Explicando a Ressurreição sem Recorrer a Milagres – Parte 1: Entrando no Jogo

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Título Original: Explaining the Resurrection without Recourse to Miracle
Autor: Dr. Robert M. Price
Publicado Originalmente em: The End of Christinaity,
editado por John W. Loftus, Prometheus Books, EUA, 2011, Capítulo 9
Tradução: Marco Aurélio Suriani
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Explicando a Ressurreição sem Recorrer a Milagres

Uma coisa é decidir que se deve buscar uma alternativa naturalista para uma ressurreição milagrosa. É isso o que os apologistas cristãos imaginam que os céticos estão fazendo, jogando acuados, com todos os caminhos de fuga fechados. Da mesma forma que uma pessoa pode imaginar um crente religioso, contra a parede, rezando por um milagre de libertação, apologistas pintam os céticos cercados pelo “Cão do Céu” em uma caça evangelística e, por mais estranho que possa parecer, “orando” (pedindo desesperadamente) para a ausência de um milagre: alguma alternativa naturalista para a ressurreição da Jesus. [1] Outra coisa é o cético afirmar que o recurso ao milagre é completamente supérfluo, uma hipótese de “estepe”. E este será o meu caso aqui. Eu não estou sequer levantando a questão da possibilidade dos milagres. Isto não vem ao caso, até onde posso ver. Deixe-me explicar o porquê.

Para fins de argumentação, vou assumir que a narrativa “padrão” para a ressurreição nos Evangelhos é historicamente correta. Realmente havia um José de Arimatéa. Realmente havia um grupo de discípulos do sexo feminino que testemunhou seu enterro. O túmulo realmente foi descoberto vazio posteriormente. Discípulos realmente reivindicaram tê-lo visto. Claro, por que não? Tenha em mente, porém, que isso é puramente um exercício de análise da abordagem particular usada por William Lane Craig e seus colegas [2], não a abordagem usada pelos críticos do Novo Testamento [3], que não asseguram a precisão das histórias dos Evangelhos. Craig e os outros contam com a ingenuidade de seu público, que abre os Evangelhos pronto e ansioso para acreditar no que eles dizem [4]. Eles estão argumentando como contra os racionalistas do século XVIII que asseveravam a inerrância virtual da narrativa do Novo Testamento, disputando (por mais estranho que pareça) apenas o fator de causalidade milagrosa alegado [5]. Se o Evangelho nos diz que Jesus foi crucificado e que três dias depois ele apareceu aos seus entes queridos, então devemos acreditar em ambos. Alguns detalhes podem ser enfeites lendários, mas o núcleo da história deve ser verdadeiro. A questão é:

Como podemos ir de um para o outro? Como podemos ligar os pontos? Racionalistas descartaram o sobrenatural por uma questão de método; eles assumiram que Deus não trabalhou e nem trabalha desse modo. Ele opera através de um sistema sublime das leis naturais que, por exemplo, impedem um corpo genuinamente morto volte espontaneamente à vida. Então, concluíram os Racionalistas, se Jesus tenha sido crucificado e aparecido vivo novamente depois, é porque ele não sucumbiu à crucificação. Ele deve ter sido retirado vivo, lambeu suas feridas por um curto tempo, e voltou aos discípulos, pelo menos temporariamente. É contra esse argumento e outros como ele (a Teoria do Túmulo Errado etc.) que os apologistas contemporâneos respondem.

