A Falha da Ciência e da Filosofia Natural na Era das Trevas – Parte 4: Mendel e as Impressoras

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Título Original: The Intellectual Decline of Europe /
Failure of Ancient Science and Natural Philosophy
Autor: DAVID DEMING
Publicado Originalmente em: Science and Technology in World History,
Vol. 2 – Early Christianity, the Rise of Islam and the Middle Ages,
McFarland & Company, EUA, 2010, pgs. 47-56
Tradução: Marco Aurélio Suriani
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MENDEL E AS PRENSAS DE IMPRESSÃO

Na ciência moderna, a verdade provisória é estabelecida através do critério de repetibilidade. Um programa sistemático de observação ou experimentação é realizado e os resultados são comparados. Se quase todo mundo obtém o mesmo resultado, chega-se ao acordo de uma verdade ou consenso provisórios. O método funciona razoavelmente bem, mas requer substratos tecnológicos e econômicos. Deve haver uma comunidade de cientistas e uma estrutura organizacional fornecida por uma ou mais sociedades profissionais. Isso só pode existir em sociedades prósperas. Mais importante, os resultados individuais têm de ser amplamente distribuídos: tem que haver uma prensa de impressão (ou seu equivalente eletrônico).

A importância da imprensa é ilustrada pela experiência de um monge austríaco do século XIX, Gregor Mendel (1822-1884). Mendel se tornou um monge cristão porque isso “libertou-o imediatamente da sua luta pela existência”, [38] e permitiu-lhe completar sua educação. Ele entrou em um monastério em Brünn, Áustria, em 1843 com a idade de 21. Em 1847, ele foi ordenado padre.

Mendel era um estudante talentoso. No Instituto Filosófico da Universidade de Olmütz, “ele alcançou o mais alto grau em todos os cursos, exceto em filosofia teórica e prática, na qual ele teve a segunda melhor nota.” [39] Mas Mendel nunca foi capaz de passar no exame de certificação do estado para os professores, falhando em 1850 e em 1856. Mendel era muito nervoso e estava freqüentemente doente. Quando a ele foi atribuído o dever de cuidar de um doente, ele “foi acometido de uma timidez paralisante e então ele próprio ficou gravemente doente.” [40]

Mendel freqüentou aulas na Universidade de Viena entre 1851 e 1853. Seus estudos primários foram em física, mas ele também teve aulas de ciências naturais, incluindo química, matemática, zoologia e botânica. Em 1853, Mendel retornou ao mosteiro em Brünn e ensinou ciência natural na escola técnica lá até 1868. Evidentemente, ele foi autorizado a ensinar, embora ele nunca foi capaz de passar no exame de licenciamento estatal.

Em 1854, Mendel começou a realizar experimentos de melhoramento de pés de ervilha no jardim do mosteiro, testando “34 variedades para a constância de suas características.” [41] Após dois anos de trabalho preliminar serem concluídos, Mendel escolheu investigar a hereditariedade de sete tipos de diferenças cruzando pés de ervilha. O pé de ervilha tem sete pares de cromossomos, um fato que nem Mendel nem ninguém no século XIX poderia ter imaginado. Sete era o maior número de diferenças que Mendel poderia ter escolhido para investigar e obter resultados significativos. A escolha dos sete era, evidentemente, baseada em insigths obtidos por Mendel durante seus experimentos preliminares.

Mendel concluiu seu estudo em 1863, e publicou seus resultados na revista Proceedings, da Sociedade de História Natural de Brünn em 1866. Foi talvez um dos dez mais importantes trabalhos científicos já publicados, mas o manuscrito foi largamente ignorado. Até o ano 1900, podia-se contar nas mãos as referências ao trabalho de Mendel na literatura científica. [42]

Quinhentos exemplares da revista em que o artigo de Mendel apareceu foram impressos. Destes, 115 foram distribuídos aos “institutos científicos ou bibliotecas.” [43] Mendel ordenou 40 reimpressões que, presumivelmente, foram enviadas para os cientistas de renome, incluindo Charles Darwin. Apenas uma pessoa se preocupou em devolver a correspondência de Mendel, o Professor Nägeli da Universidade de Munique. E a carta de Nägeli indicou que não compreendia o trabalho de Mendel. [44] Ninguém percebeu plenamente a importância das descobertas de Mendel.

