Racionalidade é uma obrigação?

Muita gente boa por aí, e isso inclui certos ‘ateus de internet’, acha que a racionalidade é uma obrigação moral e que se trata do extremo oposto da fé. Só que eu não concordo muito com essa visão. A razão é muitas das vezes dispensável ou apenas não-mandatória nas nossas vidas e a fé não é a pior coisa que existe.

Por exemplo, temos a esperança. Ela é, em muitos casos, algo absolutamente irracional. A esperança de que um dia nossa vida irá melhorar; a esperança de que iremos nos curar de um câncer; a esperança de que nosso time de futebol será campeão. Desde que se mantenham certos limites, todas essas esperanças – que às vezes lutam contra chances impiedosas – são salutares. Para alguém com 45 anos que recebe dois salários mínimos por mês e sustenta uma família, qual a chance da vida se tornar melhor nos próximos 10 ou 15 anos? Pouqíssimas! Mas a esperança de que alguma coisa pode acontecer, como ganhar na mega sena, pode ser um alívio no final do dia. Uma válvula de escape. Acaba que é uma irracionalidade que nos alivia. É claro que se a pessoa se iludir demais e começar a confundir esperança com uma chance real e começar a dar asas demais a essa ideia, se ela começar a se desconectar da realidade, então ela terá problemas sérios. Como eu disse, há um limite.

Outro exemplo é o amor. Eu não acho que o amor seja algo racional. Veja o amor materno: que motivo racional uma mulher tem para amar uma pessoa que nasceu a duas horas? Ela pode ter motivos racionais para cuidar, mas para amar? Não creio. Mas isso não torna boa parte das mães incapazes de dar sua vida para proteger a prole duas horas após o parto. Tanto é irracional, que se a maternidade trocar os bebês de duas mães, elas vão amar os bebês trocados da mesma forma! Agora pensa: é racional amar uma pessoa que você amaria mesmo se fosse substituida por outra diferente sem que você soubesse? Lógico que não! Mas essa absoluta falta de critério racional no amor é sempre algo ruim? Lógico que não também! Puts, se amor fosse questão de razão, eu tava ferrado! E mais uma vez isso tem limites, na medida que não podemos amar sem nunca considerar os fatos. Se você é mulher e teu marido de trai, te deixa passando dificuldades para gastar com outras mulheres e não te dá a devida atenção, porque você vai continuar amando ele? Chega uma hora que o amor incondicional (irracional) para se ser bonito e vira burrice e ingenuidade.

Cuidado! Não estou aqui defendendo que amor seja algo menos sublime porque é irracional. A associação do amor com a irracionalidade que faço não visa fazer o primeiro compartilhar os defeitos do segundo, mas sim fazer o segundo ser engrandecido na carona do primeiro. Ora, se amor é um processo predominantemente irracional, então a irracionalidade não pode ser tão ruim como a pintamos, certo?

E até mesmo a espiritualidade entra nessa. A ideia de uma vida finita que termina no túmulo pode ser um pouco assustadora. A ideia de que somos frutos do acaso e de que não existe um criador que nos quer bem por trás de tudo também pode. A ideia de que os crimes dos outros e a virtude de si mesmo não serão respectivamente castigadas ou recompensadas, seja através de inferno/céu, seja através de karma ou mesmo através de reencarnações justas, soa de forma assustadora a muita gente. Não culpo as pessoas por acreditarem nisso. A vida às vezes é insuportável e um pouco de ilusão pode ser salutar. O problema, como sempre, são os que levam a ilusão a sério e a tornam parte da realidade. O problema são os que lutam para torná-la parte da realidade. São os que se aproveitam dos ingênuos. Sim, existe um limite e a história da religião ocidental passou quase todo seu tempo além dele, mas isso não quer dizer que não existam religiosidades e espiritualidades aceitáveis.

Não digo que pessoas religiosas são irracionais, mas sim que abrem mão da razão quando acreditam em certas coisas. Uma pessoa que acredita na existência de um deus que se confunde com a naturza em si não pode ser acusada de irracional. Einstein que o diga. Mas vamos ser honestos: alguém já foi capaz de provar estatiscamente o karma? Existem bons motivos para crermos na existência de almas? Será que realmente precisaremos de alguma divindade para explicar o funcionamento último do universo? Quem responde sim, está dando sua mera opinião, agindo de forma irracional no ponto de vista daquilo que é verdadeiro/falso. Mas repito, isso é normal. O problema mesmo é quando uma pessoa acha que sua opinião é um fato que deve ser aceito. Eu, por exemplo, não acho que ninguém é melhor por ser ateu.

E aos ateus que discordam dessa minha última declaração e que dizem que a fé é o oposto total da razão, eu digo: vocês estão errados. A ingenuidade também é oposta à razão. A falta de questionamento também é. A ignorância também é. Quem falta com a razão não age com fé necessariamente, pode estar agindo meramente de forma ingênua. E quem falta com fé, não necessariamente está agindo com a razão. O amor de uma mulher por um recém-nascido que não é seu não é fé nem razão. E uma pessoa que se sente melhor acreditando que as pessoas más reencarnarão como uma barata e que ela reencarnará como uma pessoa muito rica porque sempre foi justa e honesta está agindo com fé, mas uma fé até certo ponto racional: a vida é dura e feia, e uma pequena ilusão a torna menos insuportável. E você quer algo mais racional do que tornar a vida mais suportável?

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