Pseudoceticismo: Pode isso, Arnaldo? (2) O contrário de cético é o que?

Na parte 1 dessa série, eu argumentei que não existe ceticismo quando se parte do pressuposto que o objeto a ser investigado é falso. Evidentemente, é possível defender uma ideia enquanto se declara cético, mas isso depende da forma como a história decorreu. No caso do ceticismo, a crença sempre vem depois da investigação ou do questionamento, nunca antes. Quem questionou, não precisa questionar de novo, apenas mostrar o resultado do questionamento, certo? Então se você está questionando agora é porque não fez isso antes ou falhou em chegar a alguma conclusão relevante. E se enquanto você questiona você parte do pressuposto que sua ideia seja a verdadeira, então a crença precedeu o questionamento, porque você está questionado só agora. Logo, você não está sendo cético. Pode isso, Arnaldo? Não pode, a regra é clara.

Isso quer dizer que uma pessoa absolutamente convicta de suas ideias não pode apontar falhas no pensamento daqueles que discordam? Nada a ver… lógico que pode, só não pode dizer que isso é um exercício de ceticismo ou de investigação. No máximo, dizer que é resultado de uma análise cética ou de uma investigação. Lógico, temos que ficar de olho sim, e se isso for falso, uma hora a casa cai.

Vou colocar aqui um texto que publiquei a um certo tempo e devidamente revisado e que aprofunda um pouco essa questão.

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O contrário de crédulo é cético?

Muitos podem até achar que sim, e não condeno quem comete essa engano parcial. Na verdade, se uma pessoa disser que cético é o contrário de crédulo, eu não teria nenhuma objeção a fazer – e é exatamente por isso que não condeno quem acha que a recíproca seja verdadeira.

Parece estranho negar a recíproca, mas não é. Por exemplo, o contrário de católico é ateu mas o contrário de ateu não é católico. Protestante, cristão ou muçulmano, ou mesmo o termo genérico teísta, todas essas palavras podem ser usadas como “contrário” de ateu. Da mesma forma, o contrário de simples pode ser complicado ou complexo ou mesmo difícil. Alguns termos admitem mais de um oposto por que a sua negação abre espaço para diversos paradigmas e raciocínios diferentes que se equivalem como contraponto. Não que cristianismo e islamismo sejam a mesma coisa, mas são contrapesos idênticos à ideia de ateísmo.

Agora que sabemos que a palavra crédulo pode ter mais do que um contrário, podemos analisar se ela realmente o tem. Já sabemos que ceticismo é um dos contrários de credulidade (não escrevam crédulidade, por favor!!), mas será o único?

1. Criticismo: o que é isso?

Meu argumento principal é que criticismo também é o contrário de ceticismo. Uma pessoa crítica é aquela que analisa uma alegação, ou uma hipótese sabendo que ela está errada e com o intuito único de demonstrar isso. Enquanto um crédulo acredita em P ingenuamente (ou em não-P), o crítico acha que P está errado e se esforça para demonstrar isso. Já o cético irá contrabalancear os prós e contras e decidir depois se acredita em P ou não.

O foco do crítico é encontrar os defeitos partindo do pressuposto que os defeitos estão lá e devem ser encontrados e expostos. O crítico não está disposto, inicialmente, a considerar a possibilidade de P estar correto. Ele pode até acabar considerando isso após perceber (ou ser convencido) que P tem seus méritos, mas inicialmente ele tratará P como errado.

Como o crítico não acredita que P está correto e busca motivos racionais para sustentar isso, então ele não pode ser chamado de crédulo. Essa é uma situação análoga ao cético, que procura tirar conclusões depois – e não antes – de analisar os fatos. Ambos podem ser considerados o contrário de crédulo.

Aliás, qualquer pessoa que busque motivos para sustentar uma ideia, sejam tais motivos consistentes ou não, não pode ser chamada de crédula. A única exceção que abro é quando a pessoa está claramente aceitando razões falhas de maneira negligente e/ou ingênua para sustentar suas ideias. É que nem o cara que insiste em dizer que tem um irmão gêmeo usando como prova o espelho depois (e somente depois) de receber inúmeras explicações sobre o que é um espelho. Neste caso, é muito óbvio que ele está errado e fica difícil sustentar que esta pessoa não é crédula. Mas o importante aqui é ter em mente que apenas discordar das razões de uma pessoa não a torna crédula. Tomemos cuidado para não apontar como crédulos aqueles que pensam diferente de nós só porque não concordamos com suas ideias.

