A Ilusão Cristã da Superioridade – Parte 2: Padrões Éticos

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Título Original: A Ilusão Cristã da Superioridade Racional e Moral
Autor: John W. Loftus
Fonte: Why I Became an Atheist – Capítulo 2 (pgs. 35-45)
Tradução: Marco Aurélio Suriani
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 Parte 1: As superioridades racional e moral
Parte 3: A Ilusão de que Ateus São Imorais

A Ilusão de um Padrão Ético Cristão Superior

Existem duas bases filosóficas que sustentam os padrões éticos cristãos. A primeira é conhecida como a teoria do comando divino. Vou tratar dessa teoria primeiro. A segunda base é a teoria da lei natural, que irei tratar brevemente depois. Eu mostrarei que nenhuma dessas bases para a ética cristã oferece aos crentes um acesso especial à verdade moral que os não-crentes também não compartilham. As fundações morais cristãs não são superiores.

A teoria do comando divino é declarada da seguinte forma: Moralidade é baseada naquilo que Deus comanda; nenhuma outra razão é necessária para que algo seja uma obrigação moral exceto o fato de Deus ter ordenado isso. Se Deus ordenou algo, então isso é certo. Se Deus proibe isso, então é errado. Sobre esta teoria, Sócrates fez uma pergunta fundamental: A conduta é correta porque deuses a comandaram, ou deuses a comandam porque ela é correta? Este dilema é encontrado no obra Eutífron de Platão e conhecida como o Dilema de Eutífron.

Desde que Sócrates fez essa pergunta, todo filósofo que lidou com a ética cristã comentou sobre ela. E a maioria dos comentaristas irá adimitir que a teoria do comando divino tem alguns problemas intelectuais gigantescos para superar. Se dizemos, por um lado, que algo é certo porque Deus ordena que assim seja, então a única razão pela qual fazemos algo é que Deus assim ordena. Mas isso torna os comandos de Deus arbitrários porque não existe outra razão pela qual Deus ordene algo tirando o fato de que ele assim o fez. Ele somente manda o que ele manda. Se este é o caso, Deus poderia ter nos ordenado fazer algo horrivelmente mau simplesmente declarando que isso é bom. Se Deus é o criador da moralidade assim como ele supostamente é o criador do universo, então ele poderia ter declarado qualquer ato como sendo bom, e não haveria nenhuma razão moral acima dEle para distingui-lo do mal. De acordo com John Arthur, isso nos apresenta a “posição aparentemente absurda de que até mesmo as maiores atrocidades podem ser não somente aceitáveis mas também moralmente necessárias caso Deus as ordene.” [4]

WL Craig na verdade tem que engolir esse sapo quando explica porque Deus alegadamente mandou os Israelitas massacrar os Cananeus. Craig escreveu: “o problema não é que Deus acabou com a vida dos Cananeus. O problema é que Ele ordenou que os soldados Israelitas acabassem com eles. Isso não é como ordenar alguém a cometer assassinato?  Não, não é. Ao invés disso, como nossas obrigações morais são determinadas por comandos divinos, é ordenando alguém a fazer algo que, na ausência de comando divino, teria sido assassinato. O ato era moralmente obrigatório para os soldados Israelitas em virtude do comando de Deus, apesar de que se tivessem feito isso por iniciativa própria, seria errado.” [5]

Isso torna todo o conceito da bondade de Deus sem sentido. Se nós pensarmos que os comandos de Deus são bons meramente porque Ele os comandou, então seus comandos são, bem, apenas seus comandos. Não podemos chamá-los de bons, pois para chamá-los de bons nós deveríamos possuir um padrão acima deles para declarar que eles são de fato bons comandos. Mas nesta teoria eles são apenas comandos de Deus. Deus não nos ordena fazer coisas boas; ele apenas ordena que façamos coisas. John Arthur argumentou, “Tudo que poderia significar é que Deus quer que façamos o que ele quer que façamos.” E Deus também não é um bom Deus, ele é apenas Deus. Não haveria nenhum padrão acima de Deus para que sejamos capazes de proclamar que Deus é bom. Ele é apenas, bem, Deus.

