Explicando a Ressurreição sem Recorrer a Milagres – Parte 1: Entrando no Jogo

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Título Original: Explaining the Resurrection without Recourse to Miracle
Autor: Dr. Robert M. Price
Publicado Originalmente em: The End of Christinaity,
editado por John W. Loftus, Prometheus Books, EUA, 2011, Capítulo 9
Tradução: Marco Aurélio Suriani
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Explicando a Ressurreição sem Recorrer a Milagres

Uma coisa é decidir que se deve buscar uma alternativa naturalista para uma ressurreição milagrosa. É isso o que os apologistas cristãos imaginam que os céticos estão fazendo, jogando acuados, com todos os caminhos de fuga fechados. Da mesma forma que uma pessoa pode imaginar um crente religioso, contra a parede, rezando por um milagre de libertação, apologistas pintam os céticos cercados pelo “Cão do Céu” em uma caça evangelística e, por mais estranho que possa parecer, “orando” (pedindo desesperadamente) para a ausência de um milagre: alguma alternativa naturalista para a ressurreição da Jesus. [1] Outra coisa é o cético afirmar que o recurso ao milagre é completamente supérfluo, uma hipótese de “estepe”. E este será o meu caso aqui. Eu não estou sequer levantando a questão da possibilidade dos milagres. Isto não vem ao caso, até onde posso ver. Deixe-me explicar o porquê.

Para fins de argumentação, vou assumir que a narrativa “padrão” para a ressurreição nos Evangelhos é historicamente correta. Realmente havia um José de Arimatéa. Realmente havia um grupo de discípulos do sexo feminino que testemunhou seu enterro. O túmulo realmente foi descoberto vazio posteriormente. Discípulos realmente reivindicaram tê-lo visto. Claro, por que não? Tenha em mente, porém, que isso é puramente um exercício de análise da abordagem particular usada por William Lane Craig e seus colegas [2], não a abordagem usada pelos críticos do Novo Testamento [3], que não asseguram a precisão das histórias dos Evangelhos. Craig e os outros contam com a ingenuidade de seu público, que abre os Evangelhos pronto e ansioso para acreditar no que eles dizem [4]. Eles estão argumentando como contra os racionalistas do século XVIII que asseveravam a inerrância virtual da narrativa do Novo Testamento, disputando (por mais estranho que pareça) apenas o fator de causalidade milagrosa alegado [5]. Se o Evangelho nos diz que Jesus foi crucificado e que três dias depois ele apareceu aos seus entes queridos, então devemos acreditar em ambos. Alguns detalhes podem ser enfeites lendários, mas o núcleo da história deve ser verdadeiro. A questão é:

Como podemos ir de um para o outro? Como podemos ligar os pontos? Racionalistas descartaram o sobrenatural por uma questão de método; eles assumiram que Deus não trabalhou e nem trabalha desse modo. Ele opera através de um sistema sublime das leis naturais que, por exemplo, impedem um corpo genuinamente morto volte espontaneamente à vida. Então, concluíram os Racionalistas, se Jesus tenha sido crucificado e aparecido vivo novamente depois, é porque ele não sucumbiu à crucificação. Ele deve ter sido retirado vivo, lambeu suas feridas por um curto tempo, e voltou aos discípulos, pelo menos temporariamente. É contra esse argumento e outros como ele (a Teoria do Túmulo Errado etc.) que os apologistas contemporâneos respondem.

Mas estudiosos modernos do Novo Testamento já não dão como certo que as narrativas de Páscoa são históricas. Por que elas deveriam ser? Elas são tão parecidas com narrativas apoteóticas como as de Hércules, Rômulo, Apolônio, Empédocles, e outras [6] que o ônus da prova cabe àquele que insistir que, no caso único de Jesus o “mito tornou-se realidade.” [7]. E isso que acabei de dizer é manifestamente um juízo teológico, não um veredito histórico [8]. Mas o importante é ver que a cadeia de “eventos” que levou à epifania do Ressuscitado é igualmente lendária: mera cenografia para os estudiosos do “Grande Evento”. Estudiosos não supõem que, digamos, a estória de José de Arimatéa, ou que as mulheres que visitam o túmulo, sejam história, e que a única coisa que exige explicação especial é por que o túmulo estava vazio. Como o meu velho pastor Donald Morris uma vez brincou em um sermão, “Deixe-me citar a mim mesmo para não deturpar minhas próprias opiniões”:

O que os apologistas evangélicos ainda estão tentando mostrar … é que a sua versão da ressurreição foi o mais compatível com a aceitação de todos os detalhes das narrativas evangélicas da Páscoa como verdadeiros e inegociáveis. Este é um argumento muito estranho quando você percebe o que realmente está acontecendo: é implicitamente um argumento entre inerrantistas bíblicos em que os defensores da ressurreição assumem que seus opositores concordam com eles que todos os detalhes são verdadeiros, que apenas o ponto culminante está em questão… É por isso que, se apologistas como William Lane Craig conseguirem levar um adversário a admitir que José de Arimatéa provavelmente enterrou Jesus no seu próprio túmulo, e que as mulheres  provavelmente visitaram o túmulo, e que o túmulo foi provavelmente encontrado vazio, então ele pode pressionar para a conclusão de que, Bingo! Jesus deve ter ressuscitado dos mortos! O que eles de alguma forma não vêem é que argumentar assim é como argumentar que a Cidade Esmeralda de Oz deve existir efetivamente já que, caso contrário, para onde a Estrada dos Tijolos Amarelos levaria?… Nós simplesmente não temos nenhuma razão para supor que qualquer coisa que uma narrativa antiga nos diz é verdadeira. [9]

Por que eles/nós deveríamos? Como eu já disse antes, estes apologistas cristãos podem não gostar, mas como historiador RG Collingwood explica muito bem, “o historiador crítico (lidando tanto com a Bíblia quanto com o jornal) exige que as afirmações em fontes antigas ou modernas sejam corroboradas. O historiador não toma simplesmente o escritor antigo ou moderno na sua palavra, até que ele julgue o contrário.” [10]

E, no entanto, é o que eu vou fazer aqui. É simplesmente uma experiência de pensamento. Até onde eu sei, apologistas perderam o jogo há muito tempo por errarem a identificação do tipo de narrativa que estamos lidando com Marcos 15-16, Mateus 27-28, Lucas 23-24 e João 19-21. Mas eu talvez esteja perversamente interessado em ver o quanto podem ser fracos os outros elos da cadeia de sua suposta prova. Eu quero jogar o jogo deles de Racionalismo contra anti-Racionalismo. Vou assumir como verdadeiro o caráter essencialmente histórico dos “eventos” que precederam a ressurreição. A única diferença é a seguinte: eu não acho que alguém tem que ir muito longe para chegar a uma explicação completamente natural para a suposta ressurreição. Não há necessidade de uma estratégia de recuo, algum expediente, ou algum plano de emergência. Nunca chega a isso. Tenha paciência comigo enquanto eu me aventuro na defesa da Teoria do Desmaio, da Teoria do Reenterro, da Teoria da Identidade Trocada, e da Teoria da Dissonância Cognitiva (“Transformação dos Discípulos”). Eu prevejo que iremos descobrir que não há a menor improbabilidade, nem sequer implausibilidade, anexada a qualquer uma destas opções.

Continua…

Notas e Referências:

1. Veja John Warwick Montgomery, History and Christianity (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 1974), 41–58.

2. Por William Lane Craig: The Son Rises: Historical Evidencefor the Resurrection of Jesus (Chicago: Moody, 1981);
Reasonable Faith: Christian Truth and Apologetics, rev. ed. (Wheaton, IL: Crossway, 1994);
“The Bodily Resurrection of Jesus,” em Gospel Perspectives: Studies of History and Tradition in the Four Gospels, ed. R. T. France e David Wenham (Sheffield, England: JSOT Press, 1980), 47–74;
“The Empty Tomb of Jesus,” em Gospel Perspectives II: Studies of History and Tradition in the Four Gospels, ed. R. T. France and David Wenham (Sheffield, England: JSOT Press, 1980), 173–200;
“Did Jesus Rise from the Dead?” em Jesus under Fire: Modern Scholarship Reinvents the Historical Jesus, ed. Michael J. Wilkins and J. P. Moreland (Grand Rapids, MI: Zondervan, 1995), 141–76.
Outros exemplos: Gary R. Habermas e Michael Licona, The Case for the Resurrection of Jesus (Grand Rapids, MI: Kregel, 2004);
Gregory A. Boyd e Paul Rhodes Eddy, The Jesus Legend: A Casefor the Historical Reliability of the Synoptic Jesus (Grand Rapids, MI: Baker, 2007);
Michael Licona, The Resurrection of Jesus: A New Historiographical Approach (Downers Grove, IL: IVP Academic, 2010).

