A Ilusão Cristã da Superioridade – Parte 1: As superioridades racional e moral

Uma das piores características de muitos apologistas é a sua arrogância, que os leva a um mundo onde o cristianismo é uma religião perfeita ou pelo menos que é a melhor ideologia que existe. Tratam outras religiões com respeito só na hora de fazer cultos ecumênicos ou na hora de se aliar contra ateus – que são tratados como escória da humanidade. “Ateus mentem em debates e livros.” “Ateus possuem racionalidade debilitada.” “Ateus não possuem moralidade.” “Ateus devem sofrer eternamente porque não acreditam em Deus enquanto eu mereço a paz eterna.” O texto de JW Loftus, cuja tradução coloco a seguir, é uma crítica a tal comportamento. Ele oferece razões facilmente compreensíveis para que um cristão deixe de achar que pertence ao melhor sistema de pensamento humano, mesmo sem deixar de achá-lo correto ou mesmo sem passar a considerar outros sistemas menos incorretos.

Eu não sou arrogante. Sou somente bem melhor do que você.

====================================================
Título Original: A Ilusão Cristã da Superioridade Racional e Moral
Autor: John W. Loftus
Fonte: Why I Became an Atheist – Capítulo 2 (pgs. 35-45)
Tradução: Marco Aurélio Suriani
====================================================

Parte 2: Padrões Éticos
Parte 3: A Ilusão de que Ateus São Imorais

Eu vou começar com aquilo que muitos cristãos assumem sobre a fé deles. Eles assumem um certo tipo de superioridade racional e/ou moral sobre qualquer outro sistema de crença e de pensamento, especialmente sobre o ateísmo. De acordo com eles, suas crenças são racionalmente superiores de modo que o cristianismo vence com uma mão nas costas no mercado de ideias. Eles acreditam que podem montar um caso convincente a favor da crença no cristianismo em cima de qualquer outro sistema de crença ou de pensamento.  Da mesma forma, de acordo com eles, sua fundamentação moral é também superior de modo que o cristianismo fornece a única base suficiente para agir moralmente na vida. Outros sistemas morais ou não o fornecem ou não o conseguem fornecer. Permita-me oferecer algumas críticas a ambos os pressupostos, um por vez.

A Ilusão da Superioridade Racional

A maneira como os cristãos pensam sobre os ateus em geral, e sobre os ex-cristãos em particular, é derivada daquilo que meu amigo Dr. James F. Sennett chama de Ilusão da Superioridade Racional [1]. Sennett argumenta contra a crença de que pessoas que rejeitam o cristianismo o fazem por serem ignorantes, estúpidas ou desonestas com os fatos. Ou seja, ele argumenta contra a ideia de que uma rejeição racional completa do cristianismo é impossível. Isto é uma ilusão, ele alega. Entretanto, como um cristão filósofo ele argumenta que esta é uma ilusão desnecessária devido ao fato de que apesar de sua fé ser “não-convincente racionalmente para todos”, ela ainda é “uma fé racional.”

Como exemplo desta ilusão, Sennett cita Bill Bright, o falecido fundador e presidente da Cruzada Estudantil para Cristo, que escreveu: “Durante os cinquenta e cinco anos em que compartilhei a boa nova do Salvador … eu conheci pouquíssimos indivíduos que consideraram honestamente a evidência e ainda assim negaram que Jesus Cristo é o Filho de Deus e o Salvador da humanidade. Para mim, a evidência que corrobora a divindade do Senhor Jesus Cristo é esmagadoramente conclusiva para qualquer um que busque a verdade de forma honesta e objetiva.”