Independente de suas falhas em exames formais, os colegas de Mendel evidentemente o tinham em alta conta. Em 1868, ele foi eleito abade do seu mosteiro, uma posição que não permite ter tempo para a pesquisa científica. A carreira científica de Mendel foi encerrada prematuramente.

Em 1884, Mendel morreu em relativa obscuridade e o novo abade queimou todos os seus artigos. [45] Pouco antes de sua morte, Mendel declarou: “eu passei por muitos momentos amargos na minha vida. No entanto, admito com gratidão que os bons e belos momentos foram muito mais numerosas do que os outros. Meu trabalho científico me trouxe muita satisfação e estou convencido de que o mundo inteiro irá reconhecer os resultados desses estudos.” [46]

O trabalho de Mendel ficou enterrado em bibliotecas por 34 anos. Em 1900, três outros cientistas independentemente duplicaram os resultados Mendel. Quando procuraram na literatura, eles descobriram que a mesma teoria da genética já havia sido publicada 34 anos antes por um desconhecido monge austríaco. [47]

Em 1902, a revista Nature relatou, “cerca de dois anos atrás, foi feita a descoberta de que Gregor Mendel, que fora Abade de Brünn, tinha muito tempo antes disso, na reclusão de seu claustro, concebido e realizado através de uma série notável de experimentos em fertilização-cruzada; e extraiu deles uma teoria plausível o suficiente para, caso sua verdade possa ser estabelecida, colocar toda a questão da hereditariedade numa base inteiramente nova.” [48] Com o tempo, a teoria de Mendel se provou “plausível”, e ele se tornou reconhecido como o fundador da ciência da genética.

No mundo antigo, os manuscritos tinham que ser impressos à mão. Foi um processo difícil e trabalhoso que restringia a ciência a uma atividade individual e que tornava difícil estabelecer um critério pelo qual se poderia entrar em acordo sobre verdades objetivas. Ninguém reconheceu imediatamente a descoberta de Mendel após ampla circulação de seus resultados. Se os relatórios de resultados de Mendel tivessem se limitado a um punhado de cópias feitas à mão, teria sido ainda mais difícil.

Mendel realmente recebeu reconhecimento, mas não durante sua vida. Isso só foi possível porque o seu trabalho tinha sido amplamente distribuído e arquivado. Levou tempo, mas eventualmente as contribuições científicas do monge obscuro entraram no mainstream. Mas se Mendel tivesse vivido no século V aC, é improvável que alguém tivesse tido o trabalho de copiar e distribuir a obra de um autor desconhecido, especialmente quando ninguém reconhecia o manuscrito como possuindo qualquer valor especial. Platão e Aristóteles tiveram seu trabalho reconhecido e preservado em parte por causa de suas ligações políticas e status social. Muitos gênios do mundo antigo devem ter passado para o esquecimento, e seus trabalhos perdidos para sempre.

A imprensa pode parecer ser uma máquina simples, mas provavelmente estava além das capacidades tecnológicas dos antigos gregos e romanos. A capacidade de fazer cópias em massa é inútil sem uma fonte abundante de material para imprimir em cima. O papel foi inventado na China em 105 dC, mas não foi introduzido na Europa até 1150 dC. [49] “A principal razão para essa falha no desenvolvimento da impressão reside, sem dúvida, no fato de que não havia oferta abundante de material de impressão de uma textura uniforme e de forma conveniente. O fornecimento de papiro era estritamente limitado, cada tira tinha de ser presa a outra tira, e não havia nenhum tamanho padrão de folha. O papel ainda tinha que vir da China para libertar a mente da Europa. Se houvessem prensas, elas teriam que ficar paradas enquanto os rolos de papiro eram lentamente feitos.” [50]

A tecnologia da prensa de impressão também depende das técnicas metalúrgicas necessárias para produção em grandes quantidades. O primeiro tipo usado na Europa c. 1450 “foi uma liga de estanho e chumbo”, e as técnicas utilizadas para sua fundição provavelmente foram emprestadas da fabricação do estanho. [51] A tinta também era um problema. Antes da imprensa, a impressão à mão era feita com uma tinta à base de água, cuja cor preta derivava de fuligem ou de galato férrico. Mas a tensão superficial da água torna difícil a aplicação da tinta à base de água de modo uniforme nas superfícies de metal. Prensas de impressão que empregavam tipografia de metal empregava uma tinta com base em um “verniz de óleo de linhaça”, que foi provavelmente inventada por Johann Gutenberg (1398-1468). [52]

