Craig x Ehrman – Uma Análise, Parte 4: Guarnecendo o Plano B

Na parte anterior, eu apresentei os dois planos de Craig para este debate:

Plano A: Fazer eles engolirem que os relatos bíblicos são fatos e forçá-los a discutir se esses fatos levam à ressurreição de Jesus ou não.
Plano B: Discutir o método histórico e verificar se os relatos Bíblicos são históricos o não.

Em última análise, o argumento matemático de Craig também visava se proteger no Plano B: ele precisava se defender da ideia de que a história não pode concluir que houveram milagres. Mas ele reforça essa base mesmo, ele se tenta se blindar mesmo, é em outro trecho. Refiro-me a esta passagem do discurso de abertura de Craig:

Os relatos bíblicos destes eventos são irremediavelmente contraditórios. Para alegar que isso seja uma objeção séria, Ehrman precisa assumir que (i) tais contradições são insolúveis, sendo que na verdade são contradições aparentes e não contradições reais; (ii) que tais inconsistências se referem a passagens importantes, sendo que na verdade se referem a detalhes e (iii) que todos os relatos merecem igual confiabilidade histórica, sendo que a presença de inconsistências em uma fonte posterior e menos confiável não faz nada para prejudicar a credibilidade de uma fonte anterior e mais credível.

É aqui que Craig busca se defender diretamente de qualquer alegação de Ehrman de que os relatos bíblicos não são históricos. São os três problemas apresentados pro Craig na sua abertura. Sobre (i), Ehrman não respondeu diretamente. Também nem precisava: pois é dever do apologista demonstrar que as contradições apresentadas são aparentes e resolvê-las quando há solução. Quando a análise que descobre a contradição é logicamente consistente, o ateu completou seu trabalho: não cabe a ele buscar possíveis explicações teológicas que poderiam desfazer a contradição, mas sim ao teísta.

Já sobre (ii), faltou uma resposta do Ehrman. O historiador apresentou diversas contradições e disse que elas são obstáculos para se estabelecer a confiabilidade dos relatos. Ele parece deixar implícito que o lugar das contradições não importa – o que importa é que sua presença indica uma falha provocada pelo efeito “telefone sem-fio” que deu origem às histórias de Jesus. Mas mesmo que fosse o caso, seria muito pouco. Mas na parte (iii), Ehrman pega Craig de jeito. Ao que tudo indica, Ehrman estava preparado para isso, e repetiu diversas vezes que se era assim, então os relatos mais novos deveriam ser considerados falsos. Craig considera que todos evangelhos são igualmente verdadeiros em algumas partes e que os evangelhos mais velhos são mais precisos em outras – o que não faz sentido. Esta questão é bem trabalhada nas respostas da pergunta dois, onde Ehrman deixa claro que Craig, como adepto da inerrância bíblica, é “proibido” de questionar a veracidade da Bíblia e que, portanto, não a analisa criticamente.

Sobre o uso da metodologia histórica, o principal argumento de Craig foi o da auto-contradição: Ehrman não poderia dizer que Deus não praticou milagre se defende que o historiador não pode dizer nada sobre Deus. Ele diz isso uma ou duas vezes durante o debate e repete esse argumento na resposta da penúltima pergunta. Ehrman não respondeu isso, mas podemos refletir um pouco aqui: quando foi que Ehrman defendeu que Deus não fez o milagre. Citando o historiador:

Eu estou perguntando, supondo que milagres acontecem, os historiadores podem demonstrá-los? Não, eles não podem.

Ou seja, para Ehrman, Deus pode até ter revivido Jesus, mas que o método histórico é incapaz de dizer se isso aconteceu mesmo ou não. Não acho que Craig tenha sido muito feliz nesta colocação dele.

Outra objeção de Craig é que a metodologia histórica apresentada por Ehrman exige um “ateísmo metodológico”. Ela pode ser vista na resposta de Craig à primeira pergunta. Ehrman também não respondeu isso diretamente (aliás, ausências como esta contaram muito contra ele), mas também podemos refletir um pouco. Quando vemos o seguinte trecho do historiador:

Historiadores não podem pressupor crenças em Deus. Historiadores só podem trabalhar com o que nós temos entre nós. Historiadores podem ter qualquer religião, podem ser budistas, podem ser hindus, podem ser muçulmanos, podem ser cristãos, podem ser judeus, podem ser agnósticos, podem ser ateus, e a teoria por trás dos cânones da pesquisa histórica diz que pessoas que qualquer religião podem olhar para a evidência e chegar às mesmas conclusões.

Ao que parece, o mais indicado seria dizer que o método histórico exige um “agnosticismo metodológico”. Mas isto não soa como um disparate – especialmente por que não é um disparate, mas algo bem sensato. A ideia do ateísmo metodológico seria um disparate se fosse isso que Ehrman estivesse realmente propondo.

Nota-se que apesar do Craig deixar muito claro qual era seu Plano A, ele acabou tendo que se defender bastante das alegações do Plano B. E vejam, os argumentos de Craig correspondentes ao Plano B foram todos majoritariamente defensivos ou no máximo acusatórios. Com exceção do argumento matemático, único argumento positivo do Plano B, o máximo que Craig faz é um acusação de auto-contradição que espero que concordem comigo que é vazia. O Plano A, por sua vez, contava com argumentos bem trabalhados “em casa” e nenhum deles era defensivo ou acusatório. É evidente que o que chamo de Plano A aqui realmente era o Plano A. A forma como os argumentos do Plano B desmoronam só mostra que Craig não estava tão preparado para eles quanto para os outros.

Na próxima parte, uma análise de terceiros feita sobre o argumento matemático de Craig para fechar o Plano B, seguida de um texto sobre explicações naturalistas aos quatro fatos, para tratar do Plano A. Por fim, será feita uma análise sobre os objetivos do debate e sobre metodologia histórica. Essa parte visará mostrar a discrepância entre os objetivos de cada um e como o Craig não entende nada de método histórico.

Continua…

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