A Ilusão Cristã da Superioridade – Parte 3: A Ilusão de que Ateus São Imorais

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Título Original: A Ilusão Cristã da Superioridade Racional e Moral
Autor: John W. Loftus
Fonte: Why I Became an Atheist – Capítulo 2 (pgs. 35-45)
Tradução: Marco Aurélio Suriani
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Parte 1: As superioridades racional e moral
Parte 2: Padrões Éticos

A Moral Cristã no Mesmo Barco

Mesmo que os cristãos tivessem padrões morais objetivos, eles não podem ter certeza objetivamente de que eles sabem quais são esses padrões ou de que eles sabem como eles se aplicam a determinados casos da vida real. Basta olhar para o passado do cristianismo (como vamos olhar posteriormente) e você verá o que eu quero dizer. Os crentes ainda irão discordar uns com os outros em uma série multifacetada de questões éticas, quer comecem com a Bíblia como revelação de Deus ou com a moral sendo adquirida a partir de uma teoria da lei natural. De acordo com Sam Harris, “As pessoas têm escolhido trechos Bíblicos a dedo por milênios para justificar seus impulsos, sua moral e tudo mais.” Os cristãos usam suas “próprias intuições morais para autenticar a sabedoria da Bíblia … Nós decidimos o que é bom no Livro Bom.” [14]

Essa escolha a dedo de trechos da Bíblia introduz o problema “do cânone dentro do cânone”. Que partes do cânone bíblico devem ser ressaltadas e quais devem ser minimizadas? Se os cristãos realmente acreditam na Bíblia, eles não deveriam deixar as mulheres falar em suas igrejas (1 Cor 14:34, veja 1 Tm. 2:11-12), o homem seria o chefe patriarcal dominante da casa e sua mulher é deveria “obedecer” o marido assim como Sarah obedeceu Abraão (1 Ped. 3:6), até ao ponto de mentir e ter relações sexuais com outro homem para salvar vida dele  (Gênesis 12:10-16) e de deixá-lo dormir com outra mulher para que ele pudesse ter um filho (Gênesis 16). E, no entanto, a fim de neutralizar a força dessas passagens, os cristãos de hoje focam-se no princípio de Paulo de que “não há nem judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher, porque todos vós sois um em Cristo” (Gl 3:28) . Qual é? O que os cristãos salientam torna-se “o cânone dentro do cânone”, e esta é a “escolha a dedo” pura e simples. [15]

Este problema obriga os cristãos a especificar exatamente de onde eles tiram sua moralidade. Se eles podem enfatizar uma parte da Bíblia em detrimento de outra parte, como eles fizeram para decidir isso? Eu sustento que cristãos adquirem sua moral no mesmo lugar que eu – do avanço de uma melhor compreensão de quem somos nós e do que nos faz feliz como ser humano em sociedade. Os cristãos não adquirem sua moralidade exclusivamente da Bíblia. Os cristãos simplesmente aprenderam a interpretar a Bíblia de maneira diferente ao longo dos tempos para mantê-la de acordo com nosso senso comum de moralidade, e isso é tudo, já que nossos valores morais mudam com os tempos.

Como o Dr. Craig mencionou Hitler, Auschwitz, e Dachau em seu livro de apologética, considere isto: a Alemanha era uma nação cristã – o coração da Reforma Protestante Luterana! Como poderia o povo cristão permitir o acontecimento dessas obras más e até mesmo ser carrasco voluntário de Hitler? Como? O Holocausto e as coisas horríveis feitas a milhões de judeus e a minorias diversas é mais um problema para a ética cristã, porque era uma nação cristã que cometeu estes atos horríveis. [16]

A verdade da questão é que cristãos moralistas religiosos estão no mesmo barco que os ateus. De acordo com Kai Nielsen: “O moralista religioso … não tem qualquer objetividade melhor ou pior. Isso porque, suponha que ele diga: ‘Devemos amar a Deus’, e então suponha que perguntemos de volta, ‘Por que amar a Deus … Por que obedecer aos seus mandamentos?’ Ele basicamente teria que dizer: ‘Porque Deus é o bem perfeito, e Deus com a sua bondade perfeita nos revela o grande valor do respeito a si próprio para as pessoas. Ele mostra que as pessoas são de valor infinito e precioso.’ Mas mesmo que você aceite isso, você poderia perguntar, ‘Por que você deveria se importar? Que diferença faz se as pessoas são de valor infinito e precioso?’ Diante de tal questionamento, o religioso será finalmente levado a um ponto no qual dirá ‘É importante para mim que as pessoas sejam consideradas como sendo de valor infinito, porque eu simplesmente me importo com as elas. Isso significa para mim que as pessoas devem ser tratadas com respeito.’ Assim, o moralista religioso finalmente tem que contar com suas convicções consideradas. Então, se isso também é um fundamento subjetivo – isto é, fundamentação das coisas em juízos ponderados em equilíbrio reflexivo amplo – então tanto a pessoa religiosa quanto a secular estão no mesmo barco.” [17]

