Pseudoceticismo: o cérebro que cai (1)

Já dizia Carl Sagan:

Devemos manter a mente aberta,
mas não tão aberta a ponto do cérebro cair.

É o que acontece a uma certa categoria de pseudocéticos: em seu devaneio de que são justificados em suas crenças, afirmam serem eles os verdadeiros céticos e não aqueles que aplicam a dúvida de forma metódica. Segundo essas pessoas, duvidar demais é um problema e o verdadeiro cético é aquele que tem a mente aberta para certas verdades. Só que eles abrem a mente demais e o cérebro deles acaba caindo pra fora da cabeça.

Vamos ver um trecho de um artigo de Thomas Talbott chamado The Outsider Test for Faith: How Serious a Challenge Is It? que diz um pouco sobre o que ele acha que é ceticismo.

Um segundo tipo de ceticismo deriva da tradição do ceticismo filosófico. Milhões de pessoas ao redor do mundo acreditam em reencarnação, uma ideia que nunca fez parte da minha herança religiosa. Então eu rejeito essa ideia completamente? Não. Eu aceito qualquer argumento tolo, quando os vejo, de que a reencarnação é logicamente inconsistente com os ensinamentos bíblicos? Não. Será que eu adotei essa ideia então? Não. Apesar de eu acreditar que nossas vidas terrenas não são nada além do prefácio de uma história mais longa, eu estou aberto a uma série de pontos de vista diferentes sobre como o futuro pode ser depois de nossa vida terrena chegar ao fim. Assim, com relação à crença na reencarnação, eu sou um verdadeiro cético no seguinte sentido: embora eu não adote tal ideia religiosa, eu também não a rejeito completamente. Eu não tenho nenhuma crença estabelecida em nenhum dos dois sentidos sobre o assunto. Chame isso, então, de ceticismo de crença em suspenso, porque ele é incompatível com certeza dogmática e às vezes surge quando se tem a humildade de reconhecer os limites do próprio conhecimento. Para colocar de outra forma: em relação à proclamação cristã de que Jesus Cristo ressuscitou dos mortos, um cético neste sentido não será menos aberto para a possibilidade de que tal proclamação é verdade do que ele ou ela também será à possibilidade de que é completamente falsa.

Interessante, não? Em Pseudoceticismo: Pode isso, Arnaldo? e em inúmeras outras ocasiões, defendi que não precisa ser cético para duvidar de nada. Se alguém aplica a dúvida a algum assunto do qual discorda, simplesmente porque discorda, e investiga sem o compromisso de estabelecer algum resultado que possa te fazer mudar de ideia, então essa pessoa não age conforme o ceticismo. E se tal pessoa se alega cética, então ela é pseudocética. Também tem sido defendido aqui no blog que certos cristãos vivem na ilusão de que são os únicos certos, os únicos racionais e os únicos detentores da verdade metafísica. Então do que diabos eu to reclamando nesse discurso do cara?

Aha! é agora que a porca torce o rabo. Vejam que ele diz que o verdadeiro cético deve estar igualmente disposto a crer em A e em não-A. Mas não existe nada mais falso do que isso. Um biólogo que examina uma espécie até então desconhecida, não precisa estar disposto a considerar a veracidade da evolução das espécies da mesma forma com que considera a sua falsidade. Quando um cosmologista investiga o universo, ele não precisa considerar que a chance do big-bang ser falso é a mesma dele ser verdadeiro. Pré-concepções são válidas dentro do ceticismo, especialmente quando já sobreviveram a um longo período de questionamento. Segundo Talbott, um físico só poderia ser verdadeiramente cético se acreditasse que a chance da II Lei de Newton ser falsa é a mesma de estar correta! Só que isso é muita viagem, né? Não dá pra levar a sério…

Mas porque ele comete tal engano? Simplesmente para se esquivar de alegações ou argumentos de que ele não examinou as evidências para o cristianismo com ceticismo. Daí, ele reinventou ceticismo como sendo algo que só acontece quando a pessoa acredita em algo apesar de reconhecer que pontos de vista opostos são igualmente válidos. Ele distorceu o conceito para se chamar de cético; ele trapaceou para conseguir o rótulo de cético. E que toma para si esse rótulo de forma ilícita é justamente o pseudocético.

Não confundam ceticismo com alguma forma de agnosticismo. O ceticismo não requer um grau de suspensão do juízo tão elevado ou coisa parecida. É lógico que requer um grau mínimo, mas é só algo que fica no campo das possibilidades. Um biólogo precisa saber que alguém pode provar algum dia que a evolução seja falsa. Isso não quer dizer que ele deva manter um terço no bolso dele para clamar por perdão assim que ocorra a eminente descoberta científica de que o criacionismo seja verdadeiro. Na verdade, as evidências apontam hoje com muita força para a teoria da evolução e ninguém deixa de ser cético porque despreza as chances dela ser falsa. A evolução é tão certa quanto a segunda lei de Newton, queiram ou não. Não que sejam verdades absolutas, mas a chance de descobrirmos que estão completamente equivocadas é muito pequena, quase nula. Pequenas correções continuarão a ser feitas, mas acho difícil que algum campo da ciência hoje se mostre completamente equivocado.

Que quem se abre a todas as possibilidades de maneira igual não está agindo de forma dogmática, pode até ser. Mas de forma cética, definitivamente não está agindo também. Talvez de forma ingênua ou, como neste caso, de forma malandra. Para não admitir que é menos cético com suas crenças, ao invés de mostrar que foi tão rigoroso ao analisar as evidências do cristianismo quanto foi com aquelas fornecidas pelas outras religiões, ele alega que foi tão ingênuo com as outras quanto foi com as próprias… HA! É como se defender da acusação de estar inventando que foi abduzido por ETs dizendo que também já participou de um chá das cinco com as fadas e que visitou Asgard na companhia de Thor.

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Uma opinião sobre “Pseudoceticismo: o cérebro que cai (1)”

  1. Olha galera: parece muito conveniente eu publicar isso aqui hoje, mas juro que não foi de caso pensado. Esse post estava escrito há mais de 10 dias, como a maioria dos textos aqui do blog. Tento deixar tudo na geladeira pelo menos uns 10 dias antes da publicação.

    Mas de fato é uma excelente resposta a objeções que foram feitas contra meu texto anterior. O ceticismo não pressupõe nenhum tipo agnosticismo, mas também rejeita a certeza absoluta. Um policial que investiga um suspeito deve preparar seu “sistema límbico” (aff pseudociência alí é mato) para o caso do culpado ser outra pessoa. Caso contrário, não faria nem sentido o termo investigação. Investigar o que, quando se tem certeza? Torno a repetir: demonstração planejada não é ceticismo.

    Peço a quem duvide do que digo aqui que se pergunte: “Dentro do meu mind set investigador, existe algum conjunto de fatos que, caso exista e surja, irá modificar meu pensamento atual? Existe a chance de fatos me provarem que estou errado? Eu estaria disposto a aceitar os fatos em detrimento dos meus posicionamentos?”

    E ainda tem mais: alguém consegue me dizer a diferença entre alguém que acredita ingenuamente na ideia “A” e alguém que é cético contra a ideia “não-A”? Uma pessoa que se auto-intitula ser a segunda, pode ser muito bem ser a primeira fingindo de cética. E como alegações de ceticismo requerem PET SCANS, peço que qualquer pessoa alegadamente cética que me critique apresente seu PET SCAN.

    Bem já escrevi demais sobre esse looser neste comentário. O que eu queria dizer é que esse post não foi feito pensando nele, apesar de tratar de boa parte de suas objeções. As que restavam, tratei aqui.

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