A Falha da Ciência e da Filosofia Natural na Era das Trevas – Parte 1: Introdução

===============================================================
Título Original: The Intellectual Decline of Europe /
Failure of Ancient Science and Natural Philosophy
Autor: DAVID DEMING
Publicado Originalmente em: Science and Technology in World History,
Vol. 2 – Early Christianity, the Rise of Islam and the Middle Ages,
McFarland & Company, EUA, 2010, pgs. 47-56
Tradução: Marco Aurélio Suriani
===============================================================

O Declínio Intelectual da Europa

O termo Idade Média foi cunhado originalmente pelo humanista e historiador italiano Flavio Biondo (1392-1463 dC). Humanistas da Renascença “usaram o infeliz e infamante termo ‘Idade Média’ para aquilo que estava entre eles e seus ideais clássicos.” [1] Embora os historiadores modernos talvez estejam insatisfeitos com o conceito de Idade Média, “o longo uso torna o termo inevitável.” [2]

As datas que têm sido tradicionalmente atribuídas ao início e ao final da Idade Média são 476 e 1453 DC. [3] Estas datas refletem eventos políticos, e não marcos intelectuais. Por volta do século V dC, o Império Romano do Ocidente estava um caos. Roma foi ocupada e saqueada por tribos germânicas, primeiro pelos Visigodos (410 dC) e mais tarde (455 dC) pelos Vândalos. Em 476 dC, o último imperador do Império Romano do Ocidente, Rômulo Augusto, foi deposto, e no ano de 1453 dC, os turcos otomanos capturaram Constantinopla, efetivamente terminando o que restou do Império Romano no leste.

Aproximadamente a primeira metade da Idade Média (c. 476-1000 dC) foi chamada de Era das Trevas, refletindo a falta quase que total de interesse pela filosofia e pelas ciências que prevaleceu na Europa durante este tempo. O termo parece ter se originado com Petrarca (1304-1374), um escritor renascentista italiano. [4] Tendo redescoberto a literatura clássica da Grécia e de Roma durante a Renascença, os europeus começaram a considerar os séculos que se passaram entre a queda do Império Romano e tempo deles como uma era de escuridão.

O século XX viu a ascensão do relativismo cultural no Ocidente, e os escritores modernos começaram a achar o termo “Era das Trevas” algo como um “juízo de valor”, moralmente repugnante. A Era das Trevas foi, de fato, um momento de inovação tecnológica contínua em toda a Europa. Mas em áreas como matemática, filosofia natural, ou astronomia, os europeus fizeram poucas contribuições significativas durante este período de tempo em comparação com o auge da cultura helênica no Mediterrâneo. Se o termo “Era das Trevas” for usado em sentido adequado, sem invocar um julgamento relativo moral, o uso é um reconhecimento apropriado da escassez de trabalho original e criativo em determinadas áreas.

Se estamos dispostos a engolir a afirmação de que a Era das Trevas na Europa não era escura, torna-se muito difícil de explicar por que, no século XVI, as obras de Aristóteles ainda eram consideradas “como o padrão e base de toda a investigação filosófica,” [5] ou por que os textos padrão em astronomia e matemática eram a Sintaxe de Ptolomeu (c. século 2 dC) e os Elementos de Euclídes (c. século 3 aC).

Se a Era das Trevas na Europa não era escura, então é fundamental que se explique por que Galileu, no início do século XVII, estudava e idolatrava os trabalhos matemáticos de Arquimedes, escritos no século III aC. [6] Se quisermos sustentar que os esforços dos europeus durante a Era das Trevas igualaram ou superaram as conquistas da ciência helenística, torna-se difícil explicar por que os europeus deste período de tempo não foram capazes de construir qualquer dispositivo tecnológico que rivalizasse com o mecanismo de Antikythera, construído em c.150-100 aC. Assim, “não há como negar que uma era das trevas científica pairava sobre a Europa ocidental.” [7]

Deve-se reconhecer que nunca houve qualquer período de retrocesso no norte da Europa. Se qualquer área caiu em uma era negra, esta área é o Mediterrâneo. O Norte da Europa não tinha nenhum pedestal de onde cair. Nas áreas ocupadas atualmente pela Inglaterra, França e Alemanha, a filosofia, a ciência, a arte e a tecnologia se desenvolveram progressivamente nos últimos 1500 anos. As civilizações grega e romana estavam em decadência, enquanto a civilização ocidental estava apenas começando.

