A sexualidade vira-lata dos ateus militantes – Parte 2: A “magnífica” cortesania da Idade Média

Símbolo do Recato durante a Idade Média

Começo aqui a análise do vídeo “A sexualidade vira-lata dos ateus militantes“, daquele rapaz que acha que o cristianismo é racionalmente, moralmente e tudo-o-mais-mente superior a qualquer forma de religiosidade e de pensamento, sobretudo o ateísmo. Sim, o Conde acha que o Cristianismo é perfeito e sem falhas e que o ateísmo, como negação dele, só tem falhas e que todo militante é alguém mal por natureza. Fazer o que, cada um que viva a ilusão que quiser, não é mesmo?

Falando nisso, coloquei a série sobre a Ilusão Cristã da Superioridade antes de prosseguir com essa série aqui porque acho que ela complementa perfeitamente a crítica que farei ao Conde. Pretendo mostrar como a moralidade que ele defende, em especial a moralidade sexual cristã, não é superior à ateísta. Aliás, vou mostrar que sequer é aquela que ele defende ser, em certos casos.

No texto original na WatchGOD, o texto está bem mais completo e tem um resumo dos seus argumentos em forma silogística. Aqui, dei uma resumida e adaptei à temática moralidade cristã x moralidade secular, com enfoque na sexualidade.

Ele começa o vídeo dizendo no primeiro parágrafo, [P1], que viu uma matéria sobre sexo e que a classificou como cultura inútil. Em primeiro lugar, por mais que ele esperneie, sexo não é um assunto inútil nem faz parte da cultura inútil. O próprio fato de ele gastar seu tempo e sua retórica explicando porque o sexo deve ser evitado já é uma prova da relevância do assunto: o sexo está tão presente na vida humana, que é impossível falar de comportamento (o que inclui comportamento religioso) sem falar sobre ele.

Em segundo lugar, ele mesmo apresenta mais tarde a ideia de que a cultura do sexo correta foi elaborada pelo cristianismo. Ou seja, é uma cultura inútil, mas a religião que ele deseja defender é a que ele alega ter desenvolvido com mais maestria tal cultura. Ele já começa com uma frase de efeito, que está evidentemente equivocada e que ele mesmo contradiz no decorrer do discurso.

A seguir, em [P2], ele cita uma pesquisa norte-americana que diz que os ateus vivem o sexo com mais prazer, para então fazer uma objeção a ela em [P3]. Essa objeção configura o primeiro argumento apresentado por ele: o de que a pesquisa apresentada está errada porque sexo e prazer não são mensuráveis. Entretanto, esta é uma enorme falácia: a de que aspectos humanos e subjetivos são imensuráveis. De forma geral, ele quis dizer que aspectos humanos e subjetivos são imensuráveis, incluindo o prazer.

Para mostrar o quanto essa ideia é falsa, vou dar um exemplo da área de marketing: eles fazem pesquisas de campo que visam perguntar às pessoas o quanto elas estão satisfeitas com determinado produto e depois confrontar os resultados com as características dessas pessoas. Pode-se assim descobrir quais faixas etárias, quais sexos, quais níveis sociais etc mais gostam do produto e redirecionar o marketing da empresa. Uma pesquisa sobre sexo funciona da mesma maneira. Este argumento cai com extrema facilidade, pois as pessoas são sim capazes de medir sua satisfação e de exprimi-la de maneira objetivamente mensurável.

Na verdade, esse argumento foi uma tentativa de desmoralizar a pesquisa. Ele não procurou, ou se procurou, agiu como se não tivesse procurado, saber como tal pesquisa foi elaborada, quais os critérios e quais suas conclusões. Ou seja, ele não se interessou em momento algum em fazer uma crítica coerente, mas sim em apresentar uma falácia de impacto e bonitinha, fácil de ser engolida.

Já no [P4] ele insinua que os ateus mentem sobre seu prazer sexual por pura pirraça. Ele insinua que os ateus fingem que estão mais satisfeitos com o sexo para poder usar isso como vantagem sobre os religiosos. Para começar, isso é só uma alegação solta no estilo “teoria da conspiração”, pressupondo que os ateus se reúnem secretamente para combinar respostas em pesquisas e dar a falsa ideia de que aproveitam melhor o sexo. Para piorar, em algumas partes ele age como se ateus tivessem mentido, mas em outras, age como se dissessem a verdade.

O que estou dizendo é que a tese dele é baseada nas duas ideias a seguir:

(1) Os ateus fingem que sentem mais prazer para afrontar os religiosos.
(2) Os ateus sentem mais prazer porque são, de certa forma, promíscuos.

