Pseudociência (1) Que isso?

Este post pretende fazer um link entre minha primeira fase aqui no blog e a minha terceira fase. Estou prestes a esgotar o assunto sobre ceticismo e pseudoceticismo e a entrar de vez em filosofia do conhecimento e da ciência. Como estou falando atualmente sobre pseudoceticismo, vou falar hoje sobre pseudociência, que envolve critério de demarcação – um dos principais pontos da filosofia de Popper.

A wikipedia brasileira é curta e grossa na definição: “Uma pseudociência é qualquer tipo de informação que se diz ser baseada em factos científicos, ou mesmo como tendo um alto padrão de conhecimento, mas que não resulta da aplicação de métodos científicos.” O site Skeptic’s Dictionary (Dicionário Cético) é mais sucinto ainda: “A pseudoscience is a set of ideas put forth as scientific when they are not scientific” ou “Uma pseudociência é um conjunto de ideias que se propõem como, mas que não são.”

O que seria então uma pseudociência? Em um sentido mais restrito, é apresentar uma ideia que se propõe como científica, mas que não foi alcançada via método científico. O sucesso indiscutível da ciência moderna criou um campo inesgotável de oportunidades para charlatões, mentirosos e aproveitadores ganharem dinheiro e fama em cima da ingenuidade alheia.

Os espíritas podem ficar revoltados, mas espiritismo É SIM pseudociência. Muitos dizem que não é sequer uma religião, como o blog Irreligiosos, mas não concordo. O espiritismo é uma religião que possui um traço pseudocientista à medida que se propõe originalmente como uma ciência. Vejam nas referências um texto do Grupo de Estudos Espíritas da Unicamp onde eles dizem que espiritismo é, segundo o próprio Alan Kardec, uma ciência. Legal é que no final eles ainda criticam a pseudociência dos seus concorrentes… HA! Pegadinha do Malandro!

O espiritismo se propõe a alcançar verdades sobre o mundo de forma científica e, para não dar muito na cara que não é bem assim, FINGEM que estão fazendo isso. Alguém aí já viu papers espíritas com experimentos em condições controladas que foram reproduzidos por pessoas independentes? Alguém já viu experimentos “espíritas” que podem ser confirmados por pessoas de qualquer religião, de modo que qualquer um chegue às mesmas conclusões que eles? Alguém já viu equações ou leis do espiritismo? Alguém sabe quais as principais teorias do espiritismo e quais são as evidências que as suportam? Mas com certeza já viram textos espíritas falando de ectoplasmas, teoria da relatividade, big bang, astronomia, termos técnicos da biologia evolutiva etc

A verdade é que eles dizem qualquer bobagem com um linguajar científico e vendem como se fosse ciência. Qualquer um pode pegar um texto, recheá-lo de termos técnicos, citações e referências e depois dizer que fez ciência. A homeopatia é especialista nisso: abusa desse expediente até falar chega, mas apresentar resultados que é bom, nada. O Bule Voador tinha uma série até legal sobre o assunto, mas parece que eles estão com problemas com seu banco de dados. Mas exemplos é o que não faltam, como as Terapias Quânticas ou o Feng Shui. As primeiras são geralmente massagens usando pedras que “interagem com seu corpo através de forças quânticas propiciando resultados que os métodos da perversa ciência convencional jamais sonhariam em alcançar”. Os segundos são design de interior com um toque zen pseudocientífico.

Mas não são só ideias que se propõem confessadamente como científicas, mas que na verdade não são, que são pseudociência. Ideias que tentam se basear em ciência mas que só fazem meia dúzia de referência a textos escolhidos a dedo e interpretados de forma duvidosa também o são, em um sentido mais amplo. Um exemplo são os Pick Up Artists, vulgos PUAs, que vendem auto-ajuda em relacionamentos usando alguns textos de psicologia evolutiva como base para sua metodologia. Na verdade, não usam porr4 nenhuma. Eles dizem algo como: “Olá a todos, nosso produto foi desenvolvido tendo como base a psicologia evolutiva e por isso te trará excelentes resultados! Não deixe de nos pagar bastante dinheiro por esse produto de auto-ajuda que de científico só tem o rótulo!”