3. David Friedrich Strauss, “Death and Resurrection of Jesus” em The Life of Jesus Critically Examined, trans. George Eliot e Mary Ann Evans (Philadelphia: Fortress, 1972), 691–744;
Willi Marxsen, The Resurrection of Jesus of Nazareth, trans. Margaret Kohl (Philadelphia: Fortress 1970);
Reginald H. Fuller, The Formation of the Resurrection Narratives (New York: Macmillan, 1971);
Norman Perrin, The Resurrection according to Matthew, Mark, and Luke (Philadelphia: Fortress 1977);
E veja a discussão e bibliografia citados em Richard Carrier, “Why the Resurrection Is Unbelievable,” em John Loftus, ed., The Christian Delusion: Why Faith Fails (Amherst, NY: Prometheus Books, 2010), 291–315.

4. Suas polêmicas são destinadas para o vazio, abro apóstrofo (“Ó morte, onde está o teu aguilhão?”), para adversários ausentes: os racionalistas antigos; mas a audiência/leitores real é principalmente formada por crentes que procuram acalmar as suas dúvidas. Eles, também, já estão ansiosos para acreditar no que diz a narrativa e, assim, tomar por certo a maior parte dela sem sequer perceberem, mesmo quando a história em si é o que está em questão. Não é de admirar que evangélicos, especialmente colegas apologistas, pretendem achar esta apologética convincente!

5. Albert Schweitzer, The Quest of the Historical Jesus: A Critical Study of Its Progress from Reimarus to Wrede, trans. W. Montgomery (New York: Macmillan, 1975), 27–67. Veja os capítulos 3-6 devotados aos Racionalistas, incluindo Heinrich Eber-hard Gottlob Paulus, Karl Friedrich Bahrdt, e Karl Heinrich Venturini.

6. Charles H. Talbert, What Is a Gospel? The Genre of the Canonical Gospels (Philadelphia: Fortress, 1977);
Robert M. Price, “Brand X Easters,” em The Resurrection of Jesus: A Sourcebook, ed. Bernard Brandon Scott (Santa Rosa, CA: Polebridge, 2008), 49–59.

7. C. S. Lewis, “Myth Became Fact,” in C. S. Lewis, God in the Dock: Essays on Theology and Ethics, ed. Walter Hooper (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1970), 63–67.

8. Price, “Jesus: Myth and Method,” in Loftus, The Christian Delusion, 273–90.

9. Robert M. Price, The Case against the Case for Christ: A New Testament Scholar Refutes the Reverend Lee Strobel (Cranford, NJ: American Atheist, 2010), 209–10. Veja o astuto quadrinho “Jesus and Mo”, no qual sou viciado, acompanhando o texto. (de jesusandmo.net, usado com permissão).

10. R. G. Collingwood, The Idea of History (New York: Oxford University Press/ Galaxy Books, 1956), 236–39; veja Price, Against the Case for Christ, 210.

A Falha da Ciência e da Filosofia Natural na Era das Trevas – Parte 2: O Problema do Conhecimento

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Título Original: The Intellectual Decline of Europe /
Failure of Ancient Science and Natural Philosophy
Autor: DAVID DEMING
Publicado Originalmente em: Science and Technology in World History,
Vol. 2 – Early Christianity, the Rise of Islam and the Middle Ages,
McFarland & Company, EUA, 2010, pgs. 47-56
Tradução: Marco Aurélio Suriani
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O PROBLEMA DO CONHECIMENTO

Através da invenção da matemática (como uma ciência sistemática e exata) e da lógica, os gregos mostraram que era possível ir além opinião humana e encontrar uma verdade demonstrável na qual todos os homens concordassem. Eles estabeleceram o método e a demonstração. Os gregos descobriram que haviam formas adequadas, metódicas e lógicas de pensamento que levariam a verdades universais.

Mas tendo constatado que um método correto poderia levar à verdade demonstrável, os filósofos gregos fizeram poucos progressos na decisão de qual o método que deveria ser usado. Este é o “problema do conhecimento,” o problema de escolher o método epistemológico correto para a produção de conhecimento confiável. Por “conhecimento confiável”, refiro ao conhecimento que é consistente com um critério de verdade estabelecido. A única coisa que pode ser exigida de qualquer sistema de conhecimento, seja na filosofia, na ciência ou na religião, é a consistência interna. Não é possível estabelecer a superioridade ou o caráter absoluto de um dado critério de verdade, já que tal alegação deve ela mesma ser validada por um critério de verdade ad infinitum. Mesmo a geometria repousa sobre axiomas que não podem ser provados.

Todos concordaram que o raciocínio geométrico levou a verdades demonstráveis, mas que os métodos de geometria não eram capazes de aplicação universal. Houve uma apreciação de que tanto a observação quanto a razão fossem necessários, mas nenhum consenso sobre o peso relativo a aplicar em cada epistemologia. Em um extremo, Parmênides e os eleatas foram longe a ponto de argumentar que essencialmente todas as informações obtidas através dos sentidos eram falsas e ilusórias. O problema deste ponto de vista é que devemos viver no mundo dos sentidos, e não um mundo imaginário criado por um filósofo ou mágico. Em 1890, índios americanos que usavam “saias fantasmas” pensaram que “seriam invulneráveis a balas.” [14] Mas mesmo assim eles morreram.

Os paradoxos de Zenão foram construídos para demonstrar que a filosofia eleática estava correta. Mas eles demonstraram precisamente o contrário. O fato de Aquiles poder, de fato, ultrapassar uma tartaruga não ilustra que o movimento é uma ilusão, mas que o pressuposto empregado na construção do paradoxo é falso. O paradoxo foi baseado na suposição de Zenão que um número infinito de pontos não pode ser percorrida em um tempo finito. Mas os matemáticos foram capazes de demonstrar mais tarde que uma série infinita pode ter uma soma finita, provando assim o que já foi indicado pela evidência dos sentidos.

Isto não significa que os eleatas não fizeram nenhuma contribuição para o problema do conhecimento. Pelo contrário, a sua incapacidade demonstrou a loucura de tentar construir um sistema de conhecimento confiável baseado na razão humana sozinha.

No outro extremo, Estratão enfatizou uma abordagem mecanicista para os problemas naturais e empregou o método experimental. A posição de Aristóteles era intermediária. Ele realizou experiências dada a ocasião, e invocou a observação como um argumento conclusivo. Mas ele nunca defendeu um programa sistemático de experimentação controlada. Experimentação e observação foram incidentais em sua filosofia, não integrais.

Os filósofos teriam feito bem se tivessem ouvido os médicos. Desde pelo menos o tempo de Hipócrates (c. 460-370 aC), os médicos haviam reconhecido o valor do empirismo. A escola hipocrática rejeitava o sobrenaturalismo, abraçava o naturalismo, e acreditava na causa e efeito. A observação foi enfatizada, e o raciocínio puramente teórico foi abandonado por possuir pouco ou nenhum valor. Hipócrates observou que o fato de os filósofos naturais se contradizerem todos uns aos outros era evidência “da sua ignorância do assunto como um todo.” [15] Ele defendeu que “os fatos são muito superiores ao raciocínio.” [16]

Mas a medicina não era filosofia nem ciência. Na civilização clássica, era considerada um ofício, como ferraria ou vinificação. [17] O empirismo no mundo antigo foi menosprezado por duas razões.

Primeiro, a ideia de que as informações obtidas através dos sentidos não era confiável porque cada pessoa vê e interpreta os eventos e objetos de forma diferente era largamente apreciada. O exemplo clássico disso é a história de Diógenes Laércio sobre Esfairo [c. 285-210 aC] sendo enganado por Ptolomeu IV. “O rei [Ptolomeu IV], desejando que refutá-lo [Esfairo], ordenou que algumas romãs de cera fossem colocadas na frente dele, e quando Esfairo foi enganado por elas, o rei gritou que ele havia dado o seu assentimento a uma falsa percepção. Mas Esfairo respondeu muito ordenadamente, que ele não tinha dado o seu assentimento ao fato de que eles eram romãs, mas ao fato de que era provável que elas pudessem ser romãs.” [18] Esfairo tentou se salvar do embaraço, mas o estrago já tinha sido feito.

Segundo, os dados empíricos disponíveis para os gregos e romanos consistiam inteiramente de informações anedóticas. Dados assim são notoriamente não-confiáveis. Isso foi reconhecido no mais famoso dos aforismos de Hipócrates: “a ocasião [é] fugaz; a experiência enganosa, e o julgamento difícil.” [19] Com a notável exceção de Estratão, houve pouca ou nenhuma experimentação sistemática e controlada. Não está claro se as sociedades grega ou romana teriam sido prósperas economicamente o suficiente para apoiar ou financiar tal programa. Daí então a necessidade de um substrato econômico.