Como outro exemplo mais suave desta ilusão, considere o livro de Os Guiness chamado “In Two Minds: The Dilemma of Doubt and How to Resolve It” [2] (NT: Em duas mentes: O dilema da dúvida e como resolvê-lo). Guiness discute sobre as principais razões pelas quais as pessoas, incluindo os próprios cristãos, possuem dúvidas sobre o cristianismo: dúvidas vêm de visões equivocadas de Deus; dúvidas vêm de fundações intelectuais fracas; dúvidas vêm de uma falta de compromisso; dúvidas vêm de uma falta de crescimento; dúvidas vêm de emoções incontroladas; dúvidas vêm do medo de acreditar; dúvidas vêm de questionamentos insistentes; e dúvidas vêm da impaciência ou da desistência. Como Guiness estava argumentando em nome de sua fé cristã, ele não menciona uma outra grande razão para dúvida: dúvidas vêm de ausência de razões adequadas. E ele falha em notar que na lista de razões para duvidar acima, qualquer um poderia simplesmente revertê-la: crenças vêm da necessidade de ser grato a alguém; crenças vêm da necessidade de um Deus; crenças vêm de fundações intelectuais fracas; crenças vêm da necessidade de estar comprometido com algo; crenças vêm de esperanças no crescimento pessoal; acreditam por causa de emoções incontroladas; acreditam por causa do medo de duvidar; acreditam por não questionarem o suficiente; e crenças que vêm de desistências muito precoces. Apesar da ilusão de Guiness não ser tão evidente quanto a dos outros, nós ainda assim a encontramos nele. Existem algumas razões muito sólidas para acreditar, conforme nos é dito, então se você duvida é porque a culpa é sua.

Mas Sennett argumenta que o cristianismo não pode ignorar “um fato simples porém poderoso: a maioria daquelas pessoas verdadeiramente brilhantes, com pensamentos mais profundos e que moveram e abalaram os últimos dois mil anos de história de maneira mais profundamente influente não foram cristãos. Nem Abert Einstein nem Bertrand Russell nem Sigmund Freud nem Stephen Hawking nem Karl Marx professavam Jesus como Senhor. E a lista continua. Sugerir que essas pessoas falharam em acreditar por causa de ignorância ou por causa de alguma falha racional é ridículo.” Obviamente, a ilusão age nos dois sentidos, Sennett alega. Também não há superioridade racional para a não-crença.  O ateu Thomas Nagel é citado dizendo que ficou desconfortável “com o fato de que algumas das mais inteligentes e bem informadas pessoas que conheço serem crentes religiosas.”

Sennett nos informa que “se existe uma lição que a epistemologia moderna nos ensinou, é que quase nada é tão racionalmente correto quanto ‘a ilusão’ alega que o cristianismo é. Em outras palavras, quanse nada é tão óbvio que ninguém jamais poderia rejeitar isso.” Além disso, parece possível que “uma pessoa poderia rejeitar quase qualquer alegação, mesmo que ela seja verdadeira.” Existem razões filosóficas abundantes para o argumento de Sennett, e muitos exemplos históricos, como o fato de que realmente existem muitos acadêmicos que negam Jesus. O fato é que muitos acadêmicos de fato examinaram a evidência histórica para o cristianismo, e eles consideraram a evidência falha.

Desde o nível acadêmico até o nível de peão, nós discordamos sobre tudo que existe para discordarmos. E isso vale especialmente para religião. Existem tantas religiões e seitas dentro destas que se cada uma delas fosse uma pessoa, nós seríamos capazes de preencher o maior estádio do mundo com elas. Isso revela uma enorme quantidade de malandragem que há em alegar com total garantia não somente que o cristianismo é correto – uma grande reivindicação por si só – mas que também as outras pessoas voluntariamente rejeitam a verdade.

[…]

A Ilusão da Superioridade Moral

Muitos cristãos sustentam que eles possuem uma fundamentação superior para saber e escolher fazer o que é bom. Eles alegam possuir padrões éticos objetivos para serem bons, baseados num Deus criador moralmente bom, junto com a melhor motivação para serem bons, que é a eterna recompensa na presença de um Deus amoroso. Tais cristão também alegam que os ateus não possuem uma justificação última para serem morais, muito menos uma motivação para agirem dentro dessas morais, especialmente quando elas conflitam com seus próprios interesses pessoais. Eles alegam que ateus não possuem uma boa razão para condenar homicídio, brutalidade e tortura, nem possuem uma razão última para que eles mesmos não assassinem, estuprem e torturem outras pessoas.