Por volta do início da Idade Média, as civilizações grega e romana já estavam em declínio intelectual por algumas centenas de anos. Já no primeiro século dC, Sêneca observou que havia pouco interesse em filosofia e que muito do conhecimento antigo estava sendo perdido. Os escritos dos primeiros padres cristãos mostram que a introspecção da mente Europeia não ocorreu do dia para a noite, mas sim que se desenvolveu lentamente ao longo de centenas de anos. Apesar de ter havido uma continuidade de “desenvolvimento tecnológico”, a Era das Trevas na Europa foi marcada por “desintegração política, depressão econômica, depreciação da religião e colapso da literatura.” [8]

A Filosofia natural como um movimento intelectual estava se deteriorando há vários séculos. Os Jônicos, Pitagóricos e Eleatas eram proeminentes em cerca de 600 a 400 aC, mas na época da morte de Sócrates em 399 aC, o movimento já estava gasto. Em tempos posteriores, indivíduos como Aristóteles, Arquimedes, Estratão, e Eratóstenes fizeram contribuições significativas, mas a filosofia natural em si estava em um beco sem saída.

O início de uma Era das Trevas na Europa foi o culminar inevitável da história. A ausência quase que completa de avanços em áreas como a filosofia natural, matemática e astronomia na Europa durante este tempo foi resumida de forma sucinta em uma citação famosa de Alfred North Whitehead (1861-1947): “No ano de 1500 dC a Europa sabia menos do que Arquimedes, que morreu no ano 212 aC.” [9]

A Falha da Ciência e da Filosofia Natural na Era das Trevas

SUBSTRATOS INTELECTUAIS, TECNOLÓGICOS, ECONÔMICOS E MORAIS

A ciência moderna tem sua origem no movimento da filosofia natural iniciado pelos gregos jônicos no século VI aC. Os gregos inventaram o naturalismo, a uniformidade e os princípios da lógica e da demonstração. Eles desenvolveram a matemática a partir de um conjunto de regras empíricas até uma ciência exata. O período de tempo 600-400 aC nunca foi igualado em sua fertilidade de invenção intelectual e descoberta.

Mas a ciência moderna surgiu na Inglaterra do século XVII, não nas civilizações clássicas do Mediterrâneo. Os gregos nunca falaram sobre método experimental, e eles nunca evidenciaram qualquer apreço pela tecnologia ou pela sinergia dela com a ciência.

A pergunta mais interessante e significativa na história da ciência é por que a ciência grega naufragou e chegou a um beco sem saída. Uma série de fatores pode ter sido envolvida, mas no momento não é possível dar uma resposta conclusiva.

A ciência moderna depende, para a sua existência, de substratos intelectuais, tecnológicos, econômicos e morais. Toda a civilização humana se sustenta por meio de idéias, tecnologia, produtividade e moralidade. As idéias são o estímulo da inovação. A tecnologia aplicada na atividade econômica fornece os requisitos materiais da vida. Moralidade dita como uma civilização é ordenada, e determina as regras que governam como os indivíduos interagem uns com os outros. Esses fatores estão inter-relacionados, sobrepostos e, em certa medida, são dependentes uns dos outros.

A questão é complexa. O desenvolvimento da tecnologia depende de um sistema econômico que acolhe e recompensa a inovação. Uma das razões pelas quais a revolução científica do século XVII ter ocorrido na Europa é que os europeus adquiriram um apreço pela tecnologia e começaram a entender a necessidade de adotar o empirismo sistemático que sempre foi praticado nas artes aplicadas. Possivelmente, a tradição artesanal das artes aplicadas era tão importante quanto a filosofia. Os líderes no desenvolvimento da tecnologia medieval não eram filósofos, mas artesãos, comerciantes e empresários. Em uma palavra, os empresários. Havia lucros a serem derivadas das novas tecnologias. Um moinho movido a água exigiu um investimento de capital considerável, mas o investimento foi provavelmente para ter um lucro significativo. Pessoas inventivas procuraram maneiras de melhorar sua produtividade.