Continua…

Notas e Referências:

14. Mooney, J., 1896, The Ghost-Dance Religion and the Sioux Outbreak of 1890, in Fourteenth Annual Report of the Bureau of Ethnology, Part 2. U. S. Government Printing Office, Washington, p. 831.
15. Hippocrates, 1846, On the Nature of Man, in The Writings of Hippocrates and Galen, translated by John Redman Coxe. Lindsay and Blakiston, Philadelphia, p. 148.
16. Hippocrates, 1846, On the Art of Medicine, in The Writings of Hippocrates and Galen, translated by John Redman Coxe. Lindsay and Blakiston, Philadelphia, p. 54.
17. Nutton, V., 2004, Ancient Medicine. Routledge, London, p. 87, 152–153.
18. Diogenes Laërtius, 1905, The Lives and Opinions of Eminent Philosophers, Book 7, translated by C. D. Yonge. George Bell & Sons, London, p. 326.
19. Hippocrates, 1886, The Genuine Works of Hippocrates, vol. 2, translated by Francis Adams. William Wood and Company, New York, p. 192.

A Falha da Ciência e da Filosofia Natural na Era das Trevas – Parte 1: Introdução

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Título Original: The Intellectual Decline of Europe /
Failure of Ancient Science and Natural Philosophy
Autor: DAVID DEMING
Publicado Originalmente em: Science and Technology in World History,
Vol. 2 – Early Christianity, the Rise of Islam and the Middle Ages,
McFarland & Company, EUA, 2010, pgs. 47-56
Tradução: Marco Aurélio Suriani
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O Declínio Intelectual da Europa

O termo Idade Média foi cunhado originalmente pelo humanista e historiador italiano Flavio Biondo (1392-1463 dC). Humanistas da Renascença “usaram o infeliz e infamante termo ‘Idade Média’ para aquilo que estava entre eles e seus ideais clássicos.” [1] Embora os historiadores modernos talvez estejam insatisfeitos com o conceito de Idade Média, “o longo uso torna o termo inevitável.” [2]

As datas que têm sido tradicionalmente atribuídas ao início e ao final da Idade Média são 476 e 1453 DC. [3] Estas datas refletem eventos políticos, e não marcos intelectuais. Por volta do século V dC, o Império Romano do Ocidente estava um caos. Roma foi ocupada e saqueada por tribos germânicas, primeiro pelos Visigodos (410 dC) e mais tarde (455 dC) pelos Vândalos. Em 476 dC, o último imperador do Império Romano do Ocidente, Rômulo Augusto, foi deposto, e no ano de 1453 dC, os turcos otomanos capturaram Constantinopla, efetivamente terminando o que restou do Império Romano no leste.

Aproximadamente a primeira metade da Idade Média (c. 476-1000 dC) foi chamada de Era das Trevas, refletindo a falta quase que total de interesse pela filosofia e pelas ciências que prevaleceu na Europa durante este tempo. O termo parece ter se originado com Petrarca (1304-1374), um escritor renascentista italiano. [4] Tendo redescoberto a literatura clássica da Grécia e de Roma durante a Renascença, os europeus começaram a considerar os séculos que se passaram entre a queda do Império Romano e tempo deles como uma era de escuridão.

O século XX viu a ascensão do relativismo cultural no Ocidente, e os escritores modernos começaram a achar o termo “Era das Trevas” algo como um “juízo de valor”, moralmente repugnante. A Era das Trevas foi, de fato, um momento de inovação tecnológica contínua em toda a Europa. Mas em áreas como matemática, filosofia natural, ou astronomia, os europeus fizeram poucas contribuições significativas durante este período de tempo em comparação com o auge da cultura helênica no Mediterrâneo. Se o termo “Era das Trevas” for usado em sentido adequado, sem invocar um julgamento relativo moral, o uso é um reconhecimento apropriado da escassez de trabalho original e criativo em determinadas áreas.

Se estamos dispostos a engolir a afirmação de que a Era das Trevas na Europa não era escura, torna-se muito difícil de explicar por que, no século XVI, as obras de Aristóteles ainda eram consideradas “como o padrão e base de toda a investigação filosófica,” [5] ou por que os textos padrão em astronomia e matemática eram a Sintaxe de Ptolomeu (c. século 2 dC) e os Elementos de Euclídes (c. século 3 aC).

Se a Era das Trevas na Europa não era escura, então é fundamental que se explique por que Galileu, no início do século XVII, estudava e idolatrava os trabalhos matemáticos de Arquimedes, escritos no século III aC. [6] Se quisermos sustentar que os esforços dos europeus durante a Era das Trevas igualaram ou superaram as conquistas da ciência helenística, torna-se difícil explicar por que os europeus deste período de tempo não foram capazes de construir qualquer dispositivo tecnológico que rivalizasse com o mecanismo de Antikythera, construído em c.150-100 aC. Assim, “não há como negar que uma era das trevas científica pairava sobre a Europa ocidental.” [7]

Deve-se reconhecer que nunca houve qualquer período de retrocesso no norte da Europa. Se qualquer área caiu em uma era negra, esta área é o Mediterrâneo. O Norte da Europa não tinha nenhum pedestal de onde cair. Nas áreas ocupadas atualmente pela Inglaterra, França e Alemanha, a filosofia, a ciência, a arte e a tecnologia se desenvolveram progressivamente nos últimos 1500 anos. As civilizações grega e romana estavam em decadência, enquanto a civilização ocidental estava apenas começando.

Por volta do início da Idade Média, as civilizações grega e romana já estavam em declínio intelectual por algumas centenas de anos. Já no primeiro século dC, Sêneca observou que havia pouco interesse em filosofia e que muito do conhecimento antigo estava sendo perdido. Os escritos dos primeiros padres cristãos mostram que a introspecção da mente Europeia não ocorreu do dia para a noite, mas sim que se desenvolveu lentamente ao longo de centenas de anos. Apesar de ter havido uma continuidade de “desenvolvimento tecnológico”, a Era das Trevas na Europa foi marcada por “desintegração política, depressão econômica, depreciação da religião e colapso da literatura.” [8]

A Filosofia natural como um movimento intelectual estava se deteriorando há vários séculos. Os Jônicos, Pitagóricos e Eleatas eram proeminentes em cerca de 600 a 400 aC, mas na época da morte de Sócrates em 399 aC, o movimento já estava gasto. Em tempos posteriores, indivíduos como Aristóteles, Arquimedes, Estratão, e Eratóstenes fizeram contribuições significativas, mas a filosofia natural em si estava em um beco sem saída.

O início de uma Era das Trevas na Europa foi o culminar inevitável da história. A ausência quase que completa de avanços em áreas como a filosofia natural, matemática e astronomia na Europa durante este tempo foi resumida de forma sucinta em uma citação famosa de Alfred North Whitehead (1861-1947): “No ano de 1500 dC a Europa sabia menos do que Arquimedes, que morreu no ano 212 aC.” [9]

A Falha da Ciência e da Filosofia Natural na Era das Trevas

SUBSTRATOS INTELECTUAIS, TECNOLÓGICOS, ECONÔMICOS E MORAIS

A ciência moderna tem sua origem no movimento da filosofia natural iniciado pelos gregos jônicos no século VI aC. Os gregos inventaram o naturalismo, a uniformidade e os princípios da lógica e da demonstração. Eles desenvolveram a matemática a partir de um conjunto de regras empíricas até uma ciência exata. O período de tempo 600-400 aC nunca foi igualado em sua fertilidade de invenção intelectual e descoberta.

Mas a ciência moderna surgiu na Inglaterra do século XVII, não nas civilizações clássicas do Mediterrâneo. Os gregos nunca falaram sobre método experimental, e eles nunca evidenciaram qualquer apreço pela tecnologia ou pela sinergia dela com a ciência.

A pergunta mais interessante e significativa na história da ciência é por que a ciência grega naufragou e chegou a um beco sem saída. Uma série de fatores pode ter sido envolvida, mas no momento não é possível dar uma resposta conclusiva.

A ciência moderna depende, para a sua existência, de substratos intelectuais, tecnológicos, econômicos e morais. Toda a civilização humana se sustenta por meio de idéias, tecnologia, produtividade e moralidade. As idéias são o estímulo da inovação. A tecnologia aplicada na atividade econômica fornece os requisitos materiais da vida. Moralidade dita como uma civilização é ordenada, e determina as regras que governam como os indivíduos interagem uns com os outros. Esses fatores estão inter-relacionados, sobrepostos e, em certa medida, são dependentes uns dos outros.