Se dizemos, por outro lado, que Deus comanda o que é certo porque é certo, então existe um padrão maior ainda de moralidade ao qual se está apelando, e se este é o caso, então existe um padrão maior acima de Deus que é independente dele e que faz seus comandos serem bons. Ao invés de declarar o que é bom, agora Deus reconhece o que é bom e nos comanda de acordo com isso. Mas de onde este padrão veio se ele está supostamente acima de Deus? Caso exista, este padrão moral é que é o verdadeiro Deus.

A teoria do comando divino se encontra em tanto descrédito nos cículos de fiolosofia atuais que somente teorias do comando divino modificadas têm sido discutidas. O apologista cristão JP Moreland alega, “Eu não defendo a teoria do comando divino… [E]sta visão implica que moralidade está meramente fundada na vontade de Deus, em oposição à sua natureza. Esta não é a minha visão. Eu acho que a vontade de Deus é ultimamente expressa através de manter sua natureza. Moralidade é ultimamente fundada na natureza de Deus, não de forma independente de Deus.” [6] Robert M Adams e Philip Quinn ambos defendeu esta visão [7]. Adams, por exemplo, alega que Deus deve ordenar de acordo com o que é amor, ou de maneira consistente com o que é amor, porque esta é sua natureza. Deus é amor. Portanto, os comandos de Deus fluem de sua natureza amorosa. Deus só pode ordenar o que é bom ou amável. Mas esta diferença sobre a qual Adams fala não faz diferença alguma. Não adianta se esquivar atribuindo os comandos de Deus à sua suposta natureza, porque ainda queremos saber se a natureza de Deus é boa ou não. A não ser que haja um padrão moral que mostre que Deus é bom e que não seja o mero fato de que Ele declara que sua natureza seja boa, nós ainda não sabemos se Deus é bom. De novo, Deus é, bem, apenas Deus.

A crítica básica à visão de Adams foi colocada de maneira suficientemente adequada pelo falecido Louis P. Pojman: “Se nós preferimos a teoria do comando divino modificada à teoria do comando divino, então nós devemos dizer que a teoria modificada do comando divino é falsa, e a teoria do comando divino se torna equivalente a: Deus ordena o bom (ou o correto) porque ele é bom (ou correto), e o bom (ou correto) não é bom (ou correto) simplesmente porque Deus ordena isso.” Portanto, “nós podemos descobrir nossas obrigações éticas através da razão, independente do comando de Deus. O que é bom para suas criaturas o é objetivamente. Não precisamos que Deus nos diga que causar sofrimento desnecessário é ruim ou que aliviar o sofrimento é bom; a razão pode fazer isso. Começa a parecer que a verdadeira versão da ética é o que chamamos de ‘ética secular’.”

“Se Adams deseja alegar que a bondade mais o comando de Deus é que determinam o que é correto,” Pojman pergunta, “o que Deus adiciona ao conceito de ‘correto’ que já não estava lá só com a bondade… Se amor ou bondade estabelcem o ato A, o que A ganha em ser ordenado por Deus? Materialmente, nada.” [8] É neste ponto em que a ética modificada do comando divino e a ética secular compartilham a mema fundação. Por que? Porque  assim como Pojman, devemos perguntar que diferença faz se princípios éticos vêm de “Uma um autoridade pessoal especial (Deus)  ou da autoridade da razão?” Por esta razão Kai Nielsen argumenta que a teoria do comando divino em suas formas modificadas “não é contrária a ética secular,” e consequentemente, “não ameaça… a ética secular.” [9]

A segunda base filosófica que fundamenta a ética cristã é a teoria da lei natural. Este é o sistema ético de Aristóteles adotado por Tomás Aquino, e que foi o sistema dominante na história da igreja. Trata-se de uma visão antiquada da moralidade atual, pois pressupõe que o mundo possua valores embutidos por Deus, de modo que elas possam ser derivadas da natureza. [10] Mas se as teorias da lei natural são verdadeiras, então, de acordo com James Rachels, “Isto significa  que o crente religioso não possui acesso especial à verdade moral. Tanto o crente quanto o não-crente estão exatamente na mesma posição. Deus fez todas pessoas racionais, não apenas os crentes; então tanto para os crentes quanto para os não-crentes, fazer julgamentos morais responsáveis é uma questão de ouvir a razão e seguir suas diretrizes.” [11]

