Racionalidade é uma obrigação? (2) Um estudo de caso envolvendo política

================================================================
Título Original: We cannot be emotionless, but we are capable of rational debate – In the battle for public opinion, the big guns include fear and disgust
Autor: David Pizarro [A]
Publicado Originalmente em: The Globe and Mail – 15/03/2010 – 18h56 [B]
================================================================

Na batalha pela opinião pública, emoções são uma grande arma. Existem poucas estratégias melhores do que fazer as pessoas sentirem que seus posicionamentos são os corretos. A ideia de que manipular as emoções dos outros pode ser uma estratégia persuasiva efetiva está longe de ser nova, mas nos últimos anos, pesquisas confirmaram isso. Nós sabemos que  junto com ações motivadoras, emoções podem influenciar nossos pensamentos, decisões, ações e até nossas memórias. Porque muitas de nossas emoções podem ser provocadas de modo fácil e confiável, apelos emocionais estão entre as formas de persuasão mais eficientes.

Isto é angustiante para aqueles que por ventura ficaram no lado errado de uma campanha emocional de sucesso. Nos Estados Unidos, muitos liberais se tronaram frustrados com o surpreendente uso efetivo de apelos emocionais pelos Republicanos na última década. Eles viram como o medo pode motivar a aprovação de leis de segurança nacional que beiram o Orwelliano ou a divulgação de desinformação sobre a reforma dos planos de saúde, e como a linguagem do nojo pode ser usada para justificar a discriminação.

Em ambos os lados de debates como aquele, há uma suspeita de que emoções estão atuando em um papel perigoso e que força erros sistemáticos na formação do julgamento político público. E eles estão certos – uma grande variedade de descobertas recentes estão nos mostrando o quanto emoções parecem influenciar julgamentos nos domínios político e moral.

Medo, por exemplo, é uma emoção que motiva precauções com segurança e leva a uma percepção elevada de risco – muito útil quando se deseja evitar predadores. Mas como nossa resposta ao medo não está calibrada para as complexidades do nosso mundo social moderno, ele continua a influenciar nossos julgamentos. Medo faz os indivíduos tenderem a endossar medidas de segurança em detrimento de outras liberdades importantes, e encoraja o suporte a políticas conservadoras em geral. Um estudo mostrou que sempre que haviam avisos sobre terrorismo emitidos pelo governo, o público apoiou o presidente George W. Bush de forma contundente.

Em uma linha similar, nojo – uma emoção que nos protege de ingerir substâncias que nos causam danos à saúde – também porta um papel em julgamentos políticos. Indivíduos que ficam facilmente enjoados no dia-a-dia têm maior tendência a serem politicamente conservadores, e têm maior tendência de se opor ao casamento gay. Deixar as pessoas enjoados em laboratório (com um odor fétido) deixou as pessoas mais homofóbicas. Infelizmente, uma emoção que servia para nos manter longe de comida ruim está afetando milhões de pessoas politicamente.

Não precisa nem dizer, nós temos boas razões para ficarmos alertas com as emoções. Mas como nós abordamos o problema? Uma maneira é tentar tirar nossas emoções de cena completamente. Mas isto é um equívoco.

Primeiro, isto é inconsistente com o que sabemos sobre psicologia humana. Um agente racional livre de emoções (como o Spock do Star Trek) simplesmente não é possível. Emoções são uma parte tão profunda de nossa psicologia e de nossa fisiologia que quando nossos sistemas emocionais sofrem danos, nossa habilidade de engajar em pensamentos racionais sofrem da mesma forma. E sem a motivação que nossas emoções fornecem, nós poucos nos importaríamos em fazer alguma coisa.

E segundo, nós parecemos valorizar profundamente a presença de certas emoções nos outros. Nós nos importamos se os outros sentem as emoções certas nas horas certas. Quando nossos líderes tentam ser muito desapaixonados, eles correm o risco de parecerem menos humanos. Isto foi visto nas eleições presidenciais americanas de 1988, quando Michael Dukakis foi perguntado se ele se posicionaria a favor da pena de morte caso sua esposa fosse estrupada e assassinada. Ele respondeu “Não”, e depois se colocou na defensiva. Muitos viram este momento como o prego no caixão de sua campanha. Nós queremos que nossos líderes compartilhem de nossas emoções porque isso sinaliza que ele compartilham nossas prioridades. É por esse motivo que Barack Obama foi muito mais efetivo como um candidato passional do que ele tem sido como presidente professoral.