A questão é complexa. O desenvolvimento da tecnologia depende de um sistema econômico que acolhe e recompensa a inovação. Uma das razões pelas quais a revolução científica do século XVII ter ocorrido na Europa é que os europeus adquiriram um apreço pela tecnologia e começaram a entender a necessidade de adotar o empirismo sistemático que sempre foi praticado nas artes aplicadas. Possivelmente, a tradição artesanal das artes aplicadas era tão importante quanto a filosofia. Os líderes no desenvolvimento da tecnologia medieval não eram filósofos, mas artesãos, comerciantes e empresários. Em uma palavra, os empresários. Havia lucros a serem derivadas das novas tecnologias. Um moinho movido a água exigiu um investimento de capital considerável, mas o investimento foi provavelmente para ter um lucro significativo. Pessoas inventivas procuraram maneiras de melhorar sua produtividade.

A importância dos fatores culturais é ilustrada pela comparação da história da ciência e tecnologia na China e na Europa. Os chineses foram criativos. Eles inventaram inúmeras tecnologias, mas não conseguiram desenvolvê-las economicamente tão plenamente quanto os europeus fizeram. Na China, a classe mercantil foi suprimida por uma “classe dominante latifundiária.” [10] Os desenvolvimentos econômico e, consequentemente, tecnológico foram estrangulados por uma “burocrática economia controlada pelo Estado.” [11] Coube aos europeus desenvolver as promessas de tecnologias que se originavam na China. O fato da Europa ter importado tecnologia não mostra exatamente uma fraqueza, pois na verdade se tratava de um continente que se portou como uma “sociedade tecnologicamente progressiva” [12], aberta à introdução de novas idéias. Em contraste, a sociedade chinesa era xenófoba. Convencidos de sua superioridade inata, os chineses não eram receptivos a ideias estrangeiras. [13]

Continua…

Notas e Referências

1. Encyclopædia Britannica, Eleventh Edition, 1911, Middle Ages, vol. 18. Encyclopædia Britannica Company, New York, p. 412.
2. Ibid., p. 409.
3. Ibid.
4. Mommsen, T. E., 1942, Petrarch’s Conception of the ‘Dark Ages.’ Speculum, no. 2, vol. 17, p. 226–242.
5. Barnard, H. C., 1922, The French Tradition in Education. Cambridge University Press, p. 18.
6. Drake, S., 1978, Galileo at Work, His Scientific Biography (first published by the University of Chicago Press in 1978). Dover, New York, p. 377.
7. Grant, E., 1977, Physical Science in the Middle Ages. Cambridge University Press, Cambridge, p. 12.
8. White, L., 1940, Technology and Invention in the Middle Ages. Speculum, no. 2, vol. 15, p. 149.
9. Whitehead, A. N., 1967, Science and the Modern World (first published in 1925 by Macmillan, New York). Free Press, New York, p. 6.
10. Ta-k’un, W., 1952, An Interpretation of Chinese Economic History. Past and Present, no. 1, vol. 1, p. 9.
11. Ibid.
12. Cardwell, D. S. L., 1972, Turning Points in Western Technology. Science History Publications, New York, p. 5.
13. Landes, D. S., 1969, The Unbound Prometheus. Cambridge University Press, Cambridge, p. 28.

Sexo, Mulheres e Homossexualidade na Idade Média

Recentemente, divulguei uma série aqui desconstruindo um vídeo publicado pelo vlogger Bruno Fonseca – auto-intitulado Conde Loppeux de la Villanueva. Eu argumentei que o louvor e a reverência que ele fazia ao medievalismo eram completamente descabidos e que a Idade Média não proveu uma moralidade adequada ao seu povo. Se essa moralidade atendia às necessidades da época – o que pode até ter sido o caso – então não passaria de um código utilitarista e complemente amoral (desprovido de senso moral, apesar de não ser contrário à ela). Mas o código medieval pretendia se passar por moralidade, então não é certo dizer que ela tinha em mente as necessidades da época ou que só tinha em mente tais necessidades.

Tratando a conduta medieval como a moralidade medieval, argumentei que o sexo era um completo tabu, que as mulheres eram desprezadas e que o homossexualismo era normal entre o alto-clero católico. Sobre as mulheres, Conde lembrou da reverência católica a Maria. Sobre o homossexualismo, o Conde disse que eu li apenas “mentirinhas” contadas por ateus em cursinhos pré-vestibular. Aliás, ele reclamou que eu não tenho embasamento histórico e que as minhas fontes são piores do que as dele. Mas estas reclamações dele procedem?

Quando perguntei qual o problema com minhas fontes, ele se limitou a dizer que eram ruins e que as dele eram boas. Quando pedi as fontes dele, ele se limitou a dizer alguns nomes, sem apontar livros, trechos nem nada. Quando perguntei a ele qual critério que devo utilizar para distinguir bons historiadores de ruins ele se recusou e preferiu fazer chacota (sabe-se lá porque). Ou seja, minhas fontes não foram provadas falsas e o Conde não apresentou as que ele julga serem corretas. Em outras palavras, não faz sentido dizer que fui respondido. O Conde falou muito, mas não me respondeu; sua esparafatosa resposta foi vistosa e ofensiva, cheia de pose de intelectual que não quer se misturar com a plebe, mas tudo isso foi uma maquiagem para esconder a nulidade da resposta dele.

E vamos dizer bem a verdade: só quem não tem fontes, não as cita. Não existe desculpa para esconder fontes. E mais ainda: quando pedi um critério, eu não estava agindo como um mendigo pedindo esmola, mas como um professor testando seu aluno. Eu queria saber se ele usava um critério sério e ele agiu como se eu estivesse implorando por um. Mas vá…

Ao que parece, o Conde acha (com uma dose cavalar de ingenuidade) que pode render todas as minhas fontes afirmando que são coisa de cursinho pré-vestibular sem sequer se dar o trabalho de analisar uma por uma e demonstrar isso. Logo ele, defensor da resposta ponto-por-ponto!

Mas já que ele reclama de eu não usar como fonte historiadores melhores (os que ele acha melhores, sabe-se lá porque), então resolvi dar uma fuçada e ver o que encontrava, só para não correr o risco do Conde ter defendido algo certo mesmo sendo incapaz de demonstrar que estava certo. E descobri que o Conde estava errado. Jacques Le Goff, um dos autores mais queridos do Conde, afirma textualmente o contrário do que seu fã defende. O contrário. E isso porque o Conde me chamou de iletrado por defender minhas ideias sem ler tal historiador. Sendo assim, coloco dois textos de Le Goff aqui, ambos publicados no mesmo livro, mostrando exatamente aquilo que sempre defendi aqui. Agora, não existe mais desculpa para ignorar o que eu disse sob o pretexto de ser originário de fontes nas quais o nobre francês de terras espanholas não gosta.

Complementarmente, disponho a vocês a tradução de um capítulo escrito por David Deming sobre as atitudes para com as mulheres nas eras antigas, comparando a atitude dos gregos com a atitude dos católicos medievais. Esse texto até tira um pouco das costas da Igreja Católica o desdenho contra as mulheres – mas nem tanto. Ele faz sua análise baseado nos textos bíblicos e nos textos de cristãos famosos da época. Contudo, é verdade e tudo que é verdade merece espaço aqui.

Este texto do Deming é interessante porque acaba lançando um conflito interessante: seria muita ousadia para um apologista pé-rapado afirmar que a Idade Média não herdou as ciências naturais dos gregos, mas que o machismo, este sim, fez parte da herança. Ou eles podem dizer que o machismo foi criação cristã mesmo… vai saber o que eles vão preferir. De qualquer modo, este texto do Deming ficou bem engraçado e eu simplesmente adorei seu método de escrever.

Divirtam-se!

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Título Original: A mulher, subordinada
Autores: JACQUES LE GOFF e NICOLAS TRUONG
Publicado Originalmente em: Uma História do Corpo na Idade Média,
Editora Record, Brasil, 2006, pgs. 52-55
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A derrota doutrinal do corpo parece, portanto, total. [1] Assim, a subordinação da mulher possui uma raiz espiritual, mas também corporal. “A mulher é fraca”, observa Hildegarde de Bingen no século XII, “ela vê no homem aquilo que pode lhe dar força , assim como a lua recebe a força do sol. Razão pela qual ela é submetida ao homem e deve sempre estar pronta para servi-lo.” Segunda e secundária, a mulher não é nem o equilíbrio e nem a completude do homem. Em um mundo de ordem e de homens necessariamente hierarquizado, “o homem está em cima, a mulher embaixo”, escreve Christiane Klapisch-Zuber. [2]

O corpus da intervenção dos textos bíblicos dos Padres da Igreja dos séculos IV e V (como Ambrósio, Jerônimo, João Crisóstomo e Agostinho) é incansavelmente retomado e repetido durante a Idade Média. Assim, a primeira versão da Criação presente na Bíblia é esquecida em proveito da segunda, mais desfavorável à mulher. Ao Deus criou “o homem à nossa imagem, à nossa semelhança”, isto é, “homem e mulher” (Gênesis 1:26-27), os Padres e os clérigos preferem a versão da modelagem divina de Eva a partir da costela de Adão (Gênesis 2:21-24). Da criação dos corpos nasce, portanto, a desigualdade original da mulher. Uma parte da teologia medieval segue o passo de Agostinho, que faz remonstar a submissão da mulher antes da Queda. O ser humano é portanto cindido: a parte superior (a razão e o espírito) está do lado masculino, a parte inferior (o corpo, a carne), do lado feminino. As Confissões de Agostinho são a narrativa de uma conversão, por meio da qual o futuro bispo de Hipona conta, igualmente, como a mulher em geral – e a sua em particular – foi um obstáculo à sua nova vida de homem da Igreja.

