Craig x Ehrman Parte 4: A primeira Refutação de Craig

O Fiasco Desprezível de Hume e de Ehrman

Transcrição do debate em português: Arquivo pdf
Transcrição do debate em inglês: Arquivo pdf
Vídeo com áudio em inglês e legenda em português: Blog Deus em Debate

Agora apresento a primeira resposta de Craig a Ehrman. Ao todo, cada debatedor tem direito a um discurso de abertura, duas respostas e uma conclusão.

1. O Argumento Matemático de Craig

Nesta rodada, Craig criticou Ehrman por usar o mesmo argumento que Hume em seu ensaio chamado Of Miracles (Sobre Milagres). Craig apresenta então a crítica feita por um agnóstico chamado John Earman apresentado num livro chamado Hume’s Abject Failure: The Argument Against Miracle (A Falha Desprezível de Hume: O Argumento Contra Milagres.) O argumento apresentado é baseado na Teoria de Bayes. Inicialmente, ele faz três definições:

B = Conhecimento do Mundo (Background)
E = Evidência Específica (tumba vazia, aparições post-mortem etc)
R = Ressurreição de Jesus

Usando estas três definições é possível que se calcule as seguintes probabilidades:

Pr(R|B & E) = Probabilidade de R ser verdadeiro, dado que B e E o são
Pr(R|B) = Probabilidade de R ser verdadeiro, dado apenas que B é verdadeiro
Pr(E|B & R) = Probabilidade de E ser verdadeiro, dado que B e R o são
Pr(¬R|B) = Probabilidade de R ser flaso, dado apenas que B é verdadeiro
Pr(E|B & ¬R) = Probabilidade de E ser verdadeiro, dado que B é verdadeiro e R é falso

O Teorema de Bayes diz, sobre todas essas probabilidades individuais, que:

Craig explica que Pr(R|B) é a probabilidade intrínseca da ressurreição, ou seja, o quão provável a ressurreião é dado nosso conhecimento de fundo. Já Pr(E|B & R) representa o poder explanatório a hipótese da ressurreição, ou seja, o quanto provável a ressurreição torna a evidência. Pr(¬R|B) x Pr(E|B & ¬R) representa a intrínseca probabilidade e o poder explanatório de todas as explicações naturalistas alternativas à ressurreição de Jesus.

1.a. O Peso do Termo Ignorado – O Erro Escandaloso de Ehrman

Craig diz então que Ehrman comete o erro de confundir as probabilidades do milagre ter acontecido dadas as evidências e os nossos conhecimetos de fundo – Pr(R|B & E) – com a mera probabilidade intrínseca do milagre ter ocorrido – Pr(R|B) – ignorando todo o restante. Quando se leva as demais probabilidades em conta, como o numerador (parte de cima) aparece no denominador somado com outro termo, então pode-se reescrever a equação da seguinte forma:

Onde X = Pr(R|B) x Pr(E|B & R) e Y = Pr(¬R|B) x Pr(E|B & ¬R). Neste caso, se Y for muito pequeno, então a probabilidade de Pr(R|B & E) se torna aproximadamente X/X = 1, ou seja, quanto menor Y, maior a certeza de que Jesus tenha ressuscitado. Ehrman não pode ignorar este termo e tem a obrigação demostrar que existe uma explicação naturalística alternativa à ressurreição.

Ao erro de Ehrman de ter ignorado Y, Craig chamou de “Erro Escandaloso de Ehrman.”

1.b. Confusão de Termos

Craig afirma também que Ehrman confunde o significado do termo Pr(R|B) como sendo a chance de Jesus ter revivido naturalmente da morte com a chance dele ter ressuscitado sobrenaturalmente da morte. O primeiro caso Craig reconhece ser algo fantasticamente improvável, mas que não existe uma boa razão para considerar o fato de Deus ter ressuscitado Jesus dos mortos de maneira sobrenatural.

2. A posição auto-contraditória de Ehrman

Craig diz aqui: “A fim de mostrar que esta hipótese é improvável, você teria de mostrar que a existência de Deus é improvável. Mas Dr. Ehrman disse que um historiador não pode dizer nada sobre Deus. Portanto, ele não pode dizer que a existência de Deus é improvável. Mas se ele não pode dizer isto, ele também não pode dizer que a ressurreição de Jesus é improvável. Portanto, a posição do Dr. Ehrman é literalmente autocontraditória.”

3. A Mancada de Ehrman

Ehrman havia afirmado anteriormente que é contraditório afirmar que um milagre – que é a maior das explicações improváveis – é a explicação mais provável. Mas Ehrman só diz isso porque confunde Pr(R|B & E) com Pr(R|B). A probabilidade do primeiro pode ser muito alta enquanto a do segundo pode ser muito baixa. Desse modo, não é contraditório considerar a ressurreição como a hipótese mais provável.

4. Outras Considerações

Em seu tempo final, Craig faz algumas considerações menores sobre o discurso de abertura do oponente.

4.a. Fontes Históricas Ideiais

Craig reclama que os critérios de fontes históricas ideais apresentados por Ehrman são muito altos e que visam apenas estabelecer uma barreira irrealmente intransponível a fim de criar a ilusão de que os evangelhos não podem transpô-los. Craig afirma que o importante não é que os relatos sejam tão bons quanto gostaríamos que fossem, mas sim que sejam suficientes para estabelecer os quatro fatos – e que eles de fato o são.

4.b. A Importância das Inconsistências

Craig relembra que as contradições só são importantes se 1) as inconsistências forem insolúveis, 2) disserem respeito a partes importantes da narrativa e não a detalhes e 3) a ocorrência de erros em relatos posteriores diminuirem a confiabilidade de relatos mais próximos aos fatos. Craig mostra então que os quatro evangelhos concordam nos principais pontos da história de Jesus.

4.c. A Factualidade dos Evangelhos

Por fim, Craig afirma que o próprio Ehrman já adimitiu que os quatro fatos apresentados  são históricos. Ele cita então NT Wright, que afirma que a tumba vazia e que as aparições post-mortem são “virtualmente certezas”, assim como a morte de Augustus no ano de 14 dC. Deste modo, este não é um debate sobre os fatos, mas sobre a melhor explicação para os fatos. Ehrman não teria debatido com um argumento histórico, as com um argumento filosófico falacioso e que portanto não há razão para deixar de crer na historicidade da ressurreição de Jesus.

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2 opiniões sobre “Craig x Ehrman Parte 4: A primeira Refutação de Craig”

  1. Isso me parece ser um argumento meio que desonesto do Craig.
    Nunca vi uma publicação de algum historiador utilizando o Teorema de Bayes (só talvez o Richard Carrier). Aliás, como o Craig sabe algum dos valores Pr(R|B & E), Pr(R|B), Pr(E|B & R), Pr(¬R|B) ou Pr(E|B & ¬R) para poder calcular a probabilidade final?

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    1. Rodrigo, você não perde por esperar. O próprio fato dos apologistas brasileiros não repetirem isso à exaustão já é bom indicativo da qualidade do argumento.

      Sobre ele não saber os valores, isso até que não chega a ser o maior dos problemas não. A abordagem de analisar a equação fazendo comparações entre probabilidades (tipo.. se Pr(A) >>> Pr(B), então Pr(C) tende a zero) já é capaz de dar indicadores paleativos confiáveis.

      O problema é que ele erra ao tentar fazer isso. E erra na interpretação do significado dos termos. Nas próximas semanas (ou talvez semana que vem mesmo, se der tempo) coloco um post sobre os erros de Craig nessa rodada. Acredite-me, você realmente vai se surpreender.

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