O brasileiro não é racista

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Título Original:
 O preconceito de cor não tira dia de descanso
Autor: ALBERTO CARLOS ALMEIDA
Publicado Originalmente em: Revista Época – 24/11/2012 – 10h00min
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Não há raça no Brasil e, portanto, não há racismo. No Brasil, há cor e preconceito de cor. Oficialmente nós, brasileiros, somos classificados entre “brancos”, “pretos”, “pardos”, “índios” e “amarelos”. O IBGE pergunta com essas palavras em suas pesquisas. É o que está escrito em nossa certidão de nascimento. A classificação oficial não é assim à toa. Foi debatida, criticada, defendida e aperfeiçoada por décadas. Mudanças importantes ocorreram. Já houve o tempo em que “pardo” não era “pardo”, era “amarelo”.

Ela revela sobre nós, brasileiros, que, diferentemente do que acontece nos Estados Unidos, não nos vemos como raça, mas como cor. O que importa aqui é a cor de pele. Em que pese o esforço do movimento negro para reunir cores diferentes sob a denominação única de “negro”, não é assim que os brasileiros se veem. O Brasil não é EUA. Aqui existe o “preto que, de tão preto, é azul”, existe o “preto desbotado”, existe o “moreno” (que não é “preto”), existe o “sarará” e existem muitas outras cores. Nós, brasileiros, vemos inúmeras variações entre os dois extremos, entre o “branco” e o “preto”.

É difícil para uma sociedade admitir que ela é preconceituosa. E o Brasil é. Há, no Brasil, preconceito de cor contra “pardos” e “pretos”. Admitir isso é o mesmo que se olhar no espelho e ver um pequeno defeito no rosto, algo que venha a ferir sua autoestima por lhe fazer menos bonito do que você imaginava ser. Somos, como sociedade, menos bonitos do que imaginávamos, porque criamos barreira para “pardos” e “pretos” baseada em sua cor de pele.

SEM AMBIGUIDADE Manifestantes celebram em São Paulo o Dia da Consciência Negra. Tornou-se comum negar o preconceito, dizendo que ele é social. As pesquisas mostram que o negro pobre sofre mais que o branco pobre (Foto: Marlene Bergamo/Folhapress)

Quem duvidar dessa afirmação tem a chance de a ver comprovada em meu livro A cabeça do brasileiro. Por meio de uma pesquisa nacional, foi possível detectar nosso preconceito. Os próprios brasileiros disseram que são preconceituosos, afirmaram que criam barreiras para “pretos” e “pardos”, que tornam a vida deles mais difícil simplesmente por causa de sua cor de pele.

O feriado da semana passada em São Paulo e no Rio de Janeiro foi para celebrar o Dia da Consciência Negra. Estabelecer esse feriado foi uma vitória do movimento negro. O objetivo é marcar a identidade, é mostrar que os negros existem. O dia de descanso faz lembrar que a vida dos não brancos no Brasil é mais difícil que a vida dos brancos. Paramos de trabalhar no feriado, mas o preconceito continuou.

Um argumento frequente nos debates sobre o preconceito de cor no Brasil é a negação da diferença entre raças. Os defensores desse argumento afirmam que não querem ver o Brasil dividido, que todos somos seres humanos e que as raças não existem. Ainda que se admita a existência de raças, eles dizem que isso não deve, nem pode, separar as pessoas.

O argumento falha num aspecto importante: os brasileiros não dão a mínima para raça. Tal conceito não existe em nossa cabeça. Mas a cor é muito importante, e “brancos” são mais bem-vistos que “pretos” e “pardos” em relação a muitos atributos. O mérito do Dia da Consciência Negra é chamar a atenção para a situação dos não brancos no Brasil.

Negar que existam, no Brasil, “brancos”, “pardos” e “pretos” é brigar com a realidade. Eles existem, porque é assim que as pessoas se veem. Percepções desse tipo, arraigadas e cristalizadas, são tão reais e tão fortes como a lei da gravidade. Ninguém escapa de sua influência.

Nós, brasileiros, não temos preconceito de raça, mas de cor. Cotas deveriam ser para “pretos” e “pardos”.

Negar o preconceito é uma tarefa mais fácil. Temos propensão psicológica a não ver o que é negativo e a salientar nossos aspectos positivos. Nada mais fácil do que dizer para nós mesmos que não temos preconceito de cor e afirmar que o Brasil é uma sociedade generosa e cordial. Essa tarefa se torna ainda mais tranquila quando nos comparamos aos EUA e a sua segregação geográfica entre negros e brancos. Aí mesmo é que reforçamos uma autoimagem positiva.

A política de cotas raciais, como qualquer política pública, tem aspectos benéficos e maléficos. Ela vai contra um valor importante, a meritocracia. Mas assume corretamente que não é possível comparar, em igualdade de condições, “brancos”, “pardos” e “pretos”, porque pessoas de diferentes cores de pele, no Brasil, tiveram trajetórias sociais muito diferentes, que as colocaram em pontos de partida muito desiguais.

O aspecto mais importante da política de cotas é chamar a atenção, no Brasil, para os negros e para as barreiras à melhoria de vida que eles precisam enfrentar, maiores que para os brancos. A política de cotas fez o trabalho sujo de mostrar que há preconceito de cor no Brasil. É isso que mais causa resistência a ela. Ninguém se sente confortável admitindo o racismo de sua própria sociedade.

É preciso admitir que “pardos” e “pretos” serão os principais beneficiários de uma política que chama a atenção para o preconceito de cor. A psicanálise nos ensina que o primeiro passo para combater uma determinada propensão psicológica é tornar-se consciente dela. Isso serve também para as sociedades. Se queremos combater o preconceito de cor, o primeiro passo é nos tornarmos conscientes dele.

Tornou-se comum negar nosso preconceito de cor afirmando que o preconceito é social, contra os pobres. Mais uma vez, os dados da pesquisa publicada em A cabeça do brasileiro revelam que isso não é verdade. Quando um “preto” ou “pardo” da mesma posição social é comparado com um “branco”, é o “branco” quem leva vantagem. Os brasileiros criam menos barreiras para um “branco” que seja mecânico de automóvel do que para um “preto” ou um “pardo” que tenham a mesma profissão.

A primeira reação a essa afirmação é negá-la, mas não foi o que os brasileiros disseram quando questionados acerca disso. Eles disseram, com toda a clareza, que o preconceito de cor cria mais dificuldades para os não brancos pobres do que para os brancos igualmente pobres.

Políticas públicas que ajudem a mostrar que as dificuldades para melhorar de vida são maiores para “pretos” e “pardos” devem ser bem-vindas. Essa é uma razão suficiente para defender as cotas. O melhor é que elas não fossem raciais, sistema que nossa falta de criatividade nos fez copiar dos EUA, mas sim cotas para cores de modo explícito. Nossa ambiguidade nos fez ter três cores para classificar as pessoas. Nossa ambiguidade deveria ser incorporada na política pública das cotas para cores.

ALBERTO CARLOS ALMEIDA é cientista político, autor dos livros A cabeça do brasileiro O dedo na ferida: menos imposto, mais consumo. alberto.almeida@institutoanalise.com.br
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