A Falha da Ciência e da Filosofia Natural na Era das Trevas – Parte 2: O Problema do Conhecimento

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Título Original: The Intellectual Decline of Europe /
Failure of Ancient Science and Natural Philosophy
Autor: DAVID DEMING
Publicado Originalmente em: Science and Technology in World History,
Vol. 2 – Early Christianity, the Rise of Islam and the Middle Ages,
McFarland & Company, EUA, 2010, pgs. 47-56
Tradução: Marco Aurélio Suriani
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O PROBLEMA DO CONHECIMENTO

Através da invenção da matemática (como uma ciência sistemática e exata) e da lógica, os gregos mostraram que era possível ir além opinião humana e encontrar uma verdade demonstrável na qual todos os homens concordassem. Eles estabeleceram o método e a demonstração. Os gregos descobriram que haviam formas adequadas, metódicas e lógicas de pensamento que levariam a verdades universais.

Mas tendo constatado que um método correto poderia levar à verdade demonstrável, os filósofos gregos fizeram poucos progressos na decisão de qual o método que deveria ser usado. Este é o “problema do conhecimento,” o problema de escolher o método epistemológico correto para a produção de conhecimento confiável. Por “conhecimento confiável”, refiro ao conhecimento que é consistente com um critério de verdade estabelecido. A única coisa que pode ser exigida de qualquer sistema de conhecimento, seja na filosofia, na ciência ou na religião, é a consistência interna. Não é possível estabelecer a superioridade ou o caráter absoluto de um dado critério de verdade, já que tal alegação deve ela mesma ser validada por um critério de verdade ad infinitum. Mesmo a geometria repousa sobre axiomas que não podem ser provados.

Todos concordaram que o raciocínio geométrico levou a verdades demonstráveis, mas que os métodos de geometria não eram capazes de aplicação universal. Houve uma apreciação de que tanto a observação quanto a razão fossem necessários, mas nenhum consenso sobre o peso relativo a aplicar em cada epistemologia. Em um extremo, Parmênides e os eleatas foram longe a ponto de argumentar que essencialmente todas as informações obtidas através dos sentidos eram falsas e ilusórias. O problema deste ponto de vista é que devemos viver no mundo dos sentidos, e não um mundo imaginário criado por um filósofo ou mágico. Em 1890, índios americanos que usavam “saias fantasmas” pensaram que “seriam invulneráveis a balas.” [14] Mas mesmo assim eles morreram.

Os paradoxos de Zenão foram construídos para demonstrar que a filosofia eleática estava correta. Mas eles demonstraram precisamente o contrário. O fato de Aquiles poder, de fato, ultrapassar uma tartaruga não ilustra que o movimento é uma ilusão, mas que o pressuposto empregado na construção do paradoxo é falso. O paradoxo foi baseado na suposição de Zenão que um número infinito de pontos não pode ser percorrida em um tempo finito. Mas os matemáticos foram capazes de demonstrar mais tarde que uma série infinita pode ter uma soma finita, provando assim o que já foi indicado pela evidência dos sentidos.

Isto não significa que os eleatas não fizeram nenhuma contribuição para o problema do conhecimento. Pelo contrário, a sua incapacidade demonstrou a loucura de tentar construir um sistema de conhecimento confiável baseado na razão humana sozinha.

No outro extremo, Estratão enfatizou uma abordagem mecanicista para os problemas naturais e empregou o método experimental. A posição de Aristóteles era intermediária. Ele realizou experiências dada a ocasião, e invocou a observação como um argumento conclusivo. Mas ele nunca defendeu um programa sistemático de experimentação controlada. Experimentação e observação foram incidentais em sua filosofia, não integrais.

Os filósofos teriam feito bem se tivessem ouvido os médicos. Desde pelo menos o tempo de Hipócrates (c. 460-370 aC), os médicos haviam reconhecido o valor do empirismo. A escola hipocrática rejeitava o sobrenaturalismo, abraçava o naturalismo, e acreditava na causa e efeito. A observação foi enfatizada, e o raciocínio puramente teórico foi abandonado por possuir pouco ou nenhum valor. Hipócrates observou que o fato de os filósofos naturais se contradizerem todos uns aos outros era evidência “da sua ignorância do assunto como um todo.” [15] Ele defendeu que “os fatos são muito superiores ao raciocínio.” [16]

Mas a medicina não era filosofia nem ciência. Na civilização clássica, era considerada um ofício, como ferraria ou vinificação. [17] O empirismo no mundo antigo foi menosprezado por duas razões.

Primeiro, a ideia de que as informações obtidas através dos sentidos não era confiável porque cada pessoa vê e interpreta os eventos e objetos de forma diferente era largamente apreciada. O exemplo clássico disso é a história de Diógenes Laércio sobre Esfairo [c. 285-210 aC] sendo enganado por Ptolomeu IV. “O rei [Ptolomeu IV], desejando que refutá-lo [Esfairo], ordenou que algumas romãs de cera fossem colocadas na frente dele, e quando Esfairo foi enganado por elas, o rei gritou que ele havia dado o seu assentimento a uma falsa percepção. Mas Esfairo respondeu muito ordenadamente, que ele não tinha dado o seu assentimento ao fato de que eles eram romãs, mas ao fato de que era provável que elas pudessem ser romãs.” [18] Esfairo tentou se salvar do embaraço, mas o estrago já tinha sido feito.

Segundo, os dados empíricos disponíveis para os gregos e romanos consistiam inteiramente de informações anedóticas. Dados assim são notoriamente não-confiáveis. Isso foi reconhecido no mais famoso dos aforismos de Hipócrates: “a ocasião [é] fugaz; a experiência enganosa, e o julgamento difícil.” [19] Com a notável exceção de Estratão, houve pouca ou nenhuma experimentação sistemática e controlada. Não está claro se as sociedades grega ou romana teriam sido prósperas economicamente o suficiente para apoiar ou financiar tal programa. Daí então a necessidade de um substrato econômico.

Continua…

Notas e Referências:

14. Mooney, J., 1896, The Ghost-Dance Religion and the Sioux Outbreak of 1890, in Fourteenth Annual Report of the Bureau of Ethnology, Part 2. U. S. Government Printing Office, Washington, p. 831.
15. Hippocrates, 1846, On the Nature of Man, in The Writings of Hippocrates and Galen, translated by John Redman Coxe. Lindsay and Blakiston, Philadelphia, p. 148.
16. Hippocrates, 1846, On the Art of Medicine, in The Writings of Hippocrates and Galen, translated by John Redman Coxe. Lindsay and Blakiston, Philadelphia, p. 54.
17. Nutton, V., 2004, Ancient Medicine. Routledge, London, p. 87, 152–153.
18. Diogenes Laërtius, 1905, The Lives and Opinions of Eminent Philosophers, Book 7, translated by C. D. Yonge. George Bell & Sons, London, p. 326.
19. Hippocrates, 1886, The Genuine Works of Hippocrates, vol. 2, translated by Francis Adams. William Wood and Company, New York, p. 192.

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