Craig x Ehrman – Uma Análise, Parte 2: Uma visão geral do debate

Transcrição do debate em português: Arquivo pdf
Transcrição do debate em inglês: Arquivo pdf
Vídeo com áudio em inglês e legenda em português: Blog Deus em Debate

Depois de dois discursos de abertura seguidos de duas rodadas de respostas, o debate terminou com dois discursos de encerramento – as conclusões. Ainda houve uma sessão de perguntas e respostas, no qual membros da plateia faziam perguntas a um dos debatedores, sendo dada ao outro debatedor a oportunidade de dar uma resposta também. Contudo, não colocarei um resumo de nenhuma dessas sessões aqui. Isso porque os fatos e argumentos apresentados nestas sessões ou são irrelevantes, ou são redundantes (apenas repetem ou reforçam trechos do debate); pouquíssimo material novo e relevante é apresentado. Algumas delas serão usadas nas análises posteriores, então só vou trazer as que considero úteis. Quem achar que alguma pergunta é relevante ou quiser ver alguma explicação aqui, é só pedir.

Só por garantia, apresento aqui um resumo ultra rápido. Craig fez uma objeção breve à explicação alternativa naturalista aos quatro fatos e acrescentou que também podemos saber da ressurreição de Jesus através da experiência – no caso a experiência pessoal de entrar em contato com Cristo. Ehrman, por sua vez, disse que essa experiência pessoal não passava de testemunho pessoal e completou com uma breve defesa de sua alternativa naturalista. No mais, ele reafirmou a tese de que as histórias bíblicas surgiram como boatos que saíram do controle, dando ênfase a porque as pessoas daquela época criariam rumores sobre a ressurreição de Jesus.

Comparando as duas conclusões, a de Craig foi mais “sintética”: ele fez uma síntese dos seus principais pontos, atacou a hipótese naturalista de Ehrman e ainda acrescentou a questão da experiência pessoal. Falou mais no mesmo tempo, sobre mais assuntos, o que mostra a organização de quem é rodado em debates. Ehrman falou menos, foi mais confuso e não falou sobre o que seria mais relevante em sua argumentação.

Aliás, tecnicamente falando, ou seja, levando em consideração apenas a organização das ideias, a qualidade do texto e a presença de argumentos, Ehrman só se saiu melhor que Craig no terceiro “round”, o da segunda refutação. Não estou levando em conta aqui a qualidade dos argumentos, mas a quantidade e a apresentação. Vejam por exemplo que Craig falou menos do que Ehrman durante o debate como um todo. Fiz um levantamento rápido e grosseiro de quantas palavras cada um deles falou em cada um dos quatro rounds, lembrando que ambos tiveram sempre o mesmo tempo. Desconsiderei aqui as notas de rodapé, utilizei a versão em inglês e arredondei os números; apresento no formato (contagem do Craig x contagem do Ehrman):

Abertura: 2.700 x 3.200
1ª Resposta: 1.850 x 1.950
2ª Resposta: 1.400 x 1.300
Conclusão: 920 x 900

Não levei em consideração se cada um usou o tempo todo que dispunha. O que quero dizer é que Craig é mais sucinto, mais afiado, ele sabe onde quer chegar. Craig tem “a manha” do debate. Ele só se perdeu no terceiro round, justamente o que ele falou mais – na conclusão, houve “empate técnico”.

No geral, acho que ninguém em sã consciência dirá que um dos debatedores bateu o outro com facilidade. Sim, o argumento matemático do Craig foi, pelo menos em uma primeira vista, avassalador, porém Ehrman se recuperou razoavelmente bem do golpe e chegou a deixar o Craig um pouco atordoado. Em sua segunda resposta, Craig começa reclamando que a primeira resposta de Ehrman fora sem conteúdo e termina dizendo que não teve tempo de responder tudo. Ora, se houve pouca substância, então porque faltou tempo para responder? Se é para responder um discurso vazio, dois minutos bastariam. E outra, até então Craig era só elogios ao Ehrman. Foi só ele ser apertado que começou a acusá-lo de desonesto. Não acho prudente da parte dos teístas dizer que Craig “sobrou” no debate, pois essa atitude de Craig – não ser capaz de responder tudo que foi perguntado (e olha que nem foram tantas perguntas) e ainda reclamar de falta de conteúdo – não denota nada além do fato de Craig ter sido colocado contra a parede. Nenhum dos lados pôde sair daquele auditório comemorando uma vitória clara e isso é um fato incontestável no meu ponto de vista.

Talvez a performance de Craig tenha sido mais impressionante devido ao argumento matemático, mas um argumento matemático que não foi devidamente analisado tem impacto apenas momentâneo. Qualquer pessoa que parasse para pensar ali na hora concluiria que tal argumento não somou em nada ao ser apresentado de forma matemática. Bastava Craig dizer que a ausência de explicações naturais poderia aumentar consideravelmente as chances de uma explicação sobrenatural ser a correta. Mas sabe-se lá porque, Craig preferiu gastar bem mais tempo e saliva explicando essa trivialidade de forma matemática.

O que farei a partir de agora será uma análise pós-debate, dividida por temas. Primeiro, mostrarei qual foi a estratégia de cada um deles. Depois, falarei sobre como Craig buscou se defender de argumentos que envolviam metodologia histórica e confiabilidade dos relatos bíblicos. Em seguida, trarei um artigo apresentando uma explicação naturalista aos quatro fatos e um resumo com uma série de objeções ao argumento matemático de Craig. Por fim, falarei sobre quais os objetivos de debate e sobre método histórico, e a conclusão que defenderei é que Craig ganhou o debate, mas quem tinha razão era o Ehrman.

Continua…

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