O Dr. WL Craig cita com aprovação o personagem Ivan Karamazov de Fyodor Dostoyevsky, que disse: “Se Deus não existe, então tudo é peritido.” Craig resumiu o caso moral contra o ateísmo usando as seguintes palavras:

[S]e a existência de Deus é negada, então estamos aterrissados num completo relativismo moral, de tal modo que nenhum ato, independente do quão terrível ou hediondo, pode ser condenado pelo ateu… Se a vida termina no túmulo, então não existe diferença se uma pessoa viveu como Stalin ou se viveu como um santo… Nesta base, uma escritora com Ayn Rand está absolutamente correta em reverenciar as virtudes do egoísmo. Viva totalmente para si; ninguém pode te culpar de nada! De fato, seria tolice fazer algo além disso, pois a vida seria muito curta para colocá-la em risco com ações que visam algo além do puro interesse pessoal. Sacrificar-se por outra pessoa seria estúpido… Em um mundo sem Deus, quem poderia dizer quais valores são certos e quais são errados? Quem poderia dizer que os valores de Adolf Hitler são inferiores aos de um santo? O conceito de moralidade perde todo seu significado em um universo sem Deus. Não pode haver certo nem errado. Isto significa que é impossível condenar guerras, opressão ou crime como maus. Nem poderia-se exaltar a fraternidade, a igualdade e o amor como bons. Em um universo sem Deus, bem e mal não existiriam – haveria apenas o fato nu e sem valor da existência, e não haveria ninguém para dizer que você está certo e eu estou errado… O mundo ficou horrorizado quando descobriu que em campos como o Dachau, os nazistas usaram prisioneiros para experimentos médicos em humanos vivos. Mas porque não? Se Deus não existe, não há nenhuma objeção a usar pessoas como cobaias humanas. [3]

Antes de partirmos para os argumentos filosóficos para esta alegação, vamos primeiro fazer uma pausa e perguntar porque não há nenhuma evidência para aquilo que Craig alega. Se ele está correto, nós deveríamos ver bilhões de não-cristãos agindo consistentemente de acordo com essa lógica. Deveria haver um grande caos neste mundo, do tipo que levaria o resto de nós para um asilo. Em outras palavras, porque os não-cristãos não agem da forma que ele descreve? Ninguém diz para si mesmo: “esta é a coisa razoável ou lógica a se fazer mas eu me recuso a fazer isto,” a menos que ela tenha problemas mentais. Será que teístas como Craig desejam alegar que quase todos não-cristãos têm problemas mentais… que a maioria esmagadora de nós não vive de maneira consistente com aquilo que acreditamos? A evidência está esmagadoramente contra sua alegação.

Craig argumenta que a razão pela qual não-cristãos não agem consistentemente é porque nós na verdade possuímos uma padrão último para moralidade, afinal de contas. Mas não adianta dizer que existe tal padrão quando ele não pode indicar qual é e como ele deveria ser aplicado a questões éticas do nosso cotidiano. Os próprios cristãos mudaram de ideia nessas questões ao longo dos séculos e não podem concordar com certas coisas hoje. E tal afirmação vai de encontro do Deus que encontramos na Bíblia que comandou atrocidades morais como genocídio e, como veremos, sacrifícios de crianças. Reivindicar que existe este tal padrão ético último é uma mera afirmação que não é apoiada pela evidência do comportamento moral nem dos bilhões de não-cristãos no mundo, nem dos comandos do Deus da Bíblia e nem da história da ética cristã. Eu não sei o que mais precisa ser dito sobre isso, mas há mais o que dizer.

Continua…

NOTAS

1. James F. Sennett, This Much I Know: A Postmodern Apologetic, livro não publicado.

2. Os Guinness, In Two Minds: The Dilemma of Doubt and How to Resolve It (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 1976).

3. William Craig Lane, Apologetics: An Introduction (Chicago: Moody Press, 1984), pp. 37-51, revisado como Reasonable Faith: Christian Truth and Apologetics (Wheaton, IL: Crossway Books, 1994). Veja também os comentários similares de Francis Schaeffer em He Is There and He Is Not Silent (Wheaton, IL: Tyndale House, 1972), pp. 21-27.

Anúncios

2 opiniões sobre “A Ilusão Cristã da Superioridade – Parte 1: As superioridades racional e moral”

  1. O CRISTIANISMO PRODUZIU COISAS BOAS COMO TODAS AS OUTRAS RELIGIÕES CONTUDO PRODUZIU A DESGRAÇA E O ÓDIO E SE A VERDADE FOR A VERDADEIRA VOCAÇÃO DO HOMEM QUE ENTÃO O CRISTIANISMO SEJA DESTRUIDO E QUE O SEU DEUS INEXISTENTE SEJA LANÇADO NO MAIS PROFUNDO ESQUECIMENTO.

    Curtir

Quer fazer um comentário?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s