Não precisa ser nenhum gênio para notar incoerência entre (1) e (2). Mas notem como que no [P5] e no [P6], ao invés de dar prosseguimento ao raciocínio, ele resolve mudar de assunto bruscamente, defendendo a ideia de que o cristianismo é a melhor fonte de moralidade e de decoro para o sexo. Em defesa disso, ele lembra do código de ética para o sexo criado pelo cristianismo na Idade Média nas duas alegações a seguir:

(1) Existia um código de ética na Idade Média voltado para o amor e o cavalheirismo e o sexo era visto de forma secundária na relação.
(2) Tal código foi criado por cristãos, não por pagãos, na Idade Média.

A primeira alegação é evidentemente falsa. Existia sim uma tradição de cavalheirismo, mas existia também o sexo por prazer. Tenho minhas dúvidas se as mulheres realmente se casavam virgens, mas com certeza praticamente nenhum homem assim o fazia. Casas de prostituição, adultério, orgias e homossexualismo, ou seja, todo o conjunto de práticas e comportamentos sexuais considerados hoje errados, já existiam na época. O sexo era tão corriqueiro naquela época quanto é hoje. A grande diferença é que tudo acontecia debaixo dos panos. Sim, haviam quem tomava banho com roupas, mas quem consegue ver recato nisso? Isso não é recato, é neurose.

Vejam a série de artigos “10 Curiosidades sobre sexo” na Idade Média, na Grécia Antiga e na Roma Antiga, além dos artigos Como era o sexo na Idade Média e A Mulher na Idade Média. Podemos ver nesses artigos práticas que existiam na Idade Média e que aconteciam antes (e algumas até hoje), tais como homossexualismo entre homens, lesbianismo e prostutuição tributada pelo clero.

Sim, caros leitores, a Igreja Católica roubava as prostitutas para permitir que elas trabalhassem (fico imaginando o Marlon Brando vestido de papa e dizendo para uma meretriz: “O seu negócio é tão bom, seria uma enorme lástima se você morresse amanhã ou depois…”).  Fico imaginando a cortesania que havia dentro dos muros do vaticano como parte do ritual de preparação para suas orgias, algumas delas homossexuais. O Conde vai cair da cadeira quando descobrir que já teve papa que morreu assassinado a pauladas pelo próprio marido por tê-lo traído! Isso ocorreu durante a “gloriosa” Idade Média, para piorar.

Mas a questão não se restringe à demagogia. A cortesia que o homem dispensava à mulher era apenas algo anterior ao casamento. Depois deste, o homem passava a ter posse sobre o corpo de sua mulher. Apenas não era aconselhável fazer tanto sexo com a esposa quanto se fazia com as prostitutas quando solteiro, nem era aconselhável fazer sexo anal ou oral.

Fora isso, a mulher era tratada com despreso por seus pais e maridos, não tendo direitos a participar efetivamente da sociedade. Elas eram bajuladas e mimadas como animais de estimação e eram sobrecarregadas de tarefas domésticas para não pensarem em “bobeiras”. Muito se diz que as mulheres são tratadas como objetos hoje. Mas durante a Idade Média, eram tratadas como animais. E isso não é exagero, basta conferir este post chamado saborosas monstras, onde se lê:

“Noutros casos a metáfora mulher/animal serve para dar livre curso à misoginia, socorrendo-se de uma série de metáforas moralistas. Num poema francês do século XIV, intitulado Os Vícios de uma Mulher, diz-se que a mulher é venenosa como uma serpente, impetuosa como um leão, parecida com um leopardo pela voracidade; falsa como uma raposa; combativa como um urso; semelhante a uma cadela por ter os sentidos apurados; como uma gata quando morde; uma ratazana para destruir ou um rato para se esgueirar.”

Dama da Idade Média sendo exaltada em um altar por um cavalheiro cortês.

Ou seja, o sexo cortês nunca existiu; o que existiu foi a paquera cortês que terminava logo após o casamento. O sexo não era tão evitado como se diz. Ele era feito na surdina e suas variações eram mais raras do que hoje, mas mesmo assim existentes. E esse movimento cultural não caracterizou a Idade Média como um todo, mas apenas seu último período, então nem dá para dizer com a boca cheia que os homenzinhos daquela época eram defensores da moral. Basta saber que tal cultura da cortesania começou apenas no século XII, muito depois do início da Idade Média (séc. V), porém mais próximo de seu fim (séc. XV). Assim, a primeira alegação do Conde vai pro lixo.

Sobre a segunda, podemos notar que a uma altura dessas, ele já se tornou um fato irrelevante. Ele está se referindo a uma conduta apenas pré-nupcial, seguida por uma prática sexual mandatoriamente submissa para as mulheres. É evidente que isso não é sinônimo de sexo com recato, então de que vale a alegação de que o cristianismo o criou? O engraçado é que ele usa um tom todo esnobe para tomar para o cristianismo a autoria de tal “código de cortesania”. Bem, eu pergunto a ele do mesmo jeito que ele perguntou aos ouvintes: quem inventou a roda? E o fogo, a agricultura, a culinária e a filosofia? Foram os cristãos? Não, meu caro! Foram os pagãos! Aqueles homenzinhos rudes e bárbaros que não tinham Deus em seus obscuros corações!  A diferença é que tudo isso que citei é bem mais importante para a humanidade do que as normas de paquera cortês e sexo submisso.

