Pseudoceticismo: Pode isso, Arnaldo?

Existe uma tecla que bato há muito tempo e que agora vou explicar melhor: duvidar de alguém é ceticismo? A resposta é: não. Faz sentido você acreditar firmemente que A seja verdadeiro, de forma absolutamente irreversível, e depois vir dizer que é um cético em relação a alegações de que não-A seja verdadeiro? Difícil, né? Mas tem gente que aje assim. E como se apoderar de um rótulo de cético quando na verdade não é cético é coisa de pseudocético, isso entra na série de pseudoceticismo.

Comecemos com o conceito de investigação. Vamos usar como exemplo a investigação policial, para ficar fácil. O que um policial faz quando acontece um crime? Ele tenta descobrir quem o cometeu, como e porque. Tudo isso importa na hora do julgamento. Ele não sabe quem nem como e então ele coleta fatos e tenta montar uma explicação que envolva todos eles. Ele às vezes lança mão de hipóteses e faz predições sobre elas, para depois testá-las e ver se elas se mostram verdadeiras – ou seja, ele estabelece um suspeito e consegue um mandato para revirar as coisas dele e ver se ali existe uma prova. Enfim, o detetive não sabe nada e tenta descobrir o que aconteceu.

Suponha que um policial saiba quem cometeu um crime, como ele foi cometido e que possa provar isso. Ora, então pra que investigar? A abertura de um inquérito seria mera formalidade burocrática, pois a investigação mesmo não existiria – ela só faz sentido se ele o policial não souber com certeza o que aconteceu. Vejam bem: suponha que o policial deu sorte de estar presente no momento do crime e ter presenciado tudo que aconteceu, de modo a saber quem foi e como provar isso, então ele não precisa investigar nada. Mas se ele for na imprensa e disser que resolveu este crime após uma longa investigação, ele estará mentindo, provavelmente com o propósito de conseguir uma promoção.

Alguém pode dizer: “e se o policial sabe quem foi, mas não pode provar?” Bem, então lamento informar que a não ser que ele seja testemunha do crime, então ele não sabe quem foi. Se ele não viu e nem pode convencer ninguém de sua “conclusão”, então como ele pode saber quem foi? Ora, não pode, ele está dando uma opinião, achando que é fato.

E no debate é igual, cara! O ceticismo é um método de investigação, então não adianta dizer que é cético se você tem certeza. Não faz sentido investigar algo que a pessoa pressupõe saber. Se você tem certeza absoluta que Deus criou as espécies animais da forma como são hoje, como você pode alegar que é um cético quanto à evolução? VC num é cético porr% nenhuma cara, você é um crédulo quanto à falsidade da evolução.

A investigação pressupõe, por via de regra, a ausência de certeza sobre o objeto de estudo.

Daí você resolve dar uma de malandro e pega um texto de um cientista e diz que o investigará à procura de fraudes. Não, você não tá investigando porr% nenhuma também não. Você está apenas justificando sua crença na falsidade. Procurar não é investigar. A menos que você não saiba quais são os erros e falácias cometidos e que está investigando quais são, então você não está investigando nada. E mesmo que sua investigação seja essa, isso não o torna cético: você parte do pressuposto que erros capazes de invalidar toda a ideia estão lá e que eles serão achados.

Veja bem: quando um crime acontece, um policial parte do pressuposto que existe pelo menos um culpado, mas não pode partir do pressuposto que fulano seja o culpado. Da mesma forma, quando um texto do qual o cético discorda é apresentado, ele parte do pressuposto de que existem erros (nada é 100% correto), mas que erros que comprometem todo texto podem estar lá ou não. Dizer que este tipo de erro existe e que você vai encontrar não te torna cético.

Vamos ver de outra forma: ceticismo como dúvida metódica. Uma alegação ganha força quando é corroborada e perde força quando é contrariada. A confiança em uma alegação nunca será 100% mas pode chegar a 0%. Se alguém alega que nenhum corvo é preto, e outra pessoa a apresenta um corvo preto, então a confiança que tenho na alegação inicial é de 0%. Mas se alguém alega que todos corvos são pretos e me traz 10 mil corvos pretos, eu posso até pensar: “hum… mas quem garante que não exista um corvo de outra cor perdido por aí?”. A confiança pode até tender a 100%, de modo que seja irracional considerar seriamente algo diferente, mas tomar isso como verdade, não pode.

Isso não tem nada a ver com não aceitar algo e dizer que seus argumentos contrários representam uma dúvida metódica. Não existe método na insistência ou na ingenuidade de procurar contraprovas contra aquilo que você julga ser falso de qualquer maneira. Dúvida metódica não é confirmação planejada. Entendam isso, pelo amor de Deus!

E ainda tem gente que se declara algo como criacionista cético. O criacionismo é verdadeiro e o criacionista cético investiga os “evolucionistas” a fim de descobrir suas fraudes. Investiga uma ova! Eles estão só tentando buscar os erros. Se ainda não investigaram, porque se declaram criacionistas, em primeiro lugar? Ora, essa declaração, esse posicionamento, não deveria ser resultado de uma investigação? Não faz sentido tratá-la como pressuposto da investigação!

Se você é um cara normal, então você chega a uma conclusão depois que empreende uma investigação. Agora se você é um babaca, então você chega a uma conclusão e a usa como motivação da sua “investigação”.

E depois ainda fica todo-todo quando a investigação, vejam que surpresa, corroborou sua ideia inicial! Oh! que espantoso! Esse método investigativo é mesmo uma dádiva!

E o pior é que pra todo lado que olho, só vejo esse tipo de coisa. Não dá pra engolir. Criacionista cético. Ufólogo cético. Astrologista cético. Conservador cético. Paranormal cético. Até mesmo possíveis comunistas céticos ou ateus céticos… pode isso, Arnaldo?

Não pode, a regra é clara…

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2 opiniões sobre “Pseudoceticismo: Pode isso, Arnaldo?”

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