Craig x Ehrman – Uma Análise, Parte 3: Estratégias dos debatedores

Um fato neste debate é digno de ser destacado: a estratégia de Craig era bem mais complexa do que a de Ehrman. Para dizer a verdade, Ehrman preparou seus argumentos, mas não os organizou numa sequência e/ou numa forma que lhe rendesse alguma vantagem sobre o adversário, ao contrário do que fez Craig.

Craig começa o debate “colocando pressão” sob o Ehrman com o uso de afirmações como a parte em que diz que pode refutar o principal argumento de Ehrman mas que iria esperar o argumento ser colocado antes de rechaçá-lo. Isso é uma estratégia descarada, que visa deixar o adversário apreensivo e receoso de sua própria argumentação, ou pelo menos colocá-lo na defensiva.

Em seguida, ele apresenta os quatro fatos, conferindo a eles o status de verdades, para depois chegar à conclusão de que Jesus ressuscitara. Mais para frente, ele mesmo diz que o que estava em discussão era se a melhor conclusão para os quatro fatos era a ressurreição e não se os quatro fatos eram verdadeiros. Isto mostra claramente que seu “plano A” era usar a lógica interna dos relatos bíblicos como prova de que Jesus voltou dos mortos e que seu “plano B” seria mostrar que os relatos bíblicos são dignos de serem levados em consideração no ponto de vista histórico.

É lógico que ficar debatendo se a melhor conclusão para os quatro fatos é que Jesus ressuscitou ou não é excelente para Craig! Uma vez que se leva e consideração que o que está na Bíblia é verdadeiro, mais da metade dos problemas do apologista está resolvida. A audiência teísta se regojizará em alegria ao ver um ateu debatendo como se a Bíblia dissesse a verdade e como se o maior problema fosse descobrir se aquilo leva ao milagre mesmo ou não.

Um debatedor fraco cairia na onda de Craig e debateria somente nesta linha. Um debatedor médio – tal como Ehrman – manteria sua linha original e faria objeções às duas linhas: argumentaria tanto que os relatos bíblicos não são históricos quanto que mesmo que verdadeiros, não levam à conclusão de que houve um milagre. Um debatedor esperto, perceberia que Craig prefere o plano A porque ele pode defendê-lo melhor que o B e priorizaria ataques à historicidade do bom e velho livro.

Lógico que Craig não deixou seu plano B desguarnecido de todo, apresentando alguns argumentos para defendê-lo. Mas o que ele desejava mesmo era concentrar na apresentação dos quatro fatos como se fossem verdades e na conclusão “mais do que óbvia” de que eles provam a ocorrência de um milagre.

Em seguida, Craig apresentou seu famigerado argumento matemático. De forma culminante e teatral – lançando mão de power point e tudo – o apologista mostrou que existe uma falácia matemática no argumento de Hume que Ehrman usara. Como o Fomon mostrou, tal argumento falha e como eu mesmo disse, esse argumento é simplesmente uma obviedade fantasiada e perfumada. Um grande show pirotécnico desnecessário para provar que… a ausência de explicações naturalistas tendem a corroborar explicações sobrenaturais. Contudo, o efeito foi devastador.

Na terceira rodada, Craig começa acusando Ehrman de ter sido vazio em sua rodada anterior. Surpreendentemente, isso veio depois de duas rodadas de elogios e de uma recuperação espetacular do adversário. Ehrman não se abalou tanto com o argumento matemático e fez uma série de perguntas e objeções que forçaram o Craig a entrar na defensiva.

Sua estratégia passou a ser disparar para tudo quanto é lado. Primeiro, reforçou a tese do Plano A e minimizou a importância de se debater a factualidade dos relatos bíblicos. Até parece que o tema do debate era: “As evidências históricas corroboram mesmo a ressurreição de Jesus?” e não “Existem evidência histórias para a ressurreição de Jesus?” Pode-se dizer até que ele fugiu do tema aqui. Depois, começou a fazer parágrafos curtos com ideias apresentadas de forma rápida e em quantidade, para vencer Ehrman pela exaustão. Notem que esta foi a única vez que Craig falou consideravelmente mais do que Ehrman, mas falou com menos sofisticação e de forma um pouco mais improvisada e desorganizada.