Embora a tecnologia para o desenvolvimento de uma imprensa estivesse faltando, também faltava imaginação. Em nenhum manuscrito antigo há qualquer declaração de que um meio de impressão mecânica era possível ou mesmo desejável. Não parece ter havido o entendimento de que uma ampla disseminação de conhecimento poderia beneficiar a humanidade. Aristóteles evidentemente não se importou em gravar e distribuir sistematicamente o seu conhecimento. O que sabemos de Aristóteles vem de um punhado de manuscritos mofados que escaparam do esquecimento através de puro acaso. E a maioria desses manuscritos parecem ter a forma de notas de aulas gravadas pelos alunos, em vez de uma tentativa cuidadosa do mestre de arquivar seus pensamentos.

Continua…

Notas e Referências:

38. Weiling, F., 1991, Historical Study. Johann Gregor Mendel, 1822–1884. American Journal of Medical Genetics, vol. 40, p. 4.
39. Ibid., p. 3.
40. Ibid., p. 5.
41. Encyclopædia Britannica Online, 2009, Mendel, Gregor, retrieved March 16.
42. Weiling, F., 1991, Historical Study. Johann Gregor Mendel, 1822–1884. American Journal of Medical Genetics, vol.
40, p. 10–11.
43. Ibid., p. 10.
44. Henig, R. M., 2000, The Monk in the Garden. Houghton Mifflin, New York, p. 152.
45. Ibid., p. 171.
46. Weiling, F., 1991, Historical Study. Johann Gregor Mendel, 1822–1884. American Journal of Medical Genetics, vol. 40, p. 21–23.
47. Henig, R. M., 2000, The Monk in the Garden. Houghton Mifflin, New York, p. 179–198.
48. F. A. D., 1902, Mendel’s Theory of Heredity. Nature, no. 1719, vol. 66, p. 573.
49. Singer, C., 1956, Epilogue. East and West in Retrospect, in A History of Technology, vol. 2, edited by Charles Singer. Oxford University Press, London, p. 771.
50. Wells, H. G., 1921, The Outline of History, Third Edition. Macmillan, New York, p. 347.
51. Clapham, M., 1957, Printing, in A History of Technology, Chapter 15, vol. 3, editado por Charles Singer. Oxford University Press, London, p. 386.
52. Ibid., p. 381.

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Craig e o Massacre de Newtown – Parte 2: O que está em jogo

Este post é um pequeno complemento ao que foi publicado há alguns dias intitulado Craig e o Massacre de Newtown. Julguei erroneamente que a maioria dos cristãos fosse entender o que realmente estava em jogo naquela publicação, que fossem entender que esta não era uma crítica do ateísmo à religião como um todo, mas uma crítica àquela visão apresentada por Craig.

Desconfiei que houve um erro de interpretação quando, em mídias sociais, alguns cristãos tentaram defender Craig. Desconfiei porque acredito que a grande maioria dos cristãos não concorda com aquilo que o apologista realmente quis dizer na ocasião. Acredito que algumas pessoas que discordam dele o defenderam porque não entenderam, e num ato de automatismo, o defenderam achando que estavam defendendo sua própria fé. Então vamos explicar o que Craig realmente estava dizendo e colocar a limpo o que realmente estava em jogo.

A primeira coisa a se saber é que Craig parte do pressuposto de que a teoria moral válida é a Teoria do Comando Divino (doravante TdoCD), que basicamente diz que tudo que Deus ordenar é certo, mesmo que possa parecer absurdo. Essa teoria, entretanto, não é unânime sequer dentro da teologia. A maioria dos cristãos tem preferido a Teoria da Lei Natural (doravante TdaLN), que diz que Deus embutiu uma moralidade correta no mundo, ou na natureza, e que pode ser deduzida pela razão.

Teologicamente falando, cabe a mim provar que qualquer uma delas é falsa? Não! Para mim, que não acredito em Deus, ambas são falsas, logo não preciso fazer demonstrações teológicas.