(NT: Além da referência na nota 17, ver os artigos Ateísmo E O Grande Terror Na Rússia Stalinista que é um outro capítulo deste mesmo livro de Avalos, traduzido pelo blog Rebeldia Metafísica e também escrito por Avalos e traduzido a partir de outro livro de Loftus pelo mesmo blog.)

A Ilusão de que Ateus não Possuem Motivação para serem Bons

Muitos cristãos alegam que os ateus simplesmente não possuem uma “motivação última” para serem bons, mesmo que possam entender o que significa ‘fazer o bem’ na maior parte das situações. O que motiva um ateu a ser uma pessoa boa e gentil? Por que deveríamos agir moralmente? Talvez este seja o ponto crucial do problema que os cristãos parecem estar martelando. JP Moreland aceita o fato de que os ateus podem e de fato realizar boas ações morais, “Mas o que eu estou discutindo”, diz ele, “é, o que seria o ponto? Por que eu deveria fazer essas coisas, se não forem satisfatórias para mim ou se eleas não estão em meus interesses?” [18]

CS Layman argumenta de forma semelhante. Ele ressalta que a principal diferença entre pontos de vista morais seculares e religiosos  é que “os únicos bens disponíveis a partir de uma perspectiva secular são bens terrenos”, enquanto que uma perspectiva religiosa “reconhece esses bens terrenos como bons, mas insiste que há bens não-terrenos ou  transcendentes.” Na ética secular, diz ele, o indivíduo deve pagar por seus atos aqui na terra. “Em contraste com a visão secular, não é difícil ver como a moralidade pode punir se existe um Deus do tipo cristão.” [19]

Antes de olharmos para a motivação atéia de ser bom, vamos primeiro analisar a motivação que o cristão tem de agir bem ao invés de agir mal. Cristãos afirmam que se descrermos e desobedecermos a Deus, nós iremos “fritar no inferno”, como Nielsen descreve. No entanto, obedecer Deus por causa disso, “é pura prudência disfarçada de moralidade …. [e]ste dificilmente é um bom motivo moral para fazer qualquer coisa.” [20] Se um cristão quer sustentar que ele obedece a Deus simplesmente porque ele ama a Deus, tudo que temos que fazer é perguntar-lhe se ele ainda obedeceria a Deus se Ele ameaçasse mandá-lo para o inferno caso ele se recuse a roubar e matar pessoas. Se ele obedecer com a finalidade de escapar do inferno, como eu acho que ele seria obrigado a fazer, então parece evidente que esta é a principal motivação para o cristão, quer ele adimita ou não. Este mesmo motivo seria semelhante a obedecer um ladrão que tem uma arma colocada contra sua cabeça. O método da ‘cenoura pendurada na ponta da vara’ de moralidade usando punição e recompensa é, no final, a mesma motivação que um ateu tem, exceto que as cenouras penduradas na ponta da vara são as recompensas e castigos que recebemos aqui na Terra, que são sociais e pessoais.

Além disso, um cristão que deseja praticar o mal tem sempre uma desculpa para praticar qualquer coisa errada ou malígna que desejar. Ele simplesmente dirá: “Deus entende, ele vai me perdoar.” Esta pode ser a justificativa para fazer qualquer coisa que ele quiser fazer. Eu sei, eu fiz isso, bem como todo cristão que já tenha ido intencionalmente contra sua própria consciência. Qualquer motivação que um cristão possa ter para ser bom irá simplesmente voar para fora da janela quando ele quiser fazer algo contra o que ele acredita ser o certo. De que outra forma tantos cristãos conseguem manter casos amorosos extraconjugais, se os consideram errados? O próprio fato de que muitos desses affairs duram meses e anos já nos diz quanto tempo esses cristãos podem agir de modo contrário à Bíblia e ainda assim sentir que Deus entende, e que Deus perdoa.

