Pseudociência (1) Que isso?

Este post pretende fazer um link entre minha primeira fase aqui no blog e a minha terceira fase. Estou prestes a esgotar o assunto sobre ceticismo e pseudoceticismo e a entrar de vez em filosofia do conhecimento e da ciência. Como estou falando atualmente sobre pseudoceticismo, vou falar hoje sobre pseudociência, que envolve critério de demarcação – um dos principais pontos da filosofia de Popper.

A wikipedia brasileira é curta e grossa na definição: “Uma pseudociência é qualquer tipo de informação que se diz ser baseada em factos científicos, ou mesmo como tendo um alto padrão de conhecimento, mas que não resulta da aplicação de métodos científicos.” O site Skeptic’s Dictionary (Dicionário Cético) é mais sucinto ainda: “A pseudoscience is a set of ideas put forth as scientific when they are not scientific” ou “Uma pseudociência é um conjunto de ideias que se propõem como, mas que não são.”

O que seria então uma pseudociência? Em um sentido mais restrito, é apresentar uma ideia que se propõe como científica, mas que não foi alcançada via método científico. O sucesso indiscutível da ciência moderna criou um campo inesgotável de oportunidades para charlatões, mentirosos e aproveitadores ganharem dinheiro e fama em cima da ingenuidade alheia.

Os espíritas podem ficar revoltados, mas espiritismo É SIM pseudociência. Muitos dizem que não é sequer uma religião, como o blog Irreligiosos, mas não concordo. O espiritismo é uma religião que possui um traço pseudocientista à medida que se propõe originalmente como uma ciência. Vejam nas referências um texto do Grupo de Estudos Espíritas da Unicamp onde eles dizem que espiritismo é, segundo o próprio Alan Kardec, uma ciência. Legal é que no final eles ainda criticam a pseudociência dos seus concorrentes… HA! Pegadinha do Malandro!

O espiritismo se propõe a alcançar verdades sobre o mundo de forma científica e, para não dar muito na cara que não é bem assim, FINGEM que estão fazendo isso. Alguém aí já viu papers espíritas com experimentos em condições controladas que foram reproduzidos por pessoas independentes? Alguém já viu experimentos “espíritas” que podem ser confirmados por pessoas de qualquer religião, de modo que qualquer um chegue às mesmas conclusões que eles? Alguém já viu equações ou leis do espiritismo? Alguém sabe quais as principais teorias do espiritismo e quais são as evidências que as suportam? Mas com certeza já viram textos espíritas falando de ectoplasmas, teoria da relatividade, big bang, astronomia, termos técnicos da biologia evolutiva etc

A verdade é que eles dizem qualquer bobagem com um linguajar científico e vendem como se fosse ciência. Qualquer um pode pegar um texto, recheá-lo de termos técnicos, citações e referências e depois dizer que fez ciência. A homeopatia é especialista nisso: abusa desse expediente até falar chega, mas apresentar resultados que é bom, nada. O Bule Voador tinha uma série até legal sobre o assunto, mas parece que eles estão com problemas com seu banco de dados. Mas exemplos é o que não faltam, como as Terapias Quânticas ou o Feng Shui. As primeiras são geralmente massagens usando pedras que “interagem com seu corpo através de forças quânticas propiciando resultados que os métodos da perversa ciência convencional jamais sonhariam em alcançar”. Os segundos são design de interior com um toque zen pseudocientífico.

Mas não são só ideias que se propõem confessadamente como científicas, mas que na verdade não são, que são pseudociência. Ideias que tentam se basear em ciência mas que só fazem meia dúzia de referência a textos escolhidos a dedo e interpretados de forma duvidosa também o são, em um sentido mais amplo. Um exemplo são os Pick Up Artists, vulgos PUAs, que vendem auto-ajuda em relacionamentos usando alguns textos de psicologia evolutiva como base para sua metodologia. Na verdade, não usam porr4 nenhuma. Eles dizem algo como: “Olá a todos, nosso produto foi desenvolvido tendo como base a psicologia evolutiva e por isso te trará excelentes resultados! Não deixe de nos pagar bastante dinheiro por esse produto de auto-ajuda que de científico só tem o rótulo!”