Contudo, dentro de um ponto de vista um pouco mais amplo, fora da teologia, aí sim faz sentido – para mim – tentar desacreditar a TdoCD. Mas o que eu posso fazer? Se eu fosse capaz de mais do que provar – provar E convencer – qualquer pessoa de que Deus não existe, eu estaria feito e tudo se resolveria. Mas não posso.

Então me resta tentar demonstrar o absurdo que é acreditar na TdoCD. Veja, ela leva uma pessoa como Craig acreditar que tudo bem: Deus pode permitir um massacre de inocentes desde que isso ajude ele a ter um relacionamento melhor com sua criação. Parece razoável?

Daí alguém pode dizer: “mas o mundo é um lugar muito mal, precisamos dessa relação com Deus para nos sentirmos melhor” ou algo parecido, mas daí vem a pergunta: é preferível viver em mundo onde Deus evita o mal e nós temos menos motivos pelos quais temer e sofrer ou num mundo onde Deus não evita o mal e nós temos que procurá-lo para renovar nossa esperança?

Aliás, segundo Craig, Deus não só permite o mal, como o usa como forma de nos lembrar que devemos nos relacionar com ele! Será que nos relacionar com ele é mais importante do que uma vida menos miserável? Será que é moralmente aceitável um ser que usa crimes para nos deixar em pânico e nos forçar a buscar auxílio dele? Será que é moralmente aceitável ser coagido a se relacionar com alguém, mesmo que esse alguém seja nosso criador?

Se eu pudesse estabelecer como metáfora a história de um policial que ao invés de impedir crimes, apenas consola as vítimas, poderíamos pelo menos nos degladiar sobre um assunto muito mais delicado: esse livre-arbítrio “hard core” realmente faz sentido? Mas essa não é a metáfora mais correta. A metáfora mais adequada seria a de um policial que deliberadamente permite os crimes que poderia evitar para depois consolar as vítimas. Um policial que fizesse isso, seria um canalha com sérios problemas sociais e afetivos. Por que um Deus que faz isso não é?

Só a TdoCD pode justificar Deus se comportando dessa maneira. Por isso, ela é errada e por isso acho desprezíveis as conclusões que se tira delas e, de certa forma, as pessoas que recorrem a ela.

Se por outro lado Craig seguisse a TdaLN, ele diria que Deus permitiu os ataques porque não se permite agir sobre o mundo, mas espera que as pessoas, ao verem isso, reflitam e busquem melhorar e que ele pode ajudar quem não estiver suportando os males do mundo. Seria a metáfora do policial omisso mas que tem ombro amigo, e eu não ficaria tão indignado como fiquei.

Veja que minha crítica foi feita pelo lado de fora, sem entrar na questão teológica de qual das duas teorias é correta. Aliás, minha crítica pode ser feita perfeitamente por qualquer cristão que siga a TdaLN e que condene o uso da TdoCD.

O que está em jogo aqui é o quão absurda era essa ideia de Craig de que Deus promove o mal no mundo como uma mensagem de que devemos nos relacionar com ele para termos mais esperança. Se ao menos o “maldito” ficasse quieto no canto dele, o mundo seria melhor e, pobrezinho, não daríamos a mínima para ele. O que está em jogo aqui é uma crítica à TdoCD e não uma crítica a toda moralidade cristã. Não que eu não queira criticar toda ela, mas esse caso só me dá material para criticar a TdoCD especificamente. Eu desejava mostrar o quanto é absurda a ideia de Craig de Deus usando o massacre como mensagem de Natal e que de quebra colocar a base dele em cheque.

Alguns cristãos, imersos em sua (completamente negada) falta de conhecimento sobre religião, trocaram os pés pelas mãos e acharam que ao me criticar estavam defendendo a crença em Deus sendo que, na verdade, defender Craig nesse caso é defender um Deus que usa os crimes dos outros para promover a si mesmo, numa atitude que seria claramente mesquinha e desprezível se feita por qualquer outra pessoa.

Se não foi isso que aconteceu, então quem me criticou prefere a TdoCD à TdaLN e concorda que está tudo bem em acreditar num Deus que age dessa forma, mas meu palpite é que eles não sabiam sequer o que estava em jogo nessa conversa toda.

E aí? Vão continuar defendendo Craig e a visão de Deus que ELE tem?

