Craig x Ehrman Parte 3: Discurso de Abertura de Ehrman

O Método Histórico e as explicações mais improváveis

Transcrição do debate em português: Arquivo pdf
Transcrição do debate em inglês: Arquivo pdf
Vídeo com áudio em inglês e legenda em português: Blog Deus em Debate

Na terceira parte dessa série, irei apresentar de forma bem sucinta os argumentos e o raciocínio utilizados por BD Ehrman em seu discurso de abertura no debate contra Craig. Esse resumo visa facilitar a leitura e torná-la mais atraente a pessoas que não gostam de textos longos ou que não tenham entendido muito bem o debate, bem como servir de base para análises minhas no futuro.

Inicialmente, Ehrman trata de definir o método histórico. Este se divide em avaliação de relatos e em explicação para tais relatos. Ehrman apresenta os dois tópicos junto com explicações que visam demonstrar que tanto a Bíblia quanto Craig falham em atender os requisitos da pesquisa histórica. Por fim, ele apresenta a tese de que história e teologia são campos epistemologicamene distintos.

1. Método Histórico

O método histórico visa determinar o que provavelmente aconteceu no passado. Em curtas palavras, quais relatos podemos tomar como verdadeiros e quais as melhores interpretações para tais fatos. Não é possível saber o que aconteceu pois não estávamos lá no momento, mas podemos na maioria dos casos dizer o que provavelmente aconteceu, lançando mão até mesmo de níveis de probabilidade (evento que certamente aconteceu, evento muito provável, evento pouco provável etc). E há casos sobre os quais nada podemos dizer.

Uma observação importante: Craig tentou, em seu discurso de abertura, mostrar que os relatos Bíblicos sobre a ressurreição eram verdadeiros e que a melhor explicação para eles era a ressurreição, “conforme manda o figurino”.

2. Como avaliar a veracidade de relatos?

Em primeiro lugar, os relatos devem ser contemporâneos aos eventos que descrevem. Além disso, devem haver muitos relatos convergentes sobre tais eventos e que sejam independentes entre si. Outro fator importante é a não-tendenciosidade do relator. Se temos poucos relatos, ou se eles distam muito dos eventos que narram, ou se eles divergem muito entre si, ou se alguns foram feitos tendo outros como base e não testemunhos oculares ou se o autor é claramente tendencioso, então os relatos não são muito confiáveis.

2.2. Os relatos bíblicos

Aqui, Ehrman se refere especificamente aos relatos evangélicos sobre a vida e morte de Jesus e sobre o valor histórico destes documentos. Para começar, eles foram escritos muito tempo depois da morte de Jesus – 35 anos, o que representa quase duas gerações naquela época. Além disso, eles não foram escritos por seguidores de Jesus que falavam aramaico, mas por pessoas altamente treinadas em escrita e fluentes em grego que viveram até 60 anos depois da morte de Jesus. Definitivamente não eram testemunhas oculares de sua vida.

E como os autores dos evangelhos conseguiram as informações que relatam? Segundo Ehrman, foi devido a uma espécie de telefone sem fio, seguindo aquele ditado: “Quem conta um conto aumenta um ponto.” A história foi passando de pessoa para pessoa. Quem a ouvia se convertia e passava para a frente. Naturalmente, essa história foi sendo alterada a cada vez que era contada e a prova disso são as inúmeras diferenças inconciliáveis entre os evangelhos. Ele diz que devemos ler os evangelhos não de forma vertical (um após o outro), mas de forma horizontal (comparando trechos dos quatro que se referem ao mesmo acontecimento). Usando essa técnica, ele aponta diversas diferenças entre os evangelhos, especialmente as que dizem respeito à ressurreição.

Ele conclui que os relatos evangélicos não são contemporâneos aos acontecimentos, não são desinteressados e nem consistentes entre si. Em suma, eles são baseados em tradições orais que estavam circulando a décadas e que não são fidedignos, não possuindo, portanto, muito valor histórico.

3. As explicações mais prováveis e as mais improváveis

Quando estabelece-se que um dado conjunto de eventos tenha provavelmente acontecido, então resta determinar qual a melhor explicação para eles. O método histórico só permite dizer qualé  a explicação mais provável.

Ele diz então que um milagre não é um evento impossível, mas que é definido como o evento mais improvável que explique um certo conjunto de fatos. Milagres são a possibilidade mais remota em qualquer instância. Deste modo, um historiador não pode concluir que um milagres ocorreu. Os cânones da pesquisa histórica não permitem que se estabeleça como provável a mais improvável de todas as ocorrências.

Deste modo, os quatro fatos apresentados por Craig são, segundo Ehrman, completamente irrelevantes. Uma ressurreição viola o que naturalmente acontece, sendo portanto um milagre. Desse modo, não se pode reinvidicar historicamente que uma ressurreição provavelmente aconteceu, já segundo sua própria definição como milagre, ela  provavelmente não aconteceu. Ehrman salienta que é possível fazer uma defesa teológica, mas jamais uma defesa histórica de milagres como a ressurreição.

3.2. Uma explicação naturalista para os quatro fatos

Ehrman apresenta então um cenário alternativo que explica os quatro fatos de Craig usando uma combinação de eventos altamente improváveis: dois parentes de Jesus roubam o corpo dele da tumba e acabam sendo mortos por soldados romanos, que colocam os tês corpos numa terceira tumba não-identificada. Essa história é altamente improvável e nem mesmo Ehrman acredita nela, mas mesmo assim ela é possível dentro das leis naturais e, portanto, é uma explicação válida, enquanto que a de Craig não é.

Qualquer explicação que não precise de nada sobrenatural é melhor que uma que precise; qualquer explicação muito improvável é melhor que a explicação mais improvável que existe.

4. Distinção de campos de estudo

Ehrman completa sua abertura salientando que a explicação de Craig não é histórica, mas sim teológica. Tanto é verdade que ela pressupõe a existência de Deus como agente causador do milagre. Ora, historiadores não podem pressupor a existência de um deus, muito menos a existência de Deus especificamente, pois eles não possuem acesso a Ele. A pesquisa histórica só tem acesso àquilo que ocorre no plano terreno, sendo que supostos eventos que ocorreram em outros planos são discussões teológicas.

Finalmente, ele cita uma analogia: do mesmo modo que evidências matemáticas são irrelevantes na discussão de obras literárias, evidências históricas também são irrelevantes na discussão de alegações teológicas.

Continua…

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