Mas estudiosos modernos do Novo Testamento já não dão como certo que as narrativas de Páscoa são históricas. Por que elas deveriam ser? Elas são tão parecidas com narrativas apoteóticas como as de Hércules, Rômulo, Apolônio, Empédocles, e outras [6] que o ônus da prova cabe àquele que insistir que, no caso único de Jesus o “mito tornou-se realidade.” [7]. E isso que acabei de dizer é manifestamente um juízo teológico, não um veredito histórico [8]. Mas o importante é ver que a cadeia de “eventos” que levou à epifania do Ressuscitado é igualmente lendária: mera cenografia para os estudiosos do “Grande Evento”. Estudiosos não supõem que, digamos, a estória de José de Arimatéa, ou que as mulheres que visitam o túmulo, sejam história, e que a única coisa que exige explicação especial é por que o túmulo estava vazio. Como o meu velho pastor Donald Morris uma vez brincou em um sermão, “Deixe-me citar a mim mesmo para não deturpar minhas próprias opiniões”:

O que os apologistas evangélicos ainda estão tentando mostrar … é que a sua versão da ressurreição foi o mais compatível com a aceitação de todos os detalhes das narrativas evangélicas da Páscoa como verdadeiros e inegociáveis. Este é um argumento muito estranho quando você percebe o que realmente está acontecendo: é implicitamente um argumento entre inerrantistas bíblicos em que os defensores da ressurreição assumem que seus opositores concordam com eles que todos os detalhes são verdadeiros, que apenas o ponto culminante está em questão… É por isso que, se apologistas como William Lane Craig conseguirem levar um adversário a admitir que José de Arimatéa provavelmente enterrou Jesus no seu próprio túmulo, e que as mulheres  provavelmente visitaram o túmulo, e que o túmulo foi provavelmente encontrado vazio, então ele pode pressionar para a conclusão de que, Bingo! Jesus deve ter ressuscitado dos mortos! O que eles de alguma forma não vêem é que argumentar assim é como argumentar que a Cidade Esmeralda de Oz deve existir efetivamente já que, caso contrário, para onde a Estrada dos Tijolos Amarelos levaria?… Nós simplesmente não temos nenhuma razão para supor que qualquer coisa que uma narrativa antiga nos diz é verdadeira. [9]

Por que eles/nós deveríamos? Como eu já disse antes, estes apologistas cristãos podem não gostar, mas como historiador RG Collingwood explica muito bem, “o historiador crítico (lidando tanto com a Bíblia quanto com o jornal) exige que as afirmações em fontes antigas ou modernas sejam corroboradas. O historiador não toma simplesmente o escritor antigo ou moderno na sua palavra, até que ele julgue o contrário.” [10]

E, no entanto, é o que eu vou fazer aqui. É simplesmente uma experiência de pensamento. Até onde eu sei, apologistas perderam o jogo há muito tempo por errarem a identificação do tipo de narrativa que estamos lidando com Marcos 15-16, Mateus 27-28, Lucas 23-24 e João 19-21. Mas eu talvez esteja perversamente interessado em ver o quanto podem ser fracos os outros elos da cadeia de sua suposta prova. Eu quero jogar o jogo deles de Racionalismo contra anti-Racionalismo. Vou assumir como verdadeiro o caráter essencialmente histórico dos “eventos” que precederam a ressurreição. A única diferença é a seguinte: eu não acho que alguém tem que ir muito longe para chegar a uma explicação completamente natural para a suposta ressurreição. Não há necessidade de uma estratégia de recuo, algum expediente, ou algum plano de emergência. Nunca chega a isso. Tenha paciência comigo enquanto eu me aventuro na defesa da Teoria do Desmaio, da Teoria do Reenterro, da Teoria da Identidade Trocada, e da Teoria da Dissonância Cognitiva (“Transformação dos Discípulos”). Eu prevejo que iremos descobrir que não há a menor improbabilidade, nem sequer implausibilidade, anexada a qualquer uma destas opções.

Continua…

Notas e Referências:

1. Veja John Warwick Montgomery, History and Christianity (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 1974), 41–58.