Silas Malafaia: um dos brasileiros do ano

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Título Original: Os 100 Brasileiros mais Influentes de 2012
Autor: LUIZ FELIPE PONDÉ
Publicado Originalmente em: Revista Época

O líder da Assembleia de Deus não tem medo de polêmica ao defender suas ideias no debate público

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Será que um professor poderia defender a criminalização do aborto em departamentos de ciências humanas por aí? Ou sofreria bullying institucional? A liberdade que muita gente fina defende é apenas a liberdade de repetir o que elas acham bonitinho. O assédio jurídico e o bullying nas redes sociais se transformaram em coisa do dia a dia. Estamos desacostumados a pessoas que emitem juízos públicos baseados em crenças religiosas. Apesar de que a maioria esmagadora dos brasileiros é de alguma denominação cristã, parece uma gafe horrorosa emitir um juízo público sustentado em alguma fé religiosa. Parece existir uma “etiqueta”, segundo a qual todo mundo deve dizer a mesma coisa. O pastor Silas Malafaia, figura representativa do mundo evangélico brasileiro, é uma pessoa importante, apesar de eu não concordar, em absolutamente nada, com o que diz. Sua importância se dá porque ele aquece o debate público, quebrando a etiqueta do coro dos contentes (a covardia orquestrada) que alimenta nosso debate público. Malafaia traz para o Brasil uma prática ainda pouco comum em nossa vida política: a cobrança de opiniões morais e religiosas explícitas por parte dos candidatos. Numa coisa, não deixa de ter razão: a opinião pública brasileira, evangélica ou não, concorda com grande parte do que ele diz contra o casamento gay e outros quebrantos da moral ilustrada contemporânea. A liberdade que importa é sempre a liberdade de quem enche nosso saco.

Luiz Felipe Pondé, filósofo pernambucano, colunista do jornal Folha de S.Paulo
Foto: Paula Giolito

Craig e o Massacre de Newtown

Para quem não entende inglês, uma pequena tradução da transcrição. Eu fiz bem rápido, de ouvido mesmo, então não ficou muito fiel à forma como ele falou, apesar de ter ficado bem fiel a tudo que ele quis dizer. Até 1:15 min, Craig lamenta pelas vítimas e se diz solidário à dor dos pais das crianças assassinadas na pequena cidade norte-americana. Mas a partir de então, ele esquece tais lamentos (ou pára de fingi-los… vai saber!) para dizer algo que só não é mais surpreendente porque ele já fez coisas parecidas antes.

Mas depois, enquanto eu lia sobre o assunto, me ocorreu com bastante força que o Natal original também foi marcado por uma série de assassinatos de… crianças! Estou me referindo, obviamente, ao que foi feito pelo Rei Herodes fez. Vamos ler a narrativa de Mateus, capítulo 2 [1-18]:

1. Tendo, pois, Jesus nascido em Belém de Judá, no tempo do rei Herodes, eis que magos vieram do oriente a Jerusalém.

2. Perguntaram eles: Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no oriente e viemos adorá-lo.

3. A esta notícia, o rei Herodes ficou perturbado e toda Jerusalém com ele.

4. Convocou os príncipes dos sacerdotes e os escribas do povo e indagou deles onde havia de nascer o Cristo.

5. Disseram-lhe: Em Belém, na Judéia, porque assim foi escrito pelo profeta:

6. E tu, Belém, terra de Judá, não és de modo algum a menor entre as cidades de Judá, porque de ti sairá o chefe que governará Israel, meu povo(Miq 5,2).

7. Herodes, então, chamou secretamente os magos e perguntou-lhes sobre a época exata em que o astro lhes tinha aparecido.

8. E, enviando-os a Belém, disse: Ide e informai-vos bem a respeito do menino. Quando o tiverdes encontrado, comunicai-me, para que eu também vá adorá-lo.

9. Tendo eles ouvido as palavras do rei, partiram. E eis que e estrela, que tinham visto no oriente, os foi precedendo até chegar sobre o lugar onde estava o menino e ali parou.

10. A aparição daquela estrela os encheu de profunda alegria.

11. Entrando na casa, acharam o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se diante dele, o adoraram. Depois, abrindo seus tesouros, ofereceram-lhe como presentes: ouro, incenso e mirra.

12. Avisados em sonhos de não tornarem a Herodes, voltaram para sua terra por outro caminho.

13. Depois de sua partida, um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse: Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egito; fica lá até que eu te avise, porque Herodes vai procurar o menino para o matar.