Oito séculos mais tarde, Tomás de Aquino (c. 1224-1274) se afastará em parte do caminho tomado por Agostinho, porém se fazer que a mulher entre no caminho da liberdade e da igualdade. Embebido do pensamento de Aristóteles (384-322 a.C.), para quem “a alma é a forma do corpo”, Tomás de Aquino recusa e refuta o argumento dos dois níveis de criação de Agostinho. Alma e corpo, homem e mulher foram criados ao mesmo tempo. Assim, masculino e feminino são, ambos, a sede da alma divina. Entretanto, o homem dá provas de mais acuidade na razão. E sua semente é a única que, durante a copulação, eterniza o gênero humano e recebe a bênção divina. A imperfeição do corpo da mulher, presente na obra de Aristóteles e na de seu leitor medieval Tomás de Aquino, explica as raízes ideológicas da inferioridade feminina, que, de original, se torna natural e corporal. Tomás de Aquino, entretanto, mantém uma igualdade teórica entre o homem e a mulher, observando que, se Deus quisesse fazer da mulher um ser superior ao homem, ele a teria criado de sua cabeça e, se decidisse fazer dela um ser inferior, ele a teria criado de seus pés. Ora, ele a criou do meio de seu corpo para ressaltar sua igualdade. Também é preciso destacar que a regulamentação do casamento pela Igreja irá exigir o consentimento mútuo dos cônjuges e, embora essa prescrição nem sempre tenha sido respeitada, ela marca um avanço no estatuto da mulher. Do mesmo modo, se é possível afirmar que o grande impulso do culto da Virgem tem repercussões sobre uma promoção da mulher, a exaltação de uma figura feminina divina só pode reforçar uma certa dignidade da mulher, em particular da mãe e, através de Santa Ana, da avó.

A influência de Aristóteles sobre os teólogos da Idade Média não traz benefício à condição feminina. Assim, depois dele, a mulher é considerada “um macho defeituoso”. Essa fraqueza psíquica tem “efeitos diretos sobre seu entendimento e sua vontade”, ela “explica a incontinência que marca seu comportamento; ela influi em sua alma e em sua capacidade de elevar-se à compreensão do divino”, escreve Christiane Klapisch-Zuber. O homem será, por consequência, o guia dessa pecadora. E as mulheres, que não possuem voz na história, vão oscilar entre “Eva e Maria, pecadora e redentora, megera conjugal e dama cortês”. [3]

A mulher irá pagar em sua carne o passe de mágica dos teólogos, que transformaram o pecado original em pecado sexual. Pálido reflexo dos homens, a ponto de Tomás de Aquino, que às vezes segue o pensamento comum, dizer que “a imagem de Deus se verifica no homem de uma maneira que não se verifica na mulher”, ela é subtraída até mesmo em sua natureza biológica, já que a incultura científica da época ignora a existência da ovulação, atribuindo a fecundação apenas ao sexo masculino. “Essa Idade Média é masculina, decididamente”, escreve Georges Duby. “Pois todos os discursos que chegam até mim e sobre os quais me informo são feitos por homens, convencidos da superioridade de seu sexo. É apenas a eles que ouço. No entanto, eu os escuto falando antes de tudo de seu desejo e, por consequência, das mulheres. Eles têm medo delas e, para se afirmarem, desprezam-nas.” Boa esposa e boa mãe, as homenagens que o homem rende à mulher assemelham-se, por vezes, a desgraças, se levarmos em conta o vocabulário corrente entre os operários e os artesãos do século XV, que falam de “cavalgar”, “justar”, “lavrar” e “roissier” (bater e espancar) as mulheres. “O homem se dirige à mulher como se dirige à latrina: para satisfazer uma necessidade”, [4] resume Jacques Rossiaud.

Ao mesmo tempo, os confessores tentam refrear as pulsões masculinas por meio das proibições, mas também controlando a prostituição nos bordéis e nos banhos públicos, esses lugares de exutório. As prostitutas, cuja “condição é vergonhosa”, e “não aquilo que elas obtém”, escreve Tomás de Aquino, encontram-se, pois, em grandes ou pequenos bordeis comunais ou privados, banhos públicos e outros lupanares, vindas dos arredores das cidades, onde exercem “o mais antigo ofício do mundo”, frequentemente após terem sido violadas por grupos de jovens que buscam, por sua vez, exercer e aguçar sua virilidade. Relegadas, mas igualmente reguladoras da sociedade, as prostitutas vivem em seus corpos as tensões da sociedade medieval.

Notas

1. Um resumo dos estudos sobre o corpo na Idade Média produzidos antes desta nova síntese por Jacques Le Goff, e, sobretudo, provenientes de suas pesquisas sobre L’Imaginaire médiéval (Paris, Gallimard, 1985 e 1991), figura em Jacques Le Goff, Un autre Moyen Âge, Paris, Gallimard, 1999.

2. Christiane Klapisch-Zuber, “Masculin/féminin”, in: Jacques Le Goff e Jean-Claude Schmitt (orgs.), op. cit.

3. Christiane Klapisch-Zuber, ibid.

4. Ver, sobretudo, Jacques Rossiaud, La prostitution médiévale, Paris, Flammarion, 1990 (reedição). Edição brasileira: A prostituição na Idade Média, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1991.

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Título Original: A sexualidade, o ápide da depreciação (trecho)
Autores: JACQUES LE GOFF e NICOLAS TRUONG
Publicado Originalmente em: Uma História do Corpo na Idade Média,
Editora Record, Brasil, 2006, pgs. 41-42
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Assim, é possível afirmar que o corpo sexuado da Idade Média é majoritariamente desvalorizado, as pulsões e o desejo carnal, amplamente reprimidos. O próprio casamento cristão, que aparece, não sem dificuldade, no século XVIII, será uma tentativa de remediar a concupiscência. A cópula só é compreendida e tolerada com a única finalidade de procriar. “O adúltero é também aquele apaixonado de modo demasiadamente ardente por sua mulher”, repetirão os clérigos da Igreja. Prescreve-se, deste modo, o domínio do corpo; as práticas “desviantes” são proibidas.

Na cama, a mulher deve ser passiva, o homem, ativo, mas moderadamente, sem arrebatamento. No século XVII, apenas Abelardo (1079-1142), pensando talvez em sua Heloísa, chegará a dizer que a dominação masculina “termina no ato conjugal, em que homem e mulher detém igual poder sobre o corpo um do outro.” Mas, para a maior parte dos clérigos e dos leigos, o homem é um possuidor. “O marido é proprietário do corpo de sua mulher, ele tem direito de posse sobre o corpo dela”, resume Georges Duby. Toda tentativa contraceptiva é pecado mortal para os teólogos. A sodomia é uma abominação. A homossexualidade – após ter sido condenada, depois tolerada, a ponto de constituir-se no século XVII, segundo Boswell, em uma cultura “gay” no próprio seio da Igreja – torna-se, a partir do século XVIII, uma perversão por vezes associada ao canibalismo.

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Título Original: Attitudes Toward Women
Autor: DAVID DEMING
Publicado Originalmente em: Science and Technology in World History,
Vol. 2 – Early Christianity, the Rise of Islam and the Middle Ages,
McFarland & Company, EUA, 2010, pgs. 36-41
Tradução: Marco Aurélio Suriani
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Atitudes em Relação às Mulheres

MULHERES EM ROMA

As sociedades gregas e romanas eram patriarcais. Na Grécia Antiga, mulheres eram consideradas significativamente inferiores aos homens. Esta crença era comum não só entre os mais simples, mas também entre as mentes mais incisivas e brilhantes, incluindo Platão e Aristóteles.