A importância dos fatores culturais é ilustrada pela comparação da história da ciência e tecnologia na China e na Europa. Os chineses foram criativos. Eles inventaram inúmeras tecnologias, mas não conseguiram desenvolvê-las economicamente tão plenamente quanto os europeus fizeram. Na China, a classe mercantil foi suprimida por uma “classe dominante latifundiária.” [10] Os desenvolvimentos econômico e, consequentemente, tecnológico foram estrangulados por uma “burocrática economia controlada pelo Estado.” [11] Coube aos europeus desenvolver as promessas de tecnologias que se originavam na China. O fato da Europa ter importado tecnologia não mostra exatamente uma fraqueza, pois na verdade se tratava de um continente que se portou como uma “sociedade tecnologicamente progressiva” [12], aberta à introdução de novas idéias. Em contraste, a sociedade chinesa era xenófoba. Convencidos de sua superioridade inata, os chineses não eram receptivos a ideias estrangeiras. [13]

Continua…

Notas e Referências

1. Encyclopædia Britannica, Eleventh Edition, 1911, Middle Ages, vol. 18. Encyclopædia Britannica Company, New York, p. 412.
2. Ibid., p. 409.
3. Ibid.
4. Mommsen, T. E., 1942, Petrarch’s Conception of the ‘Dark Ages.’ Speculum, no. 2, vol. 17, p. 226–242.
5. Barnard, H. C., 1922, The French Tradition in Education. Cambridge University Press, p. 18.
6. Drake, S., 1978, Galileo at Work, His Scientific Biography (first published by the University of Chicago Press in 1978). Dover, New York, p. 377.
7. Grant, E., 1977, Physical Science in the Middle Ages. Cambridge University Press, Cambridge, p. 12.
8. White, L., 1940, Technology and Invention in the Middle Ages. Speculum, no. 2, vol. 15, p. 149.
9. Whitehead, A. N., 1967, Science and the Modern World (first published in 1925 by Macmillan, New York). Free Press, New York, p. 6.
10. Ta-k’un, W., 1952, An Interpretation of Chinese Economic History. Past and Present, no. 1, vol. 1, p. 9.
11. Ibid.
12. Cardwell, D. S. L., 1972, Turning Points in Western Technology. Science History Publications, New York, p. 5.
13. Landes, D. S., 1969, The Unbound Prometheus. Cambridge University Press, Cambridge, p. 28.

Anúncios

5 opiniões sobre “A Falha da Ciência e da Filosofia Natural na Era das Trevas – Parte 1: Introdução”

  1. Texto interessante em alguns aspectos, mas em minha modesta opinião deixa muito a desejar em outros. Gostei particularmente da alusão à atmosfera relativista dominante nos departamentos de ciências humanas que acredito explicar em parte a indulgência e a falta de rigor com que tem sido tratadas as idéias e obras de Jaki, Stark, Woods Jr. e cia.

    Agora, os apontamentos sobre o desgaste do naturalismo como um movimento intelectual foram vagos e excessivamente generalizantes (por exemplo, ao colocar no mesmo saco de ‘filósofos naturais’ jônicos, eleatas e pitagóricos, quando, grosso modo, os eleatas eram, com o perdão pelo anacronismo, ‘racionalistas’, enquanto os jônicos seriam ‘empiristas’). Também me pareceu problemática a afirmação de que “os gregos nunca falaram sobre método experimental, e eles nunca evidenciaram qualquer apreço pela tecnologia ou pela sinergia dela com a ciência”, primeiro por contrariar muito do que foi dito nos artigos de Carrier e Bernstein, segundo porque não é porque numa determinada comunidade não se fala de algo que este algo inexiste ou não é utilizado pelos membros desta comunidade (mesmo que de modo rudimentar, intuitivo, amadorístico); e o próprio exemplo da tradição artesanal dado no parágrafo seguinte ilustra isso perfeitamente, já que dificilmente a classe dos artesãos adepta do ‘empirismo sistemático’ alguma vez falou em ‘método experimental’.

    A afirmação sobre o desapreço pela tecnologia por parte dos gregos então lembra muito a dos historiadores apologistas de que só entre os cristãos havia a crença num universo estável e ordenado no sentido de que ignora ambas as atitudes estão enraízadas naquele núcleo de humanidade comparilhado por todos (ou no mínimo quase todos) os seres humanos. Humanos queremos exercer poder e controle sobre o ambiente (aí incluídos outros humanos), e via de regra aderimos entusiasticamente a qualquer inovação que incremente esse poder e esse controle. O modo como as populações nativas das Américas, da África subsaariana e da Oceania reagiram às tecnologias trazidas pelos europeus é prova disso, e até agora não foi apresentada nenhuma razãopara pensarmos que os gregos antigos foram diferentes.

    Tudo bem que o autor reconhece que a questão é complexa, mas até o momento ele parece não estar a altura desta complexidade. Em todo caso, aguardando pela continuação.