A verdade é que se você inventa uma teoria qualquer e coloca nas suas justificativas textos científicos corretos mas que não têm absolutamente nada a ver com o que você está falando, então você também está agindo como um pseudocientista, pois tenta aumentar a legitimidade do que diz na carona dos conhecimentos estabelecidos de forma séria. Um exemplo são pessoas que defendem pontos de vista político usando psicologia ou biologia. A psicologia pode estudar porque pessoas preferem determinadas ideologias a outras ou porque tendem a agir de determinadas formas durante as eleições, mas jamais pode dizer qual ideologia política é correta pois isso foge do seu escopo. Diferenças epistemológicas, saca? Psicologia não pode ser usada para validar/refutar ideias fora de seu escopo. Se quiser debater política, use teorias da Filosofia Política ou da Administração Pública, não da psicologia* ou da biologia**.

Em suma, pseudociência significa usar a palavra ciência ou os conhecimentos da ciência de forma inadequada para aumentar artificialmente a confiabilidade de uma ideia. Ocorre tanto quando o idealizador declara estar fazendo ciência quanto quando ele não declara. E ocorre tanto quando a ideia defendida se diz científica quanto quando ela não se diz. Senão, basta o cara agir de forma pseudocientífica e depois dizer: “mas eu não estava propondo uma teoria científica…” Esse é claramente um estratagema, pois o que está em discussão é o aumento artificial da credibilidade ao citar teorias científicas que não corroboram diretamente suas ideias. O importante é verificar se a pessoa tentou pegar carona na ciência de forma indevida.

Os métodos e critérios para diferenciar ciência de pseudociência são uma área da Filosofia da Ciência chamada “Critérios de Demarcação”. O segundo post dessa série será uma introdução sobre esse tema.

Referências:

Wiki: Pseudociência
Skeptic’s Dictionary: Pseudociência
Blog IRRELIGIOSOS – Espiritismo: Ciência, Pseudociência, Filosofia ou Doutrina Religiosa?
Grupo de Estudos Espíritas da UNICAMP: Ciência Espírita
PUAs

* Dizer que uma crença é inválida pela forma com que foi adquirida é implorar para cometer uma Falácia Genética. Essa falácia existe sim, mas devemos ter sempre muito cuidado com ela: por ser um assunto complicado, nos embananamos nela com frequência. Neste assunto em específico, devemos sempre nos perguntar: “as pessoas que possuem o pensamento político X estão erradas só porque X é fruto de um processo psicológico Y que acabei de citar, ou porque é fruto de um processo psicológico Y que representa uma fraqueza humana (como medo) ou porque ela não resolve adequadamente o problema que se propõe a resolver?” Eu sou favorável a só enxergar questões políticos sob a terceira óptica. Soluções devem solucionar… e ponto. Pouco importa se são sustentadas por processos psicológicos decorrentes de falhas humanas.
** Hitler usava a biologia (ou uma visão distorcida da mesma) para defender ideais políticos! Quem quiser fazer isso, preste bastante atenção… é caminhar sobre gelo fino.
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3 opiniões sobre “Pseudociência (1) Que isso?”

  1. O pior é que nem pensadores decentes o espiritismo tem nesse campo de ciência e filosofia. Outros grupos religiosos fazem mil conjecturas, difíceis de refutar, sobre suas crenças, ao passo que os espíritas tem bem poucos intelectuais interessantes do seu lado e, mesmo assim, frequentemente se declaram mais racionais que os demais.

    Esses tempos fiz uma análise da palestra do Sergio Felipe, que aborda a glândula pineal e pretende conciliar ciencia e religião, digamos assim, por meio desse tema, mas ele é tão inconsciente do que venha a ser ciência (e é médico)…

    Ó, caso tenha interesse, dá uma olhada lá: http://ceticosblog.wordpress.com/2013/11/23/guia-cetico-para-a-palestra-a-glandula-pineal-sergio-felipe-de-oliveira/

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