Craig x Ehrman – Uma Análise, Parte 5: Por que Craig venceu o debate antes mesmo dele começar?

Antes de mais nada, gostaria de pedir desculpas aos leitores pelas férias que tirei na publicação de material mais sério aqui no blog. Inúmeros problemas técnicos, somado à falta de tempo e à minha completa ausência de foco, têm me atrapalhado bastante. Estou com quase 10 textos semi-acabados mas não consigo terminá-los. Então resolvi fazer dois pequenos textos sobre o debate entre Craig e Ehrman baseados na análise do Atheist Experience.

O primeiro ponto defendido por Russell Glasser é que Craig havia ganho o debate mesmo antes de começar, algo que não tinha passado pela minha mente até eu ler o que ele disse. O outro ponto foi algo que percebi desde as primeiras vezes que olhei o debate com mais atenção: a de que o argumento matemático do Craig era absolutamente desnecessário tendo em vista a mensagem que ele desejava transmitir. Eu já inclusive dei algumas pinceladas sobre o tema nos textos anteriores, mas vale a pena um post especial só sobre o assunto, que virá em breve.

Por hora a questão é o título do debate:

Is There Historical Evidence for the Resurrection of Jesus? / Existem Evidências Históricas para a Ressurreição de Jesus?

A resposta correta pode chocar muitos ateus a princípio, porque ela é SIM. Isto quer dizer que crer na ressurreição de Jesus é algo plausível? Aí já são outros quinhentos, calma aí…

A primeira coisa que devemos saber é o conceito de evidência histórica. E o que é uma evidência histórica? A wikipedia dá uma noção básica sobre o assunto para não nos delongarmos demais aqui:

O fato histórico é estudado através de vestígios e documentos. As fontes históricas são constituídas por elementos das quais o homem fez e deixou no passado. Os fatos históricos influenciam o futuro, ou seja, o atual mundo é composto dos acontecimentos e feitos anteriores. Os monumentos, templos, esculturas, pinturas e outros objetos em geral são considerados vestígios; as tradições (oral) são lendas, canções, narrações e outras formas de manifestações culturais expressas na oralidade; e os documentos escritos são todos aquelas fontes escritas, como leis, livros e relatórios.

Ou seja, as alegações sobre a ressurreição de Jesus encontradas em documentos antigos são evidência histórica do fato. Pronto. Simples assim. Craig venceu o debate e ninguém precisou nem abrir a boca. Mas a existência dessa evidência tem algum valor?

Se considerarmos que sim, devemos lembrar das dezenas de alegações de ressurreição de outras figuras famosas da época, tal como Apolônio de Tiana. Devemos nos lembrar das inúmeras alegações de que existe um monstro sob o Lago Ness. Devemos nos lembrar que muitas sociedades secretas alegadamente já influenciaram decisivamente e secretamente eventos históricos que marcaram o rumo da humanidade. Bem, existem evidências históricas para tudo isso, mas isso não quer dizer que esses supostos fatos sejam verdadeiros ou que pelo menos sejam históricos.

O que acontece é que este debate não deveria se chamar “Existem as Evidências para a Ressurreição de Jesus?” mas sim algo como “As Evidências Históricas para a Ressurreição de Jesus Merecem Credibilidade?” ou como “A Ressurreição de Jesus pode ser Considerada um Fato Histórico?”

Eu discordo de Russell quando ele diz que este título favoreceu Craig. Na verdade, em momento algum o debate foi sobre o que o título propunha. Se fosse, Craig teria vencido incontestavelmente e duvido que qualquer historiador sério no mundo contestaria tal vitória: as evidências existem.

O problema é que cada debatedor debateu sobre um tema diferente: Craig debateu sobre o tema “Jesus ressuscitou?” e Ehrman sobre o tema “Qual a Credibilidade das Evidências que temos a favor da ressurreição de Jesus?” Tudo isso fica muito claro quando olhamos o debate sobre essa óptica. Craig defendeu que as narrativas bíblicas eram um fato fora de disputa e que cuja única conclusão – que inclusive era suportada pelo famoso Testemunho Interno do Espírito Santo – era que Jesus de fato ressuscitou. Ehrman defendeu que as evidências que dispomos para a ressurreição são fracas e pouco confiáveis e que mesmo que fossem mais confiáveis, não podemos pressupor a existência de um dentre as centenas de deuses louvados nas mais diversas religiões para explicá-las.

O que defendo neste artigo é que se o tema debatido fosse o tema do título do debate, Craig teria tido uma vitória tão evidente quanto vazia. Seria o mesmo que debater sobre “Existem evidências de que a Terra é plana?”, já que qualquer pessoa pode argumentar que quando colocamos alguma sobre o chão, ela não necessariamente sai rolando e isso definitivamente seria uma evidência de que a Terra é plana. Evidências são quase sempre circunstanciais e ambíguas. Uma mesma evidência pode suportar explicações por vezes contraditórias entre si. Um debate nunca deve se resumir à existência de evidências, mas sim sobre 1) sua credibilidade, 2) sua relevância em provar alguma tese e 3) a existência de teses alternativas e sobre qual delas se encaixa mais.

A verdade é que podemos encontrar evidências para qualquer babaquice que inventemos, o que não quer dizer que isso torne qualquer babaquice em algo além disso. É perfeitamente plausível levantar um conjunto de evidências a favor da Terra Plana, mesmo ela sendo redondamente Redonda. Não há problema nisso e um possível debate deveria se concentar é na confiabilidade e no poder explanatório que estas evidências possuem.

Agora, uma coisa deve ser dita: o debate foi organizado por uma instituição cristã. Os seus organizadores foram completamente infelizes na escolha do título e deram sorte que o debate simplesmente o ignorou. Mas que isso mostra total desconhecimento dos organizadores – que eram professores! – ah, isso mostra sim. Talvez se passassem menos tempo procurando sustentar a conclusão prévia que eles possuem sobre o cristianismo e mais tempo estudando, poderiam ter percebido que deram ao debate um título estúpido.

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4 opiniões sobre “Craig x Ehrman – Uma Análise, Parte 5: Por que Craig venceu o debate antes mesmo dele começar?”

    1. Um deles eu deixei programado para hoje a tarde desde ontem. O outro vou deixar mais pro fim de semana, para ficar mais próximo do video sobre o olavao. São só dois que estão faltando mesmo né?

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