A verdade é que se você inventa uma teoria qualquer e coloca nas suas justificativas textos científicos corretos mas que não têm absolutamente nada a ver com o que você está falando, então você também está agindo como um pseudocientista, pois tenta aumentar a legitimidade do que diz na carona dos conhecimentos estabelecidos de forma séria. Um exemplo são pessoas que defendem pontos de vista político usando psicologia ou biologia. A psicologia pode estudar porque pessoas preferem determinadas ideologias a outras ou porque tendem a agir de determinadas formas durante as eleições, mas jamais pode dizer qual ideologia política é correta pois isso foge do seu escopo. Diferenças epistemológicas, saca? Psicologia não pode ser usada para validar/refutar ideias fora de seu escopo. Se quiser debater política, use teorias da Filosofia Política ou da Administração Pública, não da psicologia* ou da biologia**.

Em suma, pseudociência significa usar a palavra ciência ou os conhecimentos da ciência de forma inadequada para aumentar artificialmente a confiabilidade de uma ideia. Ocorre tanto quando o idealizador declara estar fazendo ciência quanto quando ele não declara. E ocorre tanto quando a ideia defendida se diz científica quanto quando ela não se diz. Senão, basta o cara agir de forma pseudocientífica e depois dizer: “mas eu não estava propondo uma teoria científica…” Esse é claramente um estratagema, pois o que está em discussão é o aumento artificial da credibilidade ao citar teorias científicas que não corroboram diretamente suas ideias. O importante é verificar se a pessoa tentou pegar carona na ciência de forma indevida.

Os métodos e critérios para diferenciar ciência de pseudociência são uma área da Filosofia da Ciência chamada “Critérios de Demarcação”. O segundo post dessa série será uma introdução sobre esse tema.

Referências:

Wiki: Pseudociência
Skeptic’s Dictionary: Pseudociência
Blog IRRELIGIOSOS – Espiritismo: Ciência, Pseudociência, Filosofia ou Doutrina Religiosa?
Grupo de Estudos Espíritas da UNICAMP: Ciência Espírita
PUAs

* Dizer que uma crença é inválida pela forma com que foi adquirida é implorar para cometer uma Falácia Genética. Essa falácia existe sim, mas devemos ter sempre muito cuidado com ela: por ser um assunto complicado, nos embananamos nela com frequência. Neste assunto em específico, devemos sempre nos perguntar: “as pessoas que possuem o pensamento político X estão erradas só porque X é fruto de um processo psicológico Y que acabei de citar, ou porque é fruto de um processo psicológico Y que representa uma fraqueza humana (como medo) ou porque ela não resolve adequadamente o problema que se propõe a resolver?” Eu sou favorável a só enxergar questões políticos sob a terceira óptica. Soluções devem solucionar… e ponto. Pouco importa se são sustentadas por processos psicológicos decorrentes de falhas humanas.
** Hitler usava a biologia (ou uma visão distorcida da mesma) para defender ideais políticos! Quem quiser fazer isso, preste bastante atenção… é caminhar sobre gelo fino.
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A sexualidade vira-lata dos ateus militantes – Parte 2: A “magnífica” cortesania da Idade Média

Símbolo do Recato durante a Idade Média

Começo aqui a análise do vídeo “A sexualidade vira-lata dos ateus militantes“, daquele rapaz que acha que o cristianismo é racionalmente, moralmente e tudo-o-mais-mente superior a qualquer forma de religiosidade e de pensamento, sobretudo o ateísmo. Sim, o Conde acha que o Cristianismo é perfeito e sem falhas e que o ateísmo, como negação dele, só tem falhas e que todo militante é alguém mal por natureza. Fazer o que, cada um que viva a ilusão que quiser, não é mesmo?

Falando nisso, coloquei a série sobre a Ilusão Cristã da Superioridade antes de prosseguir com essa série aqui porque acho que ela complementa perfeitamente a crítica que farei ao Conde. Pretendo mostrar como a moralidade que ele defende, em especial a moralidade sexual cristã, não é superior à ateísta. Aliás, vou mostrar que sequer é aquela que ele defende ser, em certos casos.

No texto original na WatchGOD, o texto está bem mais completo e tem um resumo dos seus argumentos em forma silogística. Aqui, dei uma resumida e adaptei à temática moralidade cristã x moralidade secular, com enfoque na sexualidade.

Ele começa o vídeo dizendo no primeiro parágrafo, [P1], que viu uma matéria sobre sexo e que a classificou como cultura inútil. Em primeiro lugar, por mais que ele esperneie, sexo não é um assunto inútil nem faz parte da cultura inútil. O próprio fato de ele gastar seu tempo e sua retórica explicando porque o sexo deve ser evitado já é uma prova da relevância do assunto: o sexo está tão presente na vida humana, que é impossível falar de comportamento (o que inclui comportamento religioso) sem falar sobre ele.