Essas duas alegações foram ditas para defender a ideia de que o sexo deve ser regido pelo código de ética da Idade Média feita pelos cristãos, ou de forma mais abrangente que a moralidade, inclusive a sexual, só pode vir do cristianismo. Além dos problemas que já citei, completo com o argumento de que ele não responde a questão: “qual é a vantagem da conduta apresentada sobre a conduta atual ou qualquer outra conduta que não seja bárbara?” Na verdade, até que ele tenta responder isso, só que bem mais para frente (afinal de contas, ele parece se esforçar para não criar coerência entre as ideias apresentadas).

Ainda em [P6], ele apresenta uma nova afirmação, que na verdade mais parece um resmungo. Ele diz que os homens medievais foram rotulados como elementos das trevas, apesar de terem criado o cavalheirismo. Em primeiro lugar, já vimos que o cavalheirismo não era nada de mais. Um pensamento racional e sensato sobre direitos e respeito já é o suficiente para que as pessoas paquerem e se conquistem de forma adequada. Havendo respeito, não é necessária uma cartilha com um passo-a-passo para conquistar uma mulher. Isso sim, aliás, é desrespeito: dar um presente para um mulher e a tratar de forma “sofisticada” e achar que ela tem que gostar. Cada mulher tem um jeito de ser conquistada, sem contar as mulheres que preferem conquistar a serem conquistadas. Esse código de cortesania é um desrespeito às mulheres e é essencialmente misógino. Ele é um deboche à diversidade de opiniões, personalidades e comportamentos.

Imaginem que houvesse um manual feminino para conquistar homens. Se ele incluísse dar uma camisa de futebol do meu time para mim, eu até acharia bom. Mas se incluísse dar um livro de romance eu iria achar ruim porque não gosto e, acima de tudo, não gostaria que as mulheres me dessem só porque a cartilha diz que devo gostar de receber. Não é assim que as coisas funcionam. Manuais e códigos são coisas de gente burra, incapazes de pensar por si só e autistas o suficiente para não conseguir interagir socialmente com níveis satisfatórios.

Além disso, rótulos são alcunhas que generalizam e distorcem um determinado grupo de pessoas ou objetos. A Idade Média é conhecida por ser uma época na qual mulheres que ajudavam outras durante o parto eram queimadas vivas. O governante era decidido por hereditariedade ou pela espada. Os governantes e o clero viviam no luxo ocioso em detrimento da miséria da população. O analfabetismo era lugar comum entre os mais pobres. A medicina se restringia a mais um ramo da superstição. A alcunha de Idade das Trevas não é nenhum rótulo, mas sim algo muito condizente com a realidade da época.

Uma vez estabelecido que a moralidade, inclusive a sexual, só pode vir do cristianismo, ele vem dizer no sétimo parágrafo que o ateísmo quer acabar com ela. Para tanto, ele usou uma citação de Nelson Rodrigues: “educação sexual é coisa de vira-lata”. É óbvio, dada a desonestidade de Leonardo, que Nelson nunca disse isso. Na verdade, ele disse: “A educação sexual só devia ser dada por um veterinário.” É bom notar que Nelson Rodrigues usa a palavra vira-lata para se referir ao complexo de inferioridade brasileiro e não para definir comportamentos sexuais. Mas tal mudança sutil acaba sendo irrelevante, pois o que ele queria mesmo era estabelecer sexo por prazer é coisa de animais. Aliás, o brilhante argumento dele é que sexo por prazer é coisa de animais porque Nelson Rodrigues disse. Afinal, o Nelsão falou então está falado, né?

Creio que a melhor forma de atacar um apelo à autoridade é mostrar que a personalidade citada não é uma referência tão boa quanto se quer fazer parecer. Vejam algumas pérolas do nosso querido Nelson Rodrigues que fariam nosso igualmente querido Leonardo Bruno tirar seu eterno sorrisinho cínico do rosto por alguns segundos:

“Nem todas mulheres gostam de apanhar, só as normais.” (uma grande demonstração de cortesania e de agrado delicado e sofisticado)

“A prostituta só enlouquece excepcionalmente. A mulher honesta, sim, é que, devorada pelos próprios escrúpulos, está sempre no limite, na implacável fronteira.” (uma crônica que escancara os perigos de se levar uma vida sexualmente livre)

“O dinheiro compra até o amor verdadeiro.” (cortesia pra quê? Se você for rico já basta!)

“A mulher ideal deve ser dama na mesa e puta na cama.” (aqui, Nelson defende a ideia da dama idealizada e inatingível)

A uma altura dessas, eu já estou concordando com as referências do Conde mais do que ele mesmo!!

Continua…

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Uma opinião sobre “A sexualidade vira-lata dos ateus militantes – Parte 2: A “magnífica” cortesania da Idade Média”

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