O patriarquismo em Roma talvez tenha sido de alguma forma menos opressivo do que na Grécia. “A defesa do patriarcado não era um tema tão visível na literatura romana quanto era na grega.” [1] Mas no entanto, “a esposa … [era] a propriedade de seu marido … [e dentro da família] o pai sozinho tinha a autoridade independente, e enquanto ele vivesse todos aqueles sob seu poder – seus filhos, e as esposas e filhos deles, e suas filhas solteiras – não poderiam adquirir nenhuma propriedade para si mesmos.” [2]

O debate no Senado sobre a Lei Oppian ilustra o papel da mulher na sociedade sob a República Romana. Em 195 aC*, durante a Segunda Guerra Púnica, o Senado romano promulgou a Lei Oppian, uma medida que proibiu a ostentação de riqueza por mulheres. “Nenhuma mulher deve possuir mais de metade de uma onça de ouro, ou vestir uma roupa de várias cores, ou dirigir uma carruagem puxada por cavalos, em uma cidade, ou em qualquer vilarejo, ou em qualquer lugar mais próximo de uma milha [1609 metros] dos mesmos , exceto na ocasião de alguma solenidade pública religiosa.” [3]

(Nota do Tradutor: O autor se confundiu com as datas aqui. O ano de 195 aC foi o ano em que a Lei Oppian foi revogada. Sua promulgação ocorreu, na verdade, em 215 aC. O próprio Deming diz adiante que ela foi revogada em 195 aC, o que me faz crer que ele não tenha errado por desconhecimento, mas por descuido.)

Após a conclusão com êxito da Segunda Guerra Púnica em 201 aC, Roma prosperou, e a Lei Oppian foi revogada em 195 aC. A revogação foi contestada por Catão, o Censor. Em seu discurso no Senado, Catão alertou contra o aumento dos direitos e privilégios permitidos para as mulheres. “Se, romanos, cada indivíduo entre nós tivesse tomado como regra manter a prerrogativa e autoridade de um marido com relação a sua própria mulher, nós teríamos menos problemas com todo o sexo.” [4]

Catão ficou indignado por ter sido abordado por mulheres que tiveram a audácia de confrontá-lo em público, em vez de confiar as suas preocupações em particular aos seus maridos. “Que tipo de prática é essa, de correr para locais públicos, assediando as ruas e enfrentando os maridos de outras mulheres? Não seria possível que cada uma tivesse feito o mesmo pedido para o próprio marido em casa?”

Catão se queixou de que a disciplina das antigas e veneráveis tradições romanas ​​foi sendo corroída e relaxada. “Nossos ancestrais pensaram que não era adequado que as mulheres pudessem realizar qualquer negócio, mesmo privado, sem um diretor; mas que elas deveriam estar sempre sob o controle de pais, irmãos ou maridos. Nós, ao que parece, permitimos, agora, que interferiram na gestão dos assuntos do Estado, e que introduzam a si mesmas no fórum, em assembleias gerais, e em assembleias de eleição.” [5]

Catão advertiu que a igualdade de concessão para mulheres na verdade seria consentir com sua superioridade. “No momento em que elas [as mulheres] chegarem a uma igualdade com você, elas vão ter se tornado seus superiores.” [6]

As descrições mais depreciativas das mulheres na literatura romana são encontrados na sátira, As Formas de Mulheres, pelo poeta Juvenal, que escreveu no final do primeiro século dC, e no início do segundo.

Todas as mulheres em prostitutas sem vergonha nas quais não se podia confiar. “Se você tiver a sorte de encontrar uma esposa modesta, você deve prostrar-se diante do Tarpeian, e sacrificar uma bezerra com chifres dourados a Juno.” [7]

Em qualquer dever virtuoso que requirisse coragem, as mulheres eram covardes. Mas se elas estivessem envolvidas em um ato de infâmia, sua fortaleza era ilimitada. “Quando o perigo vem em um caminho certo e honrado, o coração de uma mulher se esfria com o medo, ela não consegue permanecer sob seus pés trêmulos; mas se ela estiverr fazendo uma coisa ruim, sua coragem não falha.” [8]

Mesmo se uma esposa perfeita pudesse ser encontrada, ela seria indesejável, devido ao seu ego e vaidade. “Você diz que nenhuma esposa digna encontra-se entre todas estas multidões? Bem, imagine uma bonita, charmosa, rica e fértil; imagine-a tendo ancestrais antigos extendidos sobre seus salões; imagine-a sendo mais casta do que as donzelas desgrenhadas de Sabine que pararam a guerra – um prodígio tão raro na Terra quanto um cisne negro! No entanto, quem poderia suportar uma esposa que possua todas essas perfeições?” [9]

Qualquer homem tolo o suficiente para ser um marido dedicado e amoroso só seria explorado por sua esposa cruel. “Se você é honestamente dedicado à esposa, e devotado a uma única mulher, então abaixe a cabeça e submeta-se ao jugo. Você nunca vai encontrar uma mulher que poupa o homem que a ama; pois embora ela mesma seja ardente, ela adora atormentá-lo e roubá-lo. Assim, quanto melhor o homem, quanto mais desejável ele seja como marido, menos benefícios ele vai extrair de sua esposa.” [10]

As mulheres eram briguentas. “Nunca houve um caso em tribunal em que a briga não foi iniciada por uma mulher.” [11] Homens foram avisados ​​de que deveriam “abandonar toda a esperança de paz enquanto sua sogra estiver viva. É ela que ensina a filha a deleitar-se em decapar e despojar seu marido … a vil mulher idosa encontra um lucro em tornar sua filha vil.” [12]

Se uma mulher acusasse seu marido de ser infiel, era apenas para esconder seu próprio adultério.

A cama que mantém uma mulher nunca está livre de disputas e desavenças mútuas, o sono não deve ser encontrado lá! É lá que ela se coloca sobre seu marido, mais selvagem do que uma tigresa que perdeu seus filhotes; consciente de seus deslizes secretos, ela elabora uma queixa, abusando de seus escravos, ou chorando por algum amante imaginário. Ela tem uma oferta abundante de lágrimas sempre pronto, esperando ela ordenar a forma na qual elas devem fluir. Você, idiota pobre, muito satisfeito, acreditando que eles sejam lágrimas de amor, as consola com carinho; mas quais bilhetes, quais cartas de amor você encontraria se abrisse a mesa de sua mulher adúltera de olhos verdes! [13]

Foi Juvenal que originou o ditado, “quem guardará os guardas?” “Eu ouço todo esse tempo o conselho dos meus velhos amigos – mantenha suas mulheres em casa, e as coloque a sete chaves. Sim, mas quem vai assistir os guardas? Esposas são astutas e vai começar por eles.” [14]

As mulheres pobres tinham que ter filhos. Mas uma mulher romana rica poderia contratar um aborteiro. No entanto, o marido foi aconselhado por Juvenal a não resistir ao aborto, mas ajudar com isso. “Grande é a habilidade, tão poderosas são as drogas do aborteiro, pago para assassinar a humanidade dentro do útero. Alegra-te, pobre coitado; dê a ela o líquido para beber o que quer que ele seja, com a sua própria mão: […] você pode encontrar-se o pai de um etíope; e algum dia um colorido herdeiro, a quem você prefere não atender à luz do dia, irá preencher todos os lugares em seu testamento.” [15]

A humilhação final para um homem era ser forçado a ouvir uma mulher culta e articulada participar de conversas inteligentes. “Mas o mais insuportável de tudo é a mulher que assim que chegou para jantar elogia Virgílio, perdoa a moribunda Dido, e coloca os poetas uns contra os outros …. Ela estabelece definições, e discursa sobre a moral, tal como um filósofo; sedente de ser considerada sábia e eloquente.” [16]

A sátira de Juvenal tem despertado a ira de feministas modernas. “[Ele] é provavelmente o mais terrível de todos os catálogos de vícios do sexo feminino.” [17] Mas uma sátira é geralmente escrito a exagerar um vício, e, portanto, ridicularizá-lo. As caracterizações de Juvenal talvez foram escritas não para condenar as mulheres, mas para zombar de estereótipos de comportamentos femininos.

FILHAS DE EVA

As atitudes cristãs em relação às mulheres foram, em parte, influenciadas pelas normas culturais da Roma e da Grécia, nas quais as mulheres eram consideradas inferiores. Mas as escrituras judaicas também foram patriarcais. Deus criou o primeiro homem, a mulher era uma espécie de adendo, fabricado apenas para ser uma auxiliar para o homem – uma serva. “E o Senhor Deus disse: Não é bom que o homem esteja só, vou fazer-lhe uma ajuda própria para ele.” [18]

O homem foi criado “à imagem de Deus”.* [19] Mas a primeira mulher, Eva, foi feita de costela tirada do primeiro homem, Adão. “E da costela que o Senhor Deus tomara do homem, transformou-a numa mulher.” [20] Eva “não foi sequer criada à imagem de Deus, mas somente homem foi; portanto, ela está mais longe de Deus do que o homem, e como conseqüência são mais propensas à loucura e ao vício.” [21]

(Nota do Tradutor: Esse trecho parece entrar em conflito com o texto de Le Goff. Mas é natural, dada que a própria passagem bíblica é confusa. Em Gênesis 1:27 é dito: “E criou Deus o homem à sua imagem: à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.” Deus criou o homem e a mulher à sua imagem  ou criou ambos, mas só o homem à sua imagem? Não culpem a mim e aos autores que coloco aqui as ambiguidades bíblicas! Como vocês poderão notar, Tertuliano concorda com Deming e não com Le Goff.)