E este é exatamente o meu ponto. As fundações da moralidade cristã, baseada em pressupostos cristãos, não são superiores à moralidade ateísta. Nenhuma dessas duas bases para a ética cristã oferece aos crentes um acesso especial à verdade moral que não-crentes não possuem. Os fundamentos morais do cristianismo simplesmente não são superiores.  Protágoras estava correto, “O homem é a medida de todas as coisas, das coisas que são, enquanto são, das coisas que não são, enquanto não são.” (NT: entenda melhor essa citação aqui.) É isto que todos nós fazemos. A única diferença é que teístas alegam que sua moralidade veio de Deus. No meu blog, eu dediquei vários posts a este tópico. Argumentei que o “interesse pessoal racional” pode suportar a moralidade e que o cristianismo na verdade opera pelo mesmo padrão moral (veja “Um Ateu Ético”)

Além disso, existem muitos sistemas éticos de pensamento que não requerem uma crença prévia em Deus, como teorias do contrato social, utilitarismo, ética da virtude, Kantianismo e a teoria da justiça de John Rawls. Relativismo ético também não é o bicho papão que alguns cristãos fazem parecer, já que Michael Martin argumenta que relativismo “é compatível em completa concordância com todos assuntos éticos,” enquanto que o “absolutismo ético é compatível com uma discordância generalizada.” [12]

Michael Shermer constrói um caso interessante em seu livro The Science of Good and Evil no qual ele escreve, “moralidade existe fora da mente humana no sentido de ser não somente um traço de indivíduos humanos, mas um traço humano; isto é, um universal humano.” De acordo com ele, nós “herdamos” de nossos ancestrais Paleolíticos nossa moralidade e ética, então nós “as ajustamos às nossas preferências culturais, e as aplicamos às nossas circunstâncias históricas únicas.” Como tal, “princípios morais, derivados do senso moral, não são absolutos, no qual se aplicam a todas as pessoas em todas as culturas sob todas as circunstâncias e em todo o tempo. Os princípios morais também não são relativos, inteiramente determinados pela circunstância, cultura e história. Princípios morais são provisioramente verdadeiros – isto é, eles se aplicam à maioria das pessoas na maioria das culturas na maioria das circunstâncias e durante a maioria do tempo.” [13]

Continua…

NOTAS

4. John Arthur, “Morality without God,” in Contemporary Readings in Social and Political Ethics, ed. Garry Brodsky et al. (Amherst, NY: Prometheus Books, 1984).

5. Não no website dele, http://www.reasonablefaith.org, na seção Q & A Archives e veja “The Slaughter of the Canaanites.”

6. J. P. Moreland and Kai Nielsen, Does God Exist: The Great Debate (Nashville: Thomas Nelson, 1990), pp. 130-3 1; e também em Moreland, Scaling the Secular City: A Defense of Christianity (Grand Rapids, MI: Baker Book House, 1987).

7. Veja Robert M. Adams, “A Modified Divine Command Theory of Ethical Wrongness,” in Religion and Morality: A Collection of Essays, ed. Gene Outka and John P. Reeder (New York: Anchor Books, 1973); “Moral Arguments for Theistic Belief,” in Rationality and Religious Belief, ed. C. F. Delaney (Notre Dame, IN: University of Notre Dame Press, 1979); and Phillip Quinn’s Divine Commands and Moral Requirements (Oxford: Oxford University Press, 1978).

8. Louis P. Pojman, Ethics: Discovering Right and Wrong, 5th ed. (Belmont, CA: Wadsworth, 2006), pp. 255-56.

9. Citado em Moreland & Nielsen, Does God Exist, p. 99; para uma crítica adicional da teoria de ordem divina ver Michael Martin, The Case against Christianity (Philadelphia: Temple University Press, 1991), pp. 229-51.

10. Éticas da virtude modernas são mais interessantes porque essas teorias estão se distanciando da antiga visão tomista de leis naturais.

11. James Rachels, The Elements of Moral Philosophy (New York: McGraw-Hill, 1993), p. 53.

12. Michael Martin, Atheism: A Philosophical Justification (Philadelphia: Temple University Press, 1990), p. 9.

13. Michael Shermer, The Science of Good and Evil (New York: Henry Holt, 2004), pp. 18-23.

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