    Curtir

    1. A Filosofia natural como um movimento intelectual estava se deteriorando há vários séculos. Os Jônicos, Pitagóricos e Eleatas eram proeminentes em cerca de 600 a 400 aC, mas na época da morte de Sócrates em 399 aC, o movimento já estava gasto. Em tempos posteriores, indivíduos como Aristóteles, Arquimedes, Estratão, e Eratóstenes fizeram contribuições significativas, mas a filosofia natural em si estava em um beco sem saída.

      conde- É impressionante o alto grau de desonestidade intelectual e ignorância desses notórios analfabetos pseudo-escritores deste blog. Preliminarmente, desfiguraram a filosofia grega, impregnada de perspectiva metafísica, para transformá-la numa reles filosofia materialista. A filosofia grega sem a metafísica platônica e aristotélica simplesmente fica vazia de sentido. Mas quem disse que uma anta monumental como o Sr. Suriani já leu alguma página dos gregos, a não ser por arremedos de páginas do google?

      ]

      O início de uma Era das Trevas na Europa foi o culminar inevitável da história. A ausência quase que completa de avanços em áreas como a filosofia natural, matemática e astronomia na Europa durante este tempo foi resumida de forma sucinta em uma citação famosa de Alfred North Whitehead (1861-1947): “No ano de 1500 dC a Europa sabia menos do que Arquimedes, que morreu no ano 212 aC.” [9]

      Conde-Resta-nos os símios analfabetos nos explicarem como os europeus não desenvolveram nada, já que o produto tecnológico da Idade Média não somente gerou as instituições e forças econõmicas que fundaram o comércio internacional, como tb as tecnologias necessárias à descoberta do novo mundo. Esse pessoal é de uma burrice assustadora. Vão estudar, seus analfabetos funcionais!

      Curtir

    2. Texto interessante em alguns aspectos, mas em minha modesta opinião deixa muito a desejar em outros. Gostei particularmente da alusão à atmosfera relativista dominante nos departamentos de ciências humanas que acredito explicar em parte a indulgência e a falta de rigor com que tem sido tratadas as idéias e obras de Jaki, Stark, Woods Jr. e cia.

      Conde-Bastaria os ateus analfabetos se informarem um pouco mais de filosofia, teologia e história, para encerrarem mas macaquices vergonhosas de incultura que demonstram, ao publicarem artigos ou textos sem qualquer fundamento ou validade histórica. Apegam-se ao mito renascentista de uma “idade das trevas” inexistente e já refutada por historiadores sérios, quando na prática, jamais se aprofundaram sequer na filosofia, demonstrando um desconhecimento intelectual vergonhoso, tanto do mundo antigo, como da Idade Média.

      Agora, os apontamentos sobre o desgaste do naturalismo como um movimento intelectual foram vagos e excessivamente generalizantes (por exemplo, ao colocar no mesmo saco de ‘filósofos naturais’ jônicos, eleatas e pitagóricos, quando, grosso modo, os eleatas eram, com o perdão pelo anacronismo, ‘racionalistas’, enquanto os jônicos seriam ‘empiristas’).

      Conde- Onde está a metafísica na filosofia grega, já que os asnos daqui só pegam os sofistas?

      Também me pareceu problemática a afirmação de que “os gregos nunca falaram sobre método experimental, e eles nunca evidenciaram qualquer apreço pela tecnologia ou pela sinergia dela com a ciência”, primeiro por contrariar muito do que foi dito nos artigos de Carrier e Bernstein,

      Conde-Quem é que leva a sério um notório idiota como Carrier, que desconhece qualquer sentido histórico da Idade Antiga e se apega trivialmente aos mitos toscos do Renascimento e do Iluminismo?

      segundo porque não é porque numa determinada comunidade não se fala de algo que este algo inexiste ou não é utilizado pelos membros desta comunidade (mesmo que de modo rudimentar, intuitivo, amadorístico); e o próprio exemplo da tradição artesanal dado no parágrafo seguinte ilustra isso perfeitamente, já que dificilmente a classe dos artesãos adepta do ‘empirismo sistemático’ alguma vez falou em ‘método experimental’.

      Conde- Percebemos aqui, que os analfabetos ateus não sabem a diferença entre pensamento científico e técnica.

      Curtir

  2. NENHUM historiador sério utiliza mais esse termo jocoso e infantil de “Idade das Trevas” para a Idade Média. Só este fato (e pelo autor deste blog de quinta categoria tê-lo utilizado) já descarta isso como qualquer relevância de “seriedade”.

    Curtir

Quer fazer um comentário?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s