A primeira coisa que Eva fez foi criar o pecado original ao convencer Adão a comer da árvore proibida do conhecimento do bem e do mal. Na visão dos pais da Igreja, foi o maior crime de todos os tempos. “E quando a mulher viu que a árvore era boa para se comer, e que era agradável aos olhos, e uma árvore desejável por dar sabedoria, tomou do seu fruto, e comeu, e deu também a seu marido com ela; e ele comeu.” [22] “E o Senhor Deus disse à mulher: Que é isto que fizeste? E disse a mulher: A serpente me enganou, e eu comi. “ [23]

Como castigo pelo pecado de Eva, Deus condenou as mulheres a sofrerem dor durante o parto, e a serem governadas por seus maridos. “E à mulher disse: Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor terás filhos;  e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará.” [24]

As mulheres eram tão más que seduziram até os anjos. Em Gênesis 6, foi registrado que as mulheres humanas haviam tentado os próprios anjos (os “filhos de Deus”) em pecado e corrupção. Os descendentes dessa união ilegítima de mulher humana e anjos caídos formavam uma raça de gigantes. “Naqueles dias havia nefilins na terra, e também posteriormente, quando os filhos de Deus possuíram as filhas dos homens e elas lhes deram filhos. Eles foram os heróis do passado, homens famosos.” [25]

O autor dos livros Eclesiastes advertiu: “Descobri que muito mais amarga do que a morte é a mulher que serve de laço, cujo coração é uma armadilha e cujas mãos são correntes. O homem que agrada a Deus escapará dela, mas ao pecador ela apanhará.” [26] Caso haja uma “mulher virtuosa”, sua bondade não seria merecedora de reconhecimento em si, mas apenas na medida em que for “uma coroa de seu marido”. [27]

O papel das mulheres na Igreja Cristã e da sociedade foi fortemente influenciado pelas doutrinas de Paulo, o Apóstolo. Paulo enfatizou que as mulheres eram espiritualmente inferiores aos homens. “A mulher aprenda em silêncio, com toda a submissão. Mas eu não permito que a mulher ensine, nem possua de autoridade sobre o homem, mas que esteja em silêncio. Pois primeiro foi formado Adão, depois Eva.” [28]

As mulheres não eram autorizados a falar nas igrejas. “As vossas mulheres estejam caladas nas igrejas, pois não lhes é permitido falar, mas elas são ordenadas a estar sob obediência como também diz a lei. E se querem aprender alguma coisa, interroguem seus maridos em casa, pois é uma vergonha que as mulheres falem na igreja.” [29]

Maridos foram intimados por Paulo a “amar suas esposas”. [30] Mas as mulheres tiveram que se submeter à autoridade do marido. “Vós, mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos, como ao Senhor. Porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja, sendo ele próprio o salvador do corpo. Assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres estão sujeitas a seus maridos em tudo.” [31]

Na doutrina de Paulo, as mulheres eram consideradas criaturas subsidiárias que existiam para o bem dos homens. “Porque o homem não provém da mulher, mas a mulher do homem. Nem foi o homem criado por causa da mulher, mas a mulher para o homem.” [32]

Tertuliano (c. 155-220 dC) foi “o primeiro e depois de Agostinho o maior dos escritores antiga Igreja do Ocidente.” [33] Este santo tinha pouca paciência com as mulheres. Em seu ensaio Sobre as Roupas Femininas, começou por lembrar às mulheres que elas eram a fonte do pecado original. Estas filhas de Eva eram tão culpadas como a primeira mulher. “E você não sabe que cada uma de vocês é uma Eva? A sentença de Deus sobre este teu sexo vive nesta era: a culpa deve necessariamente viver também. Vocês são a porta do diabo: vocês quebraram o selo da árvore (proibida): vocês são as primeiras desertoras da lei divina: vocês são aquelas que o convenceram ele de que o diabo não era valente o suficiente para atacar. Vocês destruiram tão facilmente a imagem de Deus, o homem. Por conta de sua deserção – isto é, a morte – mesmo o Filho de Deus teve que morrer.” [34]

Embora ele próprio fosse casado, Tertuliano comparou o casamento à fornicação. “Suas leis parecem formar a diferença entre o casamento e a prostituição; através da diversidade de ilicitudes, não pela natureza da coisa em si. Além disso, qual é a coisa que acontece em todos os homens e mulheres para a produção de casamento e fornicação? Comistura da carne, é claro; a concupiscência da qual o Senhor colocou em pé de igualdade com a fornicação.” [35]

Philip Schaff explicou que Tertuliano colocou “a essência do casamento na comunhão de carne, e considerou isso como uma mera concessão que Deus faz à nossa sensualidade … o ideal da vida cristã, com ele [Tertuliano], não só para o clero, mas também para os leigos, é o celibato.” [36]

Lactâncio atribuiu a origem dos demônios, em parte, às mulheres. Demônios eram originalmente anjos que haviam sido enviados para proteger a raça humana. No entanto, eles também receberam o livre arbítrio e foram seduzidos por Satanás e contaminados por terem relações sexuais com mulheres humanas. “Deus … enviou anjos para a proteção e melhoria da raça humana … [Mas], durante sua estadia entre os homens, o ditador mais enganoso da terra [o diabo], … gradualmente os seduziu aos vícios, e os contaminou através de relações sexuais com as mulheres.” [37]

As mulheres eram uma tentação constante para os monges. Histórias notáveis ​​e fantásticas constantemente circularam entre a comunidade monástica sobre os perigos representados por mulheres.

Histórias estranhas foram contadas entre os monges sobre os perigos da paixão. De um monge em específico, que por muito tempo foi considerado como um padrão de ascetismo, mas que caiu na auto-complacência, o que era muito comum entre os eremitas, foi dito que uma noite uma mulher desmaiando apareceu na porta de sua cela, e implorou-lhe por abrigo, e para que ele não permitisse que ela fosse devorada pelos animais selvagens. Em má hora ele cedeu à oração dela. Com todo o aspecto de profunda reverência ela conseguiu a consideração dele, e finalmente se aventurou a colocar sua mão sobre ele. Mas aquele toque convulsionou sua mente. Paixões a tempo adormecidas e esquecidas correram com uma fúria impetuosa em suas veias. Em um paroxismo de amor feroz, ele tentou agarrar a mulher ao seu coração, mas ela desapareceu de sua vista, e um coro de demônios, com gargalhadas, exultava com sua queda. [38]

Alguns monges evitavam a tentação com um expediente simples: eles ficavam longe das mulheres. São João de Licópolis não viu uma mulher por 48 anos. [39] Para o desgosto de São Arsênio, um dia uma mulher apareceu em sua porta:

Uma jovem menina romana fez uma peregrinação da Itália para Alexandria, para olhar para o rosto e obter as orações de São Arsênio, em cuja presença ela forçou. Desanimada devido ao mau acolhimento, atirou-se a seus pés, implorando-lhe com lágrimas a conceder-lhe seu único pedido – lembrar-se dela e orar por ela. “Lembre-se você!”, gritou o santo indignado, “Deve ser a oração da minha vida que eu possa esquecer você.” A pobre menina procurou o consolo do arcebispo de Alexandria, que a confortou assegurando que embora ela pertencia ao sexo que demônios comumente usam para tentar santos, ele não duvidava que o eremita iria rezar por sua alma, embora ele iria tentar esquecer seu rosto. [40]

Gregório I relatou como São Bento foi tentado pela memória de uma mulher desejável. A tentação foi trazida por um demônio na forma de um pequeno pássaro negro que esvoaçava em torno da cabeça de Bento. Afim de não sucumbir à tentação, o venerável Bento a venceu arrancando todas as suas roupas e mergulhando nu em um espinheiro.

