Falácias: Erros de Categoria

Erros de categoria são falácias informais (válidas porém não-sólidas) e que são comuns especialmente no dia-a-dia. Conforme eu e o Gilmar já havíamos explicado em , pode-se dizer que:

“Um erro de categoria ocorre quando se confunde o tipo lógico, ou categoria, de uma certa expressão. Por exemplo, se alguém se refere a um argumento como “inconsistente”, a uma proposição como “inválida” ou a um conjunto de proposições como “sólido”, está cometendo erros categóricos ao tentar concatenar inadequadamente predicados com sujeitos aos quais eles são inaplicáveis; “consistência” é um atributo de conjuntos de proposições, “validade” e “solidez”, de argumentos.”

Neste sentido, alguém poderia argumentar que:

A pressão exercida sobre um líquido faz variar seu volume como consequência de sua rigidez.

A rigidez de um material é uma característica inerente ao próprio material e que relaciona uma força à qual ele é submetido com o seu alongamento. Quanto mais rígido, menos o material se deforma (ver aqui). Contudo, a rigidez é uma propriedade dos sólidos e a relação entre força e variações volumétricas para líquidos e gases é descrita por outras leis e propriedades. Desta forma, não se pode afirmar que líquido é rígido sem incorrer em um erro de categoria.

Sobre ser um erro informal, vejamos a forma e o silogismo do argumento acima:

A rigidez relaciona força (ou pressão) com alongamento ou deformação.
Líquidos possuem rigidez.
Logo, a rigidez relaciona a pressão de um líquido com seu volume.

A é B.
C é A.
Logo, C é B.

É fácil perceber que o argumento é válido quando se analisa sua forma. Ninguém se atreveria a dizer que este argumento está incorreto do ponto de vista lógico. O seu erro está na premissa dois que afirma que líquidos possuem rigidez – esta é uma característica de sólidos.

Mas atenção! O seguinte argumento: “O gelo é sólido, logo válido.” não é um erro de categoria, mas uma homonímia sutil ou um equívoco. Tanto o gelo quanto um argumento podem ser sólidos, mas cada um dá um sentido diferente ao adjetivo. Quando se estende o argumento à sua forma silogística, percebe-se que a primeira premissa apresenta solidez em um sentido e que a segunda apresenta no outro sentido. Esta falácia não é, portanto, um erro de categoria.

Os erros de categoria mais comuns são as confusões entre todo e parte. Assim como não se pode dizer que premissas são válidas porque validade é uma característica de argumentos, também não se pode dizer que a parte de um todo que possui uma característica X também possua tal característica. Ou vice-versa.

Quando aplica-se ao todo uma característica de uma das partes, temos uma Falácia da Composição. Por coincidência, pode-se chegar a uma conclusão verdadeira, porém ainda assim falaciosa, quando se usa tal falácia, pois algumas vezes todo e parte possuem características comuns. Vejamos dois exemplos:

Células humanas são invisíveis a olho nu.
O corpo humano é composto de células.
Logo, o corpo humano é invisível a olho nu.

Átomos são invisíveis a olho nu.
Moléculas de água são compostas por átomos.
Logo, moléculas de água são invisíveis a olho nu.

O primeiro argumento é claramente falacioso, mas o segundo pode enganar. Mas vamos aos poucos. Em ambos os argumentos, as duas premissas são aparentemente verdadeiras, porém nenhum dos argumentos é sólido! Estranho, não é mesmo? Os argumentos são válidos e suas premissas são verdadeiras, então como podem não ser sólidos? O que acontece aqui é que uma confusão na forma como as premissas se relacionam: características da parte podem pertencer ao todo ou não. Um argumento sólido deve ser contruído com o objetivo de mostrar se tal portabilidade é possível. Uma pressuposição de que é possível quando na verdade não é se trata de um erro de categoria.

No segundo caso, a conclusão é verdadeira e isso pode enganar. Não devemos ver a falácia como uma consequência de uma conclusão falsa mas como resultado de um raciocínio inválido. Sim, é verdade que não podemos enxergar moléculas de água mas isso não ocorre porque são feitas de átomos. A Torre Eiffel também é feita de átomos e mesmo assim quem vai a Paris consegue vê-la a olho nu sem nenhum problema.

Essa falácia lembra a Generalização Apressada, mas são erros diferentes. A generalização é uma inferência sem garantia sobre o todo baseada em uma pequena amostra. Neste caso, não se assume que o todo possui, como via de regra, características das partes mas sim que um conjunto insuficiente de observações sustenta tal generalização. A diferença é um pouco sutil, mas existe. A falácia da composição exibe um erro na definição e a generalização apressada exibe um erro de inferência.

O contrário da Falácia da Composição é a Falácia da Divisão: aplica-se à parte uma característica do todo. Vejam este exemplo: “Como o cérebro tem consciência, cada célula do cérebro deve ter consciência”. Nada mais simples.

Existe um erro de categoria similar à Falácia da Divisão que é conhecida como Falácia Ecológica. Esta não necessariamente diz respeito a problemas ecológicos e de meio ambiente, mas sim a problemas que envolvem conclusões falsas a respeito de estatísticas. Ocorre quando tentamos conferir a um indivíduo uma característica que o grupo ao qual ele pertence em uma estatística possui.

Por exemplo, numa escola a turma A tem média 51 e a turma B tem média 50. Uma pessoa que diz que um aluno qualquer da turma A provavelmente terá uma média maior que um aluno da turma B comete uma falácia ecológica. Suponhamos que todos os alunos da turma A tenham nota 51 e que todos da turma B tenham nota 50. A conclusão acima seria, neste caso, verdadeira. Contudo o raciocínio ainda assim seria falso. Façamos outra suposição, desta vez que as notas dos alunos são as seguintes:

  • Turma A: 80% dos alunos possuem 40 pontos e 20% possuem 95 pontos. Média: 51
  • Turma B: 50% dos alunos possuem 45 pontos e 50% possuem 55 pontos. Média: 50

Se escolhermos aleatoriamente um aluno da turma A e outro da turma B, temos quatro possibilidades:

  • A – 40, B – 45 (B vence, 40% probabilidade)
  • A – 40, B – 55 (B vence, 40% probabilidade)
  • A – 95, B – 45 (A vence, 10% probabilidade)
  • A – 95, B – 55 (A vence, 10% probabilidade)

A primeira linha quer dizer que temos 40% de chance de escolher um aluno da turma A com nota 40 e um da B com nota 45. Como conclusão, neste cenário um aluno qualquer da turma A tem 80% de chance de ter nota menor que um aluno da turma B mesmo com as médias das turmas “dizendo o contrário”.

O grande erro neste caso foi atribuir a cada indivíduo uma característica de seu agrupamento estatístico. Numa sala em que estamos presentes eu e o Eike Batista, a renda média é milionária, mas infelizmente isso não quer dizer que eu sou rico!

Referências:

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