Uma observação importante: o que estou chamando de crítico aqui não tem nada a ver com o Criticismo Filosófico de Kant. Sim, existem lá suas semelhanças, mas o conceito de crítico que apresento aqui é:

“Pessoa que busca razões para justificar sua crença prévia de que uma dada alegação é falsa.”

Já o cético é:

“Pessoa que busca razões para determinar se uma dada uma alegação é verdadeira ou falsa.”

Podemos estabelecer um raciocínio análogo para determinar o que é uma posição cética e uma posição crítica.

2. Quais as diferenças?

A maior diferença entre o crítico e o cético é que o primeiro acredita que uma dada alegação P é falsa e parte para derrubá-la enquanto que o segundo suspende seu julgamento e avalia se P merece mais credibilidade do que sua visão anterior ou não. É bem verdade que crenças pessoais e ideologias podem funcionar como um ruido na cabeça do cético, mas o importante é que ele consiga manter isso sob controle.

Por exemplo, se é divulgado na Nature que chimpanzés são ainda mais semelhantes ao homem do que pensávamos, o crítico irá dizer algo como:

“Mentira! A evolução não existe e o ser humano é completamente diferente dos macacos. Somente seres humanos têm sentimentos e são capazes de tomar decisões livres e conscientes. Além disso, seres humanos possuem alma e foram feitos à imagem de Deus. Os cientistas estão inventando dados para convencer as pessoas de que Deus não existe.”

Viram? Ele não é um crédulo pois não acredita em tudo que ouve (e também não se resume a negar o que ouviu sem sequer se dar ao trabalho de pensar no porquê, não sendo também um mero crédulo de que a alegação é falsa). Ele acha que é falsa e tenta dar razões (mesmo que muitos possam não concordar com elas) para isso. Já um cético diria algo como:

“Os argumentos e evidências que mostram que o chimpanzé é muito parecido com o homem são excelentes e bastante confiáveis, segundo a minha análise anterior. Será que essas novas evidências mostram que devo acreditar que tal semelhança é ainda maior? Vamos analisar…”

Notaram como as posições são bem diferentes? Notaram como nenhum dos dois são crédulos, pelo menos não a princípio? Atenção, eu não disse que um cético diria isso, ou que se posicionaria dessa forma! Eu disse que esse posicionamento é condizente com o que chamamos de ceticismo.

3. Pseudoceticismo

Esse termo foi em popularizado pelo sociólogo americano Marcello Truzzi, especialista na área de ceticismo e filosofia da ciência. Em “On Pseudo-Skepticism” Zetetic Scholar (1987) No. 12/13, 3-4., ele argumenta que:

Since “skepticism” properly refers to doubt rather than denial–nonbelief rather than belief–critics who take the negative rather than an agnostic position but still call themselves “skeptics” are actually pseudo-skeptics and have, I believed, gained a false advantage by usurping that label.

Uma vez que o ceticismo adequadamente se refere à dúvida ao invés da negação – descrédito ao invés de crença – críticos que assumem uma posição negativa ao invés de uma posição agnóstica ou neutra, mas ainda assim se autointitulam “céticos” são, na verdade, “pseudocéticos” e ganharam, acredito eu, uma falsa vantagem por assumirem esse rótulo.

Imaginem um marxista convicto, daqueles ferrenhos. Ele vai pegar um discurso de um republicano norte-americano e vai encontrar centenas de erros ali (e a grande maioria deles serão bem forçados). Ele vai fazer milhares de acusações de desonestidade, mentiras, dissimulações, distorções e de sede por poder e irá buscar mapear o comportamento dele baseado nos erros que encontrou em outros discursos.

Se ele for presunçoso o suficiente, dirá ter encontrado um padrão nos textos da direita que representam a forma, o método usado por eles para mentir e enganar as pessoas e conseguir poder político de forma ilícita. Ele irá construir um framework de sua ação e batizará cada palavra e atitude do republicano como rotina de distorção ou de manipulação. Irá dizer que todos que não concordam que os republicanos estão errados são ou republicanos moderados (ignorando paradoxo do copo meio-cheio/meio-vazio) ou estão dissimulando seu posicionamento para adquirir vantagens retóricas.

Agora imaginem que esse marxista lunático se autodeclare um marxista cético? Tendo em vista tudo que falei aqui, essa declaração seria risível e digna de pena. É evidente que ele é um marxista crítico e não um cético, pois ele age exatamente como o crítico que defini e não como o cético. Ele também é um pseudocético, porém não por ser simplesmente um crítico, mas sim por ser um crítico que se intitula cético.