14. José levantou-se durante a noite, tomou o menino e sua mãe e partiu para o Egito.

15. Ali permaneceu até a morte de Herodes para que se cumprisse o que o Senhor dissera pelo profeta: Eu chamei do Egito meu filho (Os 11,1).

16. Vendo, então, Herodes que tinha sido enganado pelos magos, ficou muito irado e mandou massacrar em Belém e nos seus arredores todos os meninos de dois anos para baixo, conforme o tempo exato que havia indagado dos magos.

17. Cumpriu-se, então, o que foi dito pelo profeta Jeremias:

18. Em Ramá se ouviu uma voz, choro e grandes lamentos: é Raquel a chorar seus filhos; não quer consolação, porque já não existem (Jer 31,15)!

Então me ocorreu que longe de ser incongruente com o Natal, essa terrível tragédia de certa forma reverbera o Natal original, que envolveu a morte de crianças por Herodes.

É um lembrete de para quê serve o Natal, o que ele representa. Esse é o modo que Deus usa para entrar no mundo, que está decadente, cheio de maldades impronunciáveis e de sofrimentos terríveis. E é a mensagem de Natal de que Deus não nos abandonou neste mundo, mas que ele próprio entrou na história humana através da pessoa de Jesus para acumular sob si mesmo toda essa maldade e esse sofrimento, para assim nos redimir do mal, nosso próprio mal, e nos trazer a um relacionamento correto com ele, e nos dar cura e vida eterna.

Então espero que essa tragédia seja um lembrete do que realmente significa o Natal, de seu significado mais profundo. Não apenas alegria, troca de presentes e festividades do feriado, mas sim esperança que nos é dada e que sem a qual estaríamos perdidos neste mundo mal e indescritivelmente perverso. Então, em meio a esse sofrimento, a mensagem de Natal que eu penso que temos é que existe esperança e que Deus nos provido com ela.

Como diria o pessoal do blog Why Evolution is True, é quase como se Deus tivesse perpetrado esse massacre para nos lembrar de que existe esperança nesse mundo e que ele está disposto a sofrer em nosso lugar!

E já que ele deseja sofrer no nosso lugar, nada mais lógico do que maquinar um homicídio de 25 crianças inocentes, porque assim ele não precisa ficar à toa sem receber nenhum sofrimento por nós.

Não surpreende que ele pense assim. Craig é um dos poucos apologistas que seguem a Teoria do Comando Divino, na qual qualquer coisa que Deus ordene é boa por si só, independente do quão horrível isso possa parecer se executado por outra pessoa. Leiam esse artigo aqui do blog explicando a Teoria do Comando Divino em maiores detalhes.

Craig chegou ao absurdo de dizer que no massacre de Canaã, as verdadeiras vítimas eram os soldados israelenses que, ó tadinhos, tiveram que matar crianças e mulheres inocentes porque Deus mandou! Será que já existiam psicólogos cristãos naquela época para ajudar esses soldados a superarem esse terrível trauma? Se duvidam que ele disse isso, vejam esse artigo do Rebeldia Metafísica.

Willian Lane Craig é mesmo um excelente orador, tanto é que consegue tirar lindas mensagens de Natal até de tragédias como essa!

Continuação: Craig e o Massacre de Newtown – Parte 2: O que está em jogo

Explicando a Ressurreição sem Recorrer a Milagres – Parte 4: Os Sósias

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Título Original: Explaining the Resurrection without Recourse to Miracle
Autor: Dr. Robert M. Price
Publicado Originalmente em: The End of Christinaity,
editado por John W. Loftus, Prometheus Books, EUA, 2011, Capítulo 9
Tradução: Marco Aurélio Suriani
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NÓS JÁ NOS VIMOS ANTES?

À primeira vista, a ideia de que o Senhor Ressuscitado era, hm, uma outra pessoa, talvez algum outro salvador, ou alguém representando Jesus, parece bobagem. Identidade errada? Você só pode estar brincando! Mas os próprios Evangelhos introduzem esta suspeita – não a de que alguém estava representando o Jesus morto (como as pessoas que posteriormente alegaram ser David Koresh, por exemplo [N.doT.: é mais ou menos como alguém alegando ser Cleópatra ou Júlio César hoje em dia]), mas sim a suspeita de que os seus discípulos em luto, resistentes em deixá-lo ir, agarraram-se à ilusão de que algum indivíduo desconhecido que encontraram logo após a crucificação deve realmente ter sido Jesus, vivo novamente.