CS Layman está certo quando diz que com a visão secular, escolhas éticas devem gerar punições ao indivíduo aqui na terra, não existindo “motivação última” para fazer o bem. Mas a falta de uma “motivação última” para ser uma boa pessoa não implica que o ateu não tem uma fundamentação motivacional suficiente para ser uma boa pessoa. Há motivos abundantes aqui na terra para ser uma boa pessoa, e que começam com um plano geral de vida.

LP Pojman argumentou que é racional escolher e agir de acordo com um “plano de vida” geral, ainda que hajam muitas vezes nas quais eu possa ter de agir contra os meus próprios interesses imediatos ou de curto-prazo com o objetivo de manter tal plano. “Para ter os benefícios da amizade, amor mútuo, paz interior, orgulho ou satisfação moral e liberdade da culpa – deve-se ter um certo tipo de caráter confiável. No fim das contas, sempre vale a pena ter esses benefícios. De fato, a vida sem eles pode não valer a pena ser vivida.” “Caráter conta”, escreveu Pojman, e “hábitos nos levam a um comportamento previsível. Assim que obtemos o tipo de caráter necessário para a vida moral – assim que nos tornamos virtuosos – não seremos mais capazes de abrir e fechar a moralidade como se fosse uma torneira.” Com esse entendimento, “não há mais nada paradoxal em fazer algo que não seja do próprio interesse, pois apesar do ato moral individual poder entrar em conflito com um auto-interesse ocasionalmente, o plano de vida em que o ato está inserido e do qual seus atos fluem não é contra seu auto-interesse.” [21]

A conclusão aqui, afirma Kai Nielsen, é que “se é altamente implausível acreditar em Deus ou na imortalidade, então uma ética secular torna-se atraente …. [H]á algo a ser dito a uma pessoa que pode segurar firmemente em um propósito sem contar a si mesmo contos de fadas. Integridade moral, fraternidade e amor da humanidade valem a pena serem subscritos sem um pensamento que diga se tais virtudes serão recompensadas no céu ou não.” [22]

NOTAS

14. Sam Harris, Letter to a Christian Nation (New York: Knopf, 2006), pp. 18, 49. Vejam mais em Martin, The Case against Christianity, pp. 62-196, e Richard Dawkins, The God Delusion (Boston: Houghton Mifflin, 2006), pp. 235-72.

15. Paulo parece ser inconsistente aqui, o que leva Bart D. Ehrman a argumentar que há boas razões para pensar que ele originalmente não escreveu os versos que proíbem as mulheres de falar na igreja. Vejam Ehrman, Misquoting Jesus (New York: Harper- San Francisco, 2005), pp. 178-86.

16. Quanto ao fato de Hitler ter sido ateu ou não, Michael Shermer cita um texto de 1938 do alemão dizendo: “Acredito hoje que estou agindo conforme a vontade do Criador Todo-Poderoso. Ao repelir os judeus eu estou lutando para o trabalho do Senhor” Shermer argumenta que “Hitler e os nazistas não eram ateus.” Veja Shermer, The Science of Good and Evil, pp. 153-54. No entanto, ainda pode-se argumentar que Hitler estava “apenas explorando cinicamente a religiosidade do seu público”, de acordo com Richard Dawkins. No entanto, a alegação de que Hitler era um ateu “está longe de ser clara.” Veja Dawkins’s discussion in The God Delusion, pp. 272-78.

17. Moreland and Nielsen, Does God Exist, pp. 107-108. Para um excelente argumento de que a religião e o racismo anti-semita foram as principais causas do Holocausto nazista, ver o capítulo 12 do livro de Hector Avalos chamado Fighting Words: The Origins of Religious Violence (Amherst, NY: Prometheus Books, 2005).

18. Ibid., p. 118.

19. C. Stephen Layman, The Shape of the Good: Christian Reflections on the Foundations of Ethics (Notre Dame, IN: University of Notre Dame Press, 1991).

20. Moreland and Niesen, Does God Exist, p. 108.

21. Louis P. Pojman, Ethics: Discovering Right and Wrong, p. 188. Para defesas da moral secular, veja Kai Nielsen, Ethics without God (London: Pemberton Books, 1973); Shermer, The Science of Good and Evil; Richard Carrier, Sense and Goodness without God (2005), pp. 293-48; e Dawkins, The God Delusion, pp. 209-33.

22. Moreland and Nielsen, Does God Exist, pp. 108-109. Para ver como ateus não se comportam pior do que crentes, vá ao meu blog [Debunking Christianity] e faça uma pesquisa por “Godlessness Rare behind Bars,” “Does Religiosity Correlate Strongly to Charity?” e “Does Faith or Religious Activity Improve Health?”

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