Aliás, todas as seguintes características são facilmente encontradas nos pseudocéticos (apesar de alguns não possuírem algumas delas, todos eles apresentam uma quantidade razoável delas de forma bastante explícita):

1. A tendência de negar, ao invés de duvidar.
2. A realização de julgamentos sem uma investigação completa e conclusiva.
3. Tendência ao descrédito, ao invés da investigação.
4. Uso do ridículo ou de ataques pessoais.
5. A apresentação de evidências insuficientes.
6. A tentativa de desqualificar proponentes de novas ideias taxando-os pejorativamente de ‘pseudocientistas’, ‘promotores’ ou ‘praticantes de ciência patológica’.
7. Partir do pressuposto de que suas críticas não tem o ônus da prova, e que suas argumentações não precisam estar suportadas por evidências.
8. A apresentação de contra-provas não fundamentadas ou baseadas apenas em plausibilidade, ao invés de se basearem em evidências empíricas.
9. A sugestão de que evidências inconvincentes são suficientes para se assumir que uma teoria é falsa.
10. A tendência de desqualificar ‘toda e qualquer’ evidência.

Destaquei o ponto que considero mais importante e mais ‘desqualificante’ no comportamento dos pseudocéticos. É óbvio também que uma pessoa que apresente essas características mas que não se declara cética, não pode ser chamada de pseudocética. Na verdade, algumas dessas características nos permitem também identificar os críticos, lembrando que o crítico só é pseudocético caso declare-se cético, caso contrário é apenas crítico.

Diga-se de passagem, eu me considero um ateu crítico. Qualquer alegação teísta é vista com desconfiança por mim e meu primeiro impulso é encontrar seus erros. Não é atoa que ateus céticos também são conhecidos como ateus agnósticos. A wikipedia diz inclusive que:

“O ateísmo cético (ou ateísmo fraco) é uma variedade de ateísmo na qual se afirma que a existência de um ou mais deuses é duvidosa, improvável ou insuficientemente demonstrada.”

Ou seja, eu definitivamente não sou um ateu cético e se me declarasse como tal e mantivesse minha linha de raciocínio atual, eu poderia ser facilmente chamado de pseudocético. Já sobre meu posicionamento político, me declaro um “agnóstico cético”. Não tenho compromisso com nenhuma ideologia, apenas defendo aquelas que se mostraram mais razoáveis para mim especificamente nos pontos aos quais se referem. Eu me dou a liberdade de concordar que o combate à pobreza é responsabilidade do governo e discordar da forma como os governos atuais fazem isso. Também me dou a liberdade de posicionar a favor do casamento igualitário e da diminuição da maioridade penal (acho que 15 anos está bom). Eu só acho que seria estranho uma pessoa de 16 anos ser considerada responsável suficiente para ser punida por seus crimes, mas não para escolher a pessoa com quem quer fazer sexo. A diminuição da maioridade penal, no meu ponto de vista, deveria responder a esse paradoxo.

Eu não sou cético perante a tudo, mas pelo menos quando digo que estou sendo cético, eu realmente estou sendo. Quem duvida, é só testar. Não preciso desse tipo de autopromoção. O ceticismo não é o modo de pensamento perfeito e ninguém é pior porque usa um paradigma crítico quando discute questões não-científicas. Quanto a questões religiosas, não tenho medo nenhum de me declarar crítico, porque realmente o sou: parto do pressuposto que elas são falsas e a princípio não me disponho a reconsiderar isso e sequer sei o que precisaria acontecer para que eu acreditasse.

Tomem cuidado com os críticos só quando eles se declaram céticos: eles dizem que estão investigando, mas não estão. Não acreditem que estão investigando. Tentem imaginar o marxista do meu exemplo aqui fazendo uma investigação que conclua que o marxismo está errado. Isso nunca vai acontecer, porque no fundo ele não está investigando, mas só buscando motivos para manter seu ponto de vista inicial préconcebido. Pode parecer que seu trabalho investigativo é excelente e ele pode até dizer que sua investigação surpreendentemente descobriu que o marxismo realmente estava correto. Mas se botarmos a cabecinha pra funcionar um pouquinho que seja, o castelo de cartas desmorona.

Fiquem de olho com os críticos que se declaram céticos:
eles são os piores!

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