Se quiséssemos fazer o papel de verdadeiros críticos do Novo Testamento, e não apenas jogar o jogo dos apologistas, nós provavelmente devemos chegar a algo como a teoria de James M. Robinson na qual o motivo para o não reconhecimento era decorrente do entendimento original de que aparições de ressurreição seriam como explosões de luz brilhante e ofuscante, na qual nenhuma forma humana poderia ser facilmente delineada. [29] Pense em Apocalipse 1:14-16; ou Marcos 9:2-3; ou Mateus 17:2 (muitas vezes tomada como uma narrativa deslocada da ressurreição); ou Atos 9:3-6: todos estes representam um Jesus brilhante com uma radiação sobrenatural. [30]

Como tal, ele não é facilmente reconhecível. “Quem és tu, Senhor?” (Atos 9:5). Robinson acha que esta é a origem e o ambiente natural do motivo. O problema é que ela foi herdada por narrativas da Páscoa que foram reescritas como se o Jesus carnal tivesse se levantado da maca do necrotério e se anunciado: o mesmo homem, no mesmo corpo. Nesse caso, por que eles não conseguiram reconhecê-lo da mesma forma que faz um parente chamado para o identificar um defunto?

O motivo do não reconhecimento já não serve, funcionando apenas como um lembrete revelador da fé pascal de tempos passados. (Do mesmo modo, as histórias que ainda retratam o Jesus Ressuscitado no meio de uma luz da qual não conseguimos chegar perto não são mais apresentados como tecnicamente histórias de ressurreição! Agora elas são visões especiais concedidas a indivíduos ou pequenos grupos, antes ou depois da Páscoa).

As histórias de Páscoa que são contadas atualmente apresentam um Jesus carnal, sem os efeitos especiais, mas ainda há este persistente detalhe de duvidar que é ele mesmo, ou até mesmo de pensar que ele é uma outra pessoa. Os discípulos a caminho dos Emaús  (Lucas 24:13-35) conversam com o homem durante horas, e apenas quando ele desaparece, ocorre a eles que era seu velho mestre. Os discípulos, mesmo ao receberem ordens diretas, ponderam se é realmente ele (Mateus 28:17“mas eles [não “alguns deles”] duvidavam”). [31] (N.doT.: Não deixem de ler essa nota!) Maria Madalena no túmulo também não reconhece Jesus (João 20:14). Os discípulos desiludidos, se reajustando a uma vida mundana, vêm Jesus na praia, mas eles não o reconheceram (João 21:4). Vamos dar aos apologistas o benefício da dúvida e agir como se essas histórias evangélicas da Páscoa fossem, como eles insistem, narrativas genuínas de encontros. Todo esse negócio de não reconhecimento, que nós jamais esperaríamos, inevitavelmente convida à suspeita de que os encontros de Páscoa eram realmente avistamentos de, encontros com, figuras só mais tarde identificadas como Jesus, e depois como um meio de escapar da tristeza e do desespero.

“Percebendo” que era Jesus em retrospecto não era tão bom como percebê-lo no momento exato, mas depois surgiu uma vantagem: tal afirmação não poderia ser desmascarada. É como quando alguém dá instruções a uma pessoa perdida que parece familiar, mas não pode ser reconhecida, e mais tarde um amigo lhe diz: “Eu ouvi tal celebridade estava na cidade hoje, sem aviso prévio.” E então se pensa, “Deve ter sido ele! Se eu tivesse percebido isso naquele momento! Eu poderia ter pedido um autógrafo!” Mas que diabos, ainda assim é muito emocionante. E, claro, poderia não ter sido a celebridade, e uma vez que você não pode mais verificar de uma forma ou de outra, você ainda pode contar a história, usando o elemento de incerteza apenas como tempero.