Mas há uma outra estratégia que parece igualmente arriscada: abraçar com todo o coração o apelo emocional. Se o outro lado utiliza-o, logicamente, devemos usá-lo ainda mais.

Nessa linha de raciocínio, eu fui questionado várias vezes como os liberais podem usar o nojo da mesma forma que os conservadores. Isto me preocupa. Primeiro, que uma estratégia assim irá simplesmente fazer as pessoas racionais no outro lado do debate a levantar os braços para cima frustrados.

Mas mais importante, apesar de não podermos ser criaturas sem emoções, somos capazes da racionalidade. E apesar de ser verdade que pessoas racionais possam ter divergências profundas, eu continuo acreditando que o discurso racional é nossa melhor chance de chegar a um consenso. O que precisamos é de debates acalorados – do tipo de participação engajada no discurso político capaz de usar apelos emocionais para suportar argumentos racionais. Mas talvez eu esteja sendo muito otimista.

Notas:

[A] David Pizarro é professor assistente de psicologia na Universidade de Cornell. Este artigo faz parte da divulgação Simpósio Walter Gordon de Políticas Públicas 2010 oferecido pelo Colégio Massey e pela Escola de Políticas Públicas e Governança da Universidade de Toronto – Canadá.

[B] Publicado 15/03/2010, 18h56, Segunda-feira
Última atualização: 23/08/2012, 13h34, Quinta-feira

================================================================

Fala aí galerinha do mal!

Provavelmente – do verbo quase certeza, esse post irá  gerar um pouco de controvérsia por defender um ponto de vista aparentemente liberal. Como esse blog é antes de mais nada sobre ateísmo, os maiores opositores ao conteúdo daqui são conservadores ferrenhos. E conservadores mais extremados, assim com marxistas mais extremados ou assim como qualquer outro ideologista mais extremado, se ofende com qualquer crítica que recebe.

Mas o negócio é o seguinte: esse texto está aqui porque eu gosto de outros trabalhos deste autor e porque achei que a ideia central dele está bem próxima a uma ideia que defendo: a de que a razão não é uma obrigação e de que devemos levar em conta as nossas emoções quando julgamos nossas próprias ideias – e não esperar que ninguém aja ou discurse de maneira puramente racional.

Contudo, os exemplos usados neste texto são todos políticos. Devemos tomar um certo cuidado, pois a ideia de que não podemos agir de modo puramente racional não pertence ao campo de estudos políticos. Essa ideia pertence mais à teoria da mente e à psicologia. E os exemplos políticos dele estão bem neutros. Se alguém se condoer com o fato dele apontar o uso de certas emoções como armas políticas dos republicanos, peço que esses “alguéns” se lembrem que ele criticou a postura fria de uma candidato a presidente democrata e que ele disse que o Obama foi um bom candidato por ter feito uma campanha passional, mas que seu governo não tem tido muito êxito.

Por fim, ele defende uma ideia bem interessante: a de que um lado do debate não pode apelar às emoções da mesma forma que o outro lado, ou só porque o outro lado assim o fez. Vamos falar sério, se ele fosse esquerdista, ele jamais recomendaria os liberais a não usarem esse tipo de estratégia, ele seria o primeiro a encorajar, certo? E não, ele não insinua que os liberais não fazem apelo a emoções; na verdade, ele dá um puxão de orelha nos liberais que querem aprender como usar o nojo. Por fim, ele diz que se os liberais agirem assim, irão simplesmente frustrar a parcela mais inteligente dos republicanos. Ou seja, ele disse que existem republicanos racionais! Que esquerdista diria algo assim?

E tem mais uma: pouco me interessa se o que veio primeiro foi o ovo ou a galinha, ou se quem começou a abusar das emoções na política foi um lado ou o outro. Ambos os lados juram que foi o outro… patético. O que me interessa é: qual lado vai abrir mão primeiro? Tá, eu sei, tô sendo otimista, mas fazer o que? Esse negócio é contagioso.

Anúncios

Uma opinião sobre “Racionalidade é uma obrigação? (2) Um estudo de caso envolvendo política”

  1. Bem, aconteceu EXATAMENTE como previ: Pizarro seria tomado como m esquerdista. Afinal, ele foi citado aqui, por mim, então só pode ser esquerdista. Óbvio!

    Tem gente que vai quebrar a cara feio quando descobrir que existem artigos científicos provando a tese de que conservadores são pessoas com mais nojo, em geral. Mas fazer o que, tem gente que argumenta por plausibilidade e tem gente que argumenta com fatos observados de forma empírica. E assim caminha a humanidade…

    Curtir

Quer fazer um comentário?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s