Por fim, ele chega ao absurdo de dizer que aquele debate não envolvia questões metodológicas como Ehrman estava propondo. Como não? Se o debate é sobre a existência de evidências históricas, faz todo sentido discutir metodologia histórica! Ou será que Craig ficaria feliz se algum ateu usasse um argumento teológico que contivesse erros metodológicos contra o cristianismo? Com certeza não! Essa atitude só mostra o quanto ele desejava fazer o debate permanecer com o foco no Plano A a qualquer custo.

Tanto é verdade que, depois de perder tempo reclamando sem razão que o Ehrman estava fugindo do tema, ele diz que não teria tempo para responder às questões que lhe foram feitas justamente sobre… metodologia! Como diria o Capitão Nascimento: “estratégia; do inglês: strategy; do francês, stratégie…”

Por fim, Craig faz uma conclusão tentando invalidar as propostas naturalistas alternativas de Ehrman – ele já estava mais do que preparado para isso, já que era seu Plano A. Aliás, acredito que Craig planejava o seguinte: com suas três objeções para guarnecer o Plano B e com o Argumento Matemático, forçaria Ehrman a se concentrar em dar explicações naturalistas alternativas na segunda rodada por julgar que era o único caminho livre. Craig viria então na terceira rodada com tudo, pois este era seu Plano A, oras! É óbvio que ele estava mais do que preparado para isso. Mas como Ehrman não se focou muito nisso na segunda rodada, mas sim na terceira, Craig acabou tendo que deixar um resumo para as conclusões.

A estratégia de Ehrman foi bem mais simplória: sua linha de raciocínio era defender que o método histórico não poderia jamais concluir que um milagre aconteceu, não só porque um milagre é definido como o evento mais improvável que explica um relato sendo que um historiador não pode dizer que a explicação mais improvável seja a mais provável, mas também porque a Bíblia não é um fonte de relatos confiáveis. Ele pretendia defender uma explicação alternativa naturalista simples e usar o fato de Craig argumentar historicamente sem cumprir absolutamente nenhum critério do método histórico como coringa. Foi assim que Ehrman procedeu durante todo o debate: sem alterar significativamente a ordem daquilo que parecia ser sua linha de raciocínio. Digo isso porque Ehrman deu a nítida impressão de estar seguindo seu próprio passo, chegando a criar uma cera defasagem entre ele e Craig. Vejam como ele não responde as objeções do Craig imediatamente, mas só quando elas se encaixam no seu cronograma. Isso foi o que segurou ele firme na segundada rodada, pois se ele fosse levar o debate de acordo com as circunstâncias, teria cedido ali mesmo.

Uma boa prova de que Ehrman não leu o debate e não alterou sua estratégia de acordo com as oportunidades foi o fato dele não ter deixado as explicações naturalistas alternativas para a conclusão, o que não daria chance para Craig poder respondê-las, pois o debate já teria terminado. Seria um método bem eficaz de evitar as críticas contundentes que viriam de maneira arrebatadora se tivesse agido antes. Se bem que só de ter deixado para a terceira rodada já foi bom, pois forçou Bill a responder na sua conclusão – que é curta, ele não poderia se alongar demais ali. O estrago teria sido bem maior se Ehrman insistisse nisso na segunda rodada. Contudo, tudo indica que Ehrman levou o debate com pensamento: “minha linha de raciocínio é esta e daqui não saio” e a julgar pela dificuldade em perceber o plano de Craig e bolar essa contra-estratégia em tempo real, e a julgar pelo fato disso tê-lo salvado de ceder na segundada rodada, talvez não tenha sido tão má ideia assim.

Continua…

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