Marcos (6:14; 8:28) fornece um precedente marcante quando nos diz (duas vezes, não menos) que muitas pessoas acreditavam que estavam vendo ou ouvindo sobre um João Batista ressuscitado, apesar de Marcos afirmar saber mais: era um caso de identidade trocada, uma vez que a figura era na verdade Jesus. Não é exagero se perguntar se a mesma coisa aconteceu no caso de Jesus. Afinal, havia uma abundância de tais figuras ao redor. Celso nos diz que sempre havia um profeta circulando pela Fenícia e pela Palestina:

Há muitos, que não possuem nome …, que profetizam pela menor desculpa por alguma causa trivial dentro e fora dos templos, e há alguns que vagueiam mendigando em torno de cidades e campos militares; e eles fingem se moverem como se tivessem dando algum auxílio oracular. É um costume ordinário e comum para eles dizer: “Eu sou Deus (ou um filho de Deus, ou um espírito divino). E eu vim. O mundo já está sendo destruído. E vocês, ó homens, estão prestes a perecer por causa de suas iniquidades. Mas eu gostaria de vos salvar. E vocês devem me ver voltar novamente com o poder celestial. Bendito é aquele que me adora agora! Mas eu lançarei fogo eterno sobre todo o resto, tanto em cidades e quanto em lugares do país. E os homens que não conseguem perceber as penalidades que os aguardam irão em vão se arrepender e gemer. Mas vou preservar para sempre aqueles que foram convencidos por mim.” [32]

Jesus pode ter sido tomado por um destes, ou um desses por Jesus. O Sermão do Monte das Oliveiras explicitamente adverte seus leitores a não misturar pessoas como Simão bar-Giora e Jesus ben-Ananias com Jesus Cristo (Marcos 13:5-6, 21-23), alguma coisa alguém deve ter feito, ou nós não estaríamos lendo nenhum aviso! Da mesma forma, Paulo foi levado para o profeta revolucionário egípcio em Atos 21:38, também mencionado por Josefo. É dito que Simão Mago alegou ser Jesus: “Ele contou que era ele mesmo que, em verdade, apareceu entre os judeus como o Filho…. e pensaram que ele tinha sofrido na Judéia, embora ele realmente não tenha sofrido.” [33]

Essas identificações errôneas não são difíceis de entender, uma vez que compreender a forma como “heróis locais” (incluindo os santos populares e revolucionários) são venerados no Oriente Médio e tem sido por milênios. Scott D. Hill diz: “Muitas vezes, os homens vivos são vistos como encarnações ou representantes de um herói local conhecido.” [34]

Vamos nos imaginar entre a comunidade apostólica nos primeiros dias. Ouvimos relatos de vários dos irmãos que viram o retalhado Jesus vivo novamente. Naturalmente, nossos olhos se arregalam; nossos ouvidos ficam em pé. E, como Thomas, perguntamos: “Você têm certeza? Conte-me mais sobre isso!” E alguém diz: “É claro que eu não sabia que era Jesus na época. Eu só me dei conta depois.” (assim como em Lucas 24:13-32). Outro diz: “A pessoa que vi não se parecia exatamente com ele, eu admito, mas depois eu percebi que deve ter sido Jesus.” (assim como em Mateus 28:17; João 20:14-15; 21:2-12). E assim por diante. Eu digo a você que estaríamos justificados em imaginar o que poderia ter acontecido, ao invés de ficarmos convencidos de que os nossos amigos tinham realmente visto Jesus. Seus próprios testemunhos criam dúvida em vez de fé.

Continua…

Notas e Referências:

29. James M. Robinson, “Jesus from Easter to Valentinus (or to the Apostles Creed),” em Jesus according to the Earliest Witness, ed. James M. Robinson (Minneapolis: Fortress, 2007), 38–39.

30. Rudolf Bultmann, History of the Synoptic Tradition, tradz. John Marsh (New York: Harper and Row, 1972), 259–61.

31. Ao contrário das contenciosas mas populares traduções modernas, o texto simplesmente diz kai idontes autonprosekunesan hoi de edistasan, “e ao vê-lo eles o adoraram, mas duvidaram”, implicando todos os 11 discípulos (o hoi de Mateus 28:17 é o mesmo de hoi de Mateus 28:16, especificamente hoi endeka mathetai“os 11 discípulos”).

32. Citado em Origen, Contra Celsum, tradz. Henry Chadwick (New York: Cambridge University Press, 1980), 402.

33. Irenaeus, Against Heresies 1.23.1, 3.

34. Scott D. Hill, “The Local Hero in Palestine in Comparative Perspective,” em Elijah and Elisha em Socioliterary Perspective, ed. Robert B. Coote (Atlanta: Scholars Press, 1992), 37–74.