A Falha da Ciência e da Filosofia Natural na Era das Trevas – Parte 3: Desdém Pela Tecnologia

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Título Original: The Intellectual Decline of Europe /
Failure of Ancient Science and Natural Philosophy
Autor: DAVID DEMING
Publicado Originalmente em: Science and Technology in World History,
Vol. 2 – Early Christianity, the Rise of Islam and the Middle Ages,
McFarland & Company, EUA, 2010, pgs. 47-56
Tradução: Marco Aurélio Suriani
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DESDÉM PELA TECNOLOGIA

A tecnologia é vista como um auxílio indispensável à ciência moderna, mas havia pouco apreço por ela no mundo antigo. A maioria dos filósofos e matemáticos gregos tinha um desdém intenso para a tecnologia e pelas artes práticas. Xenofonte citou Sócrates dizendo “as artes que são chamadas de artesanato são censuráveis e na realidade são, com justiça, praticadas com baixa reputação nas comunidades.” [20] Plutarco relatou que Arquimedes considerava a engenharia “sórdida e ignóbil”, e nunca fez qualquer registro escrito de seus aparatos mecânicos. [21] Platão criticou Arquitas e Eudoxo por terem introduzido a mecânica na matemática, portanto, “a mecânica chegou a ser separada da geometria, e repudiada e negligenciada pelos filósofos.” [22] Ao descrever as artes práticas e mecânicas, Aristóteles concluiu que “a discussão sobre tais questões não é indigna de filosofia, mas se envolver na prática delas é iliberal e cansativo.” [23]

Na Epístola 90, Sobre a filosofia e a Invenção das Artes, Sêneca argumentou que a filosofia era distinta e superior à tecnologia. A “oficina” não era um lugar de honra, e as artes práticas só eram boas para fazer “viveiros de peixes”.

Até aqui eu concordo com Possidônio [c. 135-51 aC], mas eu nego que aquelas artes que são de uso diário para as necessidades da vida foram invenção da filosofia; nem darei tão grande uma honra para a oficina. Ele [Possidônio] de fato diz que a filosofia ensinou aos homens que estavam dispersos, que viviam em cabanas, e em rochas ocas, e em troncos de árvores em decomposição, a construir casas: mas não posso mais pensar que a filosofia lhes ensinou a construir casas sobre casas, e torres sobre torres, mas sim que os instruiu a fazer viveiros para peixes. [24]

A partir do contexto, é claro que Sêneca estava indicando seu desacordo com Possidônio. Como Sêneca, Possidônio era um estoico. Mas os estoicos não concordam entre si sobre tudo. Todos os livros de Possidônio foram perdidos, mas a partir dos fragmentos citados por autores existentes, é evidente que “ele [Possidônio] acreditava que entre os homens primitivos, o filosoficamente sábio gerenciava tudo e descobriu todos os ofícios e a indústria.” [25] Parece, portanto, que nem todos os filósofos antigos desaprovavam a ligação entre filosofia e a tecnologia.


Máquina de Dois Pistões para fluxo contínuo de água para extinção de incêndio, provavelmente um trabalho de Ctesíbio (c. 250 aC) que Heron melhorou. Tirado do site de Michael Lahanas, Ancient Greek Inventions.

Vivendo ele mesmo no conforto mais ostensivo, Sêneca hipocritamente caracterizou luxo como “uma revolta da natureza.” [26] Ele fez o fantástico argumento de que os homens poderiam viver em harmonia na natureza, sem a necessidade de tecnologia. Mesmo se você não tem algo tão básico como abrigo, isso não era um problema. “As pessoas Syrtic não vivem em buracos cavados no subsolo?” [27] Trivializando todo o progresso humano e toda tecnologia, Sêneca fez a afirmação absurda de que em tempos antigos “casas, roupas, alimentos, remédios, e aquilo que é pensado ​​agora como de grande importância, eram óbvios, dados livremente, ou adquiridos com dores pequenas.” [28]

Sêneca reconheceu que houve inovação tecnológica durante sua vida. Mas ele menosprezou essas invenções à medida que o trabalho manual era tarefa apenas para “os piores escravos.”

No nosso tempo muitas invenções foram lançadas ao público; por exemplo, as janelas feitas de finas peças transparentes [de vidro]; além dos banhos de suspensão; [29] e tubos, de fogareiros, de modo escondido nas paredes para difundir o calor igualmente em todas as partes do quarto; para não mencionar diversos trabalhos em mármore, pelos quais nossos templos, e até mesmo as nossas casas, são tão finamente decorados: ou as enormes pilhas de pedra (pilares) que compõem na forma redonda e lisa nossos pórticos, e apoiar tais edifícios espaçosos que irão conter uma multidão de pessoas: nem preciso mencionar as cifras e personagens pelos quais um homem pode fazer todo um discurso […]. Estas são, ou podem ser, as invenções dos piores escravos. [30]

A associação de Sêneca entre escravos e a tecnologia é um lembrete de que os filósofos do mundo antigo tendiam a ser membros da classe superior, cujas necessidades físicas eram providas por trabalho escravo. A escravidão era endêmica no Mediterrâneo antigo. Estrabão relatou que “os romanos, tendo adquirido riqueza após a destruição de Cartago e Corinto [146 aC], empregaram grande número de escravos domésticos.” [31] O mercado de escravos em Delos [Grécia] era tão grande que foi capaz de “receber e transportar, quando vendidos, no mesmo dia, 10.000 escravos.” [32] A proporção de escravos em Itália durante a Era Romana foi estimada em algo entre 30 e 60 por cento do total da população. [33] De acordo com outra estimativa, no final do República Romana (27 aC), a população total da Itália era de seis milhões de pessoas, e um terço destes (dois milhões) consistia em escravos. [34]

