpa por alguma causa trivial dentro e fora dos templos, e há alguns que vagueiam mendigando em torno de cidades e campos militares; e eles fingem se moverem como se tivessem dando algum auxílio oracular. É um costume ordinário e comum para eles dizer: “Eu sou Deus (ou um filho de Deus, ou um espírito divino). E eu vim. O mundo já está sendo destruído. E vocês, ó homens, estão prestes a perecer por causa de suas iniquidades. Mas eu gostaria de vos salvar. E vocês devem me ver voltar novamente com o poder celestial. Bendito é aquele que me adora agora! Mas eu lançarei fogo eterno sobre todo o resto, tanto em cidades e quanto em lugares do país. E os homens que não conseguem perceber as penalidades que os aguardam irão em vão se arrepender e gemer. Mas vou preservar para sempre aqueles que foram convencidos por mim.” [32]

Jesus pode ter sido tomado por um destes, ou um desses por Jesus. O Sermão do Monte das Oliveiras explicitamente adverte seus leitores a não misturar pessoas como Simão bar-Giora e Jesus ben-Ananias com Jesus Cristo (Marcos 13:5-6, 21-23), alguma coisa alguém deve ter feito, ou nós não estaríamos lendo nenhum aviso! Da mesma forma, Paulo foi levado para o profeta revolucionário egípcio em Atos 21:38, também mencionado por Josefo. É dito que Simão Mago alegou ser Jesus: “Ele contou que era ele mesmo que, em verdade, apareceu entre os judeus como o Filho…. e pensaram que ele tinha sofrido na Judéia, embora ele realmente não tenha sofrido.” [33]

Essas identificações errôneas não são difíceis de entender, uma vez que compreender a forma como “heróis locais” (incluindo os santos populares e revolucionários) são venerados no Oriente Médio e tem sido por milênios. Scott D. Hill diz: “Muitas vezes, os homens vivos são vistos como encarnações ou representantes de um herói local conhecido.” [34]

Vamos nos imaginar entre a comunidade apostólica nos primeiros dias. Ouvimos relatos de vários dos irmãos que viram o retalhado Jesus vivo novamente. Naturalmente, nossos olhos se arregalam; nossos ouvidos ficam em pé. E, como Thomas, perguntamos: “Você têm certeza? Conte-me mais sobre isso!” E alguém diz: “É claro que eu não sabia que era Jesus na época. Eu só me dei conta depois.” (assim como em Lucas 24:13-32). Outro diz: “A pessoa que vi não se parecia exatamente com ele, eu admito, mas depois eu percebi que deve ter sido Jesus.” (assim como em Mateus 28:17; João 20:14-15; 21:2-12). E assim por diante. Eu digo a você que estaríamos justificados em imaginar o que poderia ter acontecido, ao invés de ficarmos convencidos de que os nossos amigos tinham realmente visto Jesus. Seus próprios testemunhos criam dúvida em vez de fé.

Continua…

Notas e Referências:

29. James M. Robinson, “Jesus from Easter to Valentinus (or to the Apostles Creed),” em Jesus according to the Earliest Witness, ed. James M. Robinson (Minneapolis: Fortress, 2007), 38–39.

30. Rudolf Bultmann, History of the Synoptic Tradition, tradz. John Marsh (New York: Harper and Row, 1972), 259–61.

31. Ao contrário das contenciosas mas populares traduções modernas, o texto simplesmente diz kai idontes autonprosekunesan hoi de edistasan, “e ao vê-lo eles o adoraram, mas duvidaram”, implicando todos os 11 discípulos (o hoi de Mateus 28:17 é o mesmo de hoi de Mateus 28:16, especificamente hoi endeka mathetai“os 11 discípulos”).

32. Citado em Origen, Contra Celsum, tradz. Henry Chadwick (New York: Cambridge University Press, 1980), 402.

33. Irenaeus, Against Heresies 1.23.1, 3.

34. Scott D. Hill, “The Local Hero in Palestine in Comparative Perspective,” em Elijah and Elisha em Socioliterary Perspective, ed. Robert B. Coote (Atlanta: Scholars Press, 1992), 37–74.

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