2. Por William Lane Craig: The Son Rises: Historical Evidencefor the Resurrection of Jesus (Chicago: Moody, 1981);
Reasonable Faith: Christian Truth and Apologetics, rev. ed. (Wheaton, IL: Crossway, 1994);
“The Bodily Resurrection of Jesus,” em Gospel Perspectives: Studies of History and Tradition in the Four Gospels, ed. R. T. France e David Wenham (Sheffield, England: JSOT Press, 1980), 47–74;
“The Empty Tomb of Jesus,” em Gospel Perspectives II: Studies of History and Tradition in the Four Gospels, ed. R. T. France and David Wenham (Sheffield, England: JSOT Press, 1980), 173–200;
“Did Jesus Rise from the Dead?” em Jesus under Fire: Modern Scholarship Reinvents the Historical Jesus, ed. Michael J. Wilkins and J. P. Moreland (Grand Rapids, MI: Zondervan, 1995), 141–76.
Outros exemplos: Gary R. Habermas e Michael Licona, The Case for the Resurrection of Jesus (Grand Rapids, MI: Kregel, 2004);
Gregory A. Boyd e Paul Rhodes Eddy, The Jesus Legend: A Casefor the Historical Reliability of the Synoptic Jesus (Grand Rapids, MI: Baker, 2007);
Michael Licona, The Resurrection of Jesus: A New Historiographical Approach (Downers Grove, IL: IVP Academic, 2010).

3. David Friedrich Strauss, “Death and Resurrection of Jesus” em The Life of Jesus Critically Examined, trans. George Eliot e Mary Ann Evans (Philadelphia: Fortress, 1972), 691–744;
Willi Marxsen, The Resurrection of Jesus of Nazareth, trans. Margaret Kohl (Philadelphia: Fortress 1970);
Reginald H. Fuller, The Formation of the Resurrection Narratives (New York: Macmillan, 1971);
Norman Perrin, The Resurrection according to Matthew, Mark, and Luke (Philadelphia: Fortress 1977);
E veja a discussão e bibliografia citados em Richard Carrier, “Why the Resurrection Is Unbelievable,” em John Loftus, ed., The Christian Delusion: Why Faith Fails (Amherst, NY: Prometheus Books, 2010), 291–315.

4. Suas polêmicas são destinadas para o vazio, abro apóstrofo (“Ó morte, onde está o teu aguilhão?”), para adversários ausentes: os racionalistas antigos; mas a audiência/leitores real é principalmente formada por crentes que procuram acalmar as suas dúvidas. Eles, também, já estão ansiosos para acreditar no que diz a narrativa e, assim, tomar por certo a maior parte dela sem sequer perceberem, mesmo quando a história em si é o que está em questão. Não é de admirar que evangélicos, especialmente colegas apologistas, pretendem achar esta apologética convincente!

5. Albert Schweitzer, The Quest of the Historical Jesus: A Critical Study of Its Progress from Reimarus to Wrede, trans. W. Montgomery (New York: Macmillan, 1975), 27–67. Veja os capítulos 3-6 devotados aos Racionalistas, incluindo Heinrich Eber-hard Gottlob Paulus, Karl Friedrich Bahrdt, e Karl Heinrich Venturini.

6. Charles H. Talbert, What Is a Gospel? The Genre of the Canonical Gospels (Philadelphia: Fortress, 1977);
Robert M. Price, “Brand X Easters,” em The Resurrection of Jesus: A Sourcebook, ed. Bernard Brandon Scott (Santa Rosa, CA: Polebridge, 2008), 49–59.

7. C. S. Lewis, “Myth Became Fact,” in C. S. Lewis, God in the Dock: Essays on Theology and Ethics, ed. Walter Hooper (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1970), 63–67.

8. Price, “Jesus: Myth and Method,” in Loftus, The Christian Delusion, 273–90.

9. Robert M. Price, The Case against the Case for Christ: A New Testament Scholar Refutes the Reverend Lee Strobel (Cranford, NJ: American Atheist, 2010), 209–10. Veja o astuto quadrinho “Jesus and Mo”, no qual sou viciado, acompanhando o texto. (de jesusandmo.net, usado com permissão).

10. R. G. Collingwood, The Idea of History (New York: Oxford University Press/ Galaxy Books, 1956), 236–39; veja Price, Against the Case for Christ, 210.

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