Os escravos eram desprezados como um classe. [35] Algum alívio pode ter sido esperado na concepção estóica de uma fraternidade humana. Mas os estóicos também ensinavam que os indivíduos devem aceitar seu destino sem reclamar. Assim, houve pouca simpatia por qualquer um no cativeiro da escravidão. O desprezo pelos escravos como classe evidentemente levou consigo um desprezo cultural por qualquer arte técnica. Assim, os filósofos deixaram de apreciar a importância da tecnologia como um complemento à filosofia natural. Eles tenderam a inclinar-se na direção dos métodos puros de raciocínio geométrico que não os obrigavam a sujar suas mãos. *

Vitrúvio argumentou que “o conhecimento é o filho da prática e da teoria.” [36] Engenheiros sempre tiveram uma apreciação pela necessidade interligada da teoria e da prática, porque eles tiveram que construir máquinas, edifícios e infra-estrutura. O engenheiro começa com um modelo teórico, mas a teoria é imediatamente e repetidamente posta à prova. Caso a teoria se mostre inadequada ou incompleta, a necessidade requer que ela seja modificada. Na prática da engenharia antiga, a “teoria” pode não ter sido mais do que uma tradição artesanal oral, mas no entanto as idéias a respeito de como as coisas deveriam ser feitas foram submetidos a testes empíricos constantemente. Esse não foi o caso da filosofia e os filósofos antigos nunca se atentaram de forma significativa à importância do empirismo na ciência ou filosofia natural. **

Ao separar-se da tecnologia, a filosofia natural assegurou que não teria nenhuma utilidade prática. Ele foi amplamente considerada como sendo nada mais do que especulação. Nenhum filósofo nunca fez nada para melhorar a vida da pessoa comum. “a ciência [grega] pouco ou nada fez para transformar as condições de vida ou para abrir qualquer vista para o futuro.” [37] Sem uma ligação vital com a tecnologia, a filosofia natural era filosofia, não ciência.

Notas do Tradutor

* A Idade Média era tão falida que o trabalho manual passou a ser visto como uma virtude e não como uma vergonha. A miséria sistemática que veio em partes pela carolice cristã obsessiva de desprezar o corpo em detrimento da alma talvez prove que o método científico precisou sim do cristianismo para surgir rs

** O surgimento da engenharia – e também da medicina – prova que a ciência pode ter um desenvolvimento completamente alheio à filosofia e à religião. Ouso dizer que a necessidade do empirismo percebida quando se testemunhou o sucesso da engenharia foi quem moldou a filosofia, girando seu volante para esse rumo. Seria interessante ver alguém se aprofundando nessa questão: foi a filosofia que formou a ciência ou a ciência que moldou a filosofia?

Notas e Referências

20. Xenophon, 1898, Oeconomicus, Chapter 4, Paragraphs 2 and 3, in Xenophon’s Minor Works, translated by J. S. Watson. George Bell & Sons, London, p. 86.
21. Plutarch, 1952, Marcellus, in The Lives of the Noble Grecians and Romans, traduzido por John Dryden (1631–1700), Great Books of the Western World, vol. 14. William Benton,
Chicago, p. 253.
22. Ibid., p. 252.
23. Aristotle, 1885, The Politics of Aristotle, vol. 1, Book 1, Chapter 11, traduzido por Benjamin Jowett (1817–1893). Oxford at the Clarendon Press, London, p. 20 (1258b).
24. Seneca, Lucius Annaeus, 1786, The Epistles of Lucius Annaeus Seneca, Epistle 90, vol. 2. W. Woodfall, London, p. 117.
25. Warmington, E. H., 2008, Posidonius, em Complete Dictionary of Scientific Biography, editado por Charles Gillispie, vol. 11. Cengage Learning, New York, p. 103.
26. Seneca, Lucius Annaeus, 1786, The Epistles of Lucius Annaeus Seneca, Epistle 90, vol. 2. W. Woodfall, London, p. 120.
27. Ibid., p. 119.
28. Ibid., p. 120.
29. Evidentemente, esses “banhos suspensos” eram “tanques aquecidos.” Fagan, G. G., 1999, Bathing in Public in the Roman World. University of Michigan Press, Ann Arbor, p. 98. (N.doT.: também conhecidos como Hipocaustos, eram como piscinas construídas em cima de fornos para ficarem aquecidas, daí o nome banho suspenso.)
30. Seneca, Lucius Annaeus, 1786, The Epistles of Lucius Annaeus Seneca, Epistle 90, vol. 2. W. Woodfall, London, p. 122.
31. Strabo, 1856, The Geography of Strabo, Book 14, Chapter 5, Paragraph 2, vol. 3, traduzido por H. C. Hamilton and W. Falconer. Henry G. Bohn, London, p. 51.
32. Ibid.
33. Yavetz, Z., 1988, Slaves and Slavery in Ancient Rome. Transaction Books, New Brunswick, New Jersey, p. 11.
34. Phillips, W. D., 1985, Slavery from Roman Times to the Early Transatlantic Trade. University of Minnesota Press, Minneapolis, p. 18.
35. Encyclopædia Britannica, Eleventh Edition, 1911, Slavery, vol. 25. Encyclopædia Britannica Company, New York, p. 218.
36. Vitruvius, 1960, The Ten Books on Architecture, Book 1, Chapter 1, Paragraph 1, traduzido por Morris Hicky Morgan (primeira publicação por Harvard University Press in 1914). Dover, New York, p. 5.
37. Bury, J. B., 1955, The Idea of Progress (primeira publicação em 1920 por MacMillan, London). Dover, New York, p. 7.

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