Certa vez, quando estava só, apareceu-lhe o tentador: uma dessas avezinhas pretas, conhecidas vulgarmente pelo nome de melro, começou a esvoaçar em torno do seu rosto e a chegar importunamente tão perto que o santo homem, se o quisesse, a poderia apanhar com a mão. Em vez disto, fez o sinal da cruz, e o pássaro afastou-se. Desaparecida, porém, a ave, seguiu-se-lhe grande tentação carnal, qual nunca o santo experimentara. Conhecera outrora certa mulher, que o espírito maligno lhe fazia por essa ocasião voltar aos olhos do espírito, inflamando de tal modo o coração do servo de Deus a lembrança de sua formosura, que seu peito mal podia conter as chamas do amor, e que quase pensava em abandonar o deserto, vencido pela paixão. Mas eis que de repente foi contemplado pela graça celeste, e voltou a si; vendo, então, ao lado de si crescerem densas moitas de urtigas e espinhos, atirou-se, despido, a essas pontas e a essas chamas, onde se revolveu por tanto tempo, que, ao sair, estava ferido por todo o corpo. Assim expulsou do corpo, pelas feridas da carne, a chaga do espírito: convertera em dor a volúpia. Ardendo por fora em justa punição, apagou o que por dentro ilicitamente queimava. Venceu, pois, o pecado, porque transformou a natureza do incêndio. E a partir dessa época, como ele mesmo dizia aos discípulos, foi nele a tal ponto subjugada a tentação da volúpia que nunca mais a sentiu. [41]

De acordo com Gregório I, a virtude de São Bento foi tão grande que despertou a inveja de um sacerdote local chamado Florêncio, um homem “possesso com malícia diabólica.” [42] Florêncio tentou matar Bento, mas não conseguiu. Em seguida, ele tentou destruir a castidade dos monges de Bento enviando mulheres nuas para dançar na frente deles. “E Florêncio, vendo que não podia matar o corpo do mestre, maquinou … para destruir as almas dos seus discípulos; e com este propósito ele enviou para o pátio da Abadia diante de seus olhos sete jovens nuas, que, de mãos dadas, dançaram diante deles por muito tempo, a fim de inflamar-lhes o espírito para as depravações da luxúria.” [43]

Se Bento venceu a tentação de seu corpo mutilando-o com espinhos, isso não foi um ato sem precedentes na Igreja. Orígenes (c. 185-253), que tem sido descrito como “o mais distinto e mais influente de todos os teólogos da antiga igreja, com a possível exceção de Agostinho,” [44] teria se castrado. A fonte deste relato é Eusébio, que escreveu que a inspiração de Orígenes foi uma passagem de Mateus em que Jesus disse que existem aqueles “que se fizeram eunucos pelo bem do reino dos céus.” [45]

Orígenes “realizou uma façanha, que poderia parecer, de fato, em vez de proceder de um entendimento da juventude ainda não amadurecida… [Orígenes entendeu a] expressão ‘há eunucos que se fizeram tais por amor do reino dos céus,’ em demasiado literal e pueril sentido … [E Orígenes] foi levado para cumprir as palavras de nosso Salvador em seus atos.” [46]

1. Rogers, K. M., 1966, The Troublesome Helpmate. University of Washington Press, Seattle, p. 37.
2. Encyclopædia Britannica, Eleventh Edition, 1910, Charity and Charities, vol. 5. Encyclopædia Britannica Company, New York, p. 865.
3. Livius, T., 1850, The History of Rome, Books Twenty-Seven to Thirty-Six, Book 34, Chapter 1, translated by CyrusEdmonds. Henry G. Bohn, London, p. 1490.
4. Ibid., Book 34, Chapter 2, p. 1491.
5. Ibid.
6. Ibid., Book 34, Chapter 3, p. 1491.
7. Juvenal, 1918, Satire 6, The Ways of Women, Lines 50–52, in Juvenal and Perseus, translated by G. G. Ramsay. William Heinemann, London, p. 87.
8. Ibid., Lines 92–96, p. 91.
8. Ibid., Lines 161–168, p. 97.
10. Ibid., Lines 207–213, p. 100–101.
11. Ibid., Lines 242–243, p. 103.
12. Ibid., Lines 232–241, p. 102–103.
13. Ibid., Lines 268 –280, p. 105.
14. Ibid., Lines 246 –349, p. 111.
15. Ibid., Lines 593–601, p. 133.
16. Ibid., Lines 434–447, p. 119.
17. Rogers, K. M., 1966, The Troublesome Helpmate. University of Washington Press, Seattle, p. 38.
18. Bible, King James Version, Genesis 2:18.
19. Ibid., Genesis 1:27.
20. Ibid. Genesis 2:22.
21. Rogers, K. M., 1966, The Troublesome Helpmate. University of Washington Press, Seattle, p. 4.
22. Bible, King James Version, Genesis 3:6.
23. Ibid., Genesis 3:13.
24. Ibid., Genesis 3:16.
25. Ibid., Genesis 6:4.
26. Ibid., Ecclesiastes 7:26.
27. Ibid., Proverbs 12:4.
28. Ibid., 1 Timothy 2:11–2:13.
29. Ibid., 1 Corinthians 14:34–14:35.
30. Ibid., Ephesians 5:25.
31. Ibid., Ephesians 5:22–5:24.
32. Ibid., 1 Corinthians 11:8–11:9.
33. Encyclopædia Britannica, Eleventh Edition, 1911, Tertullian, vol. 26. Encyclopædia Britannica Company, New York, p. 661.
34. Tertullian, 1869, On Female Dress, Book I, Chapter 1, in Ante-Nicene Christian Library, edited by Rev. Alexander Roberts and James Donaldson, vol. 11, The Writings of Tertullian, vol. 1. T. & T. Clark, Edinburgh, p. 304–305.
35. Tertullian, 1870, On Exhortation to Chastity, Chapter 9, in Ante-Nicene Christian Library, edited by Rev. Alexander Roberts and James Donaldson, vol. 18, The Writings of Tertullian, vol. 3. T. & T. Clark, Edinburgh, p. 14.
36. Schaff, P., 1859, History of the Christian Church, A.D. 1–311. Charles Scribner, New York, p. 333–334.
37. Lactantius, 1871, The Divine Institutes, Book 2, Chapter 15, in Ante-Nicene Christian Library, vol. 21, The Works of Lactantius, vol. 1, edited by Alexander Roberts and James Donaldson. T. & T. Clark, Edinburgh, p. 126–127.
38. Lecky, W. E. H., 1897, History of European Morals, Third Edition, Revised, vol. 2. D. Appleton, New York, p. 118–119.
39. Ibid., p. 120.
40. Ibid., p. 121.
41. Gregory I, 1911, The Dialogues of St. Gregory, Book 2, Chapter 2. Philip Lee Warner, London, p. 55.
42. Ibid., Book 2, Chapter 8, p. 65.
43. Ibid., p. 66.
44. Encyclopædia Britannica, Eleventh Edition, 1911, Origen, vol. 20. Encyclopædia Britannica Company, New York, p. 270.
45. Bible, King James Version, Matthew 19:12.
46. Eusebius, 1851, Ecclesiastical History, Book 6, Chapter 8, translated by C. F. Cruse. Henry G. Bohn, London, p. 212.

Sobre o “Deus Seja Louvado” nas cédulas

Doa a quem doer, sou contra a retirada. Simples assim.

Não que eu seja a favor da permanência dessa frase lá, porque isso é evidentemente inconstitucional. Penso que ela deveria ser retirada de lá, mas em um momento mais oportuno e com um debate que a precedesse.

Ao fazer isso de supetão e via processos judiciais distantes do debate público, tudo que se consegue é provocar a ira dos lunáticos, que irão começar a borrocar as cédulas sem a frase impressa com a frase escrita à mão.

Já estou até vendo campanhas no facebook dizendo: “se você receber uma cédula sem o ‘Deus seja Louvado’, escreva você mesmo e mostre que somos um povo de Deus!!!1!” E disso para correntes pedindo que se escreva orações é um passo.

O povo brasileiro é ignorante e ainda não entende o significado desta retirada. Vão achar que faz parte de uma campanha anti-religiosa, mas não é. E dessa forma, vão perder a oportunidade de refletir e vão ficar ainda mais presos na ignorância. A cultura brasileira de mudanças é muito “de cima para baixo”, as mudanças são sempre impostas e quase nunca conquistadas. Isso só reforça a síndrome de vira-lata do brasileiro, sempre esperando que a solução caia do céu ou sempre se revoltando contra mudanças que não compreende.

As mudanças devem começar a ser mais “de baixo para cima”, mas isso só aconteceria como resultado do amadurecimento político de nossa sociedade. Mudanças “de cima para baixo” só contribuem para forçar as pessoas à inércia, engastam sua vontade de debater e aprender. E pior de tudo, criam conflitos desnecessários, que por sua vez criam – também desnecessariamente – um time de vencedores e outro de derrotados.

E uma vez que se sentirem ofendidas, vão revidar borrocando minhas notas todas. Não. Prefiro que o Deus continue sendo louvado por mais um tempo a ver os idiotas delirantes ficarem mais ouriçados ainda, a ponto de saírem piorando a situação.

Num momento oportuno, essa medida seria excelente para ajudar as pessoas a amadurecerem, mas agora só servirá para mantê-las ainda mais comprometidas com seu devaneio.