Em segundo lugar, ele mesmo apresenta mais tarde a ideia de que a cultura do sexo correta foi elaborada pelo cristianismo. Ou seja, é uma cultura inútil, mas a religião que ele deseja defender é a que ele alega ter desenvolvido com mais maestria tal cultura. Ele já começa com uma frase de efeito, que está evidentemente equivocada e que ele mesmo contradiz no decorrer do discurso.

A seguir, em [P2], ele cita uma pesquisa norte-americana que diz que os ateus vivem o sexo com mais prazer, para então fazer uma objeção a ela em [P3]. Essa objeção configura o primeiro argumento apresentado por ele: o de que a pesquisa apresentada está errada porque sexo e prazer não são mensuráveis. Entretanto, esta é uma enorme falácia: a de que aspectos humanos e subjetivos são imensuráveis. De forma geral, ele quis dizer que aspectos humanos e subjetivos são imensuráveis, incluindo o prazer.

Para mostrar o quanto essa ideia é falsa, vou dar um exemplo da área de marketing: eles fazem pesquisas de campo que visam perguntar às pessoas o quanto elas estão satisfeitas com determinado produto e depois confrontar os resultados com as características dessas pessoas. Pode-se assim descobrir quais faixas etárias, quais sexos, quais níveis sociais etc mais gostam do produto e redirecionar o marketing da empresa. Uma pesquisa sobre sexo funciona da mesma maneira. Este argumento cai com extrema facilidade, pois as pessoas são sim capazes de medir sua satisfação e de exprimi-la de maneira objetivamente mensurável.

Na verdade, esse argumento foi uma tentativa de desmoralizar a pesquisa. Ele não procurou, ou se procurou, agiu como se não tivesse procurado, saber como tal pesquisa foi elaborada, quais os critérios e quais suas conclusões. Ou seja, ele não se interessou em momento algum em fazer uma crítica coerente, mas sim em apresentar uma falácia de impacto e bonitinha, fácil de ser engolida.

Já no [P4] ele insinua que os ateus mentem sobre seu prazer sexual por pura pirraça. Ele insinua que os ateus fingem que estão mais satisfeitos com o sexo para poder usar isso como vantagem sobre os religiosos. Para começar, isso é só uma alegação solta no estilo “teoria da conspiração”, pressupondo que os ateus se reúnem secretamente para combinar respostas em pesquisas e dar a falsa ideia de que aproveitam melhor o sexo. Para piorar, em algumas partes ele age como se ateus tivessem mentido, mas em outras, age como se dissessem a verdade.

O que estou dizendo é que a tese dele é baseada nas duas ideias a seguir:

(1) Os ateus fingem que sentem mais prazer para afrontar os religiosos.
(2) Os ateus sentem mais prazer porque são, de certa forma, promíscuos.

Não precisa ser nenhum gênio para notar incoerência entre (1) e (2). Mas notem como que no [P5] e no [P6], ao invés de dar prosseguimento ao raciocínio, ele resolve mudar de assunto bruscamente, defendendo a ideia de que o cristianismo é a melhor fonte de moralidade e de decoro para o sexo. Em defesa disso, ele lembra do código de ética para o sexo criado pelo cristianismo na Idade Média nas duas alegações a seguir:

(1) Existia um código de ética na Idade Média voltado para o amor e o cavalheirismo e o sexo era visto de forma secundária na relação.
(2) Tal código foi criado por cristãos, não por pagãos, na Idade Média.

A primeira alegação é evidentemente falsa. Existia sim uma tradição de cavalheirismo, mas existia também o sexo por prazer. Tenho minhas dúvidas se as mulheres realmente se casavam virgens, mas com certeza praticamente nenhum homem assim o fazia. Casas de prostituição, adultério, orgias e homossexualismo, ou seja, todo o conjunto de práticas e comportamentos sexuais considerados hoje errados, já existiam na época. O sexo era tão corriqueiro naquela época quanto é hoje. A grande diferença é que tudo acontecia debaixo dos panos. Sim, haviam quem tomava banho com roupas, mas quem consegue ver recato nisso? Isso não é recato, é neurose.

Vejam a série de artigos “10 Curiosidades sobre sexo” na Idade Média, na Grécia Antiga e na Roma Antiga, além dos artigos Como era o sexo na Idade Média e A Mulher na Idade Média. Podemos ver nesses artigos práticas que existiam na Idade Média e que aconteciam antes (e algumas até hoje), tais como homossexualismo entre homens, lesbianismo e prostutuição tributada pelo clero.

Sim, caros leitores, a Igreja Católica roubava as prostitutas para permitir que elas trabalhassem (fico imaginando o Marlon Brando vestido de papa e dizendo para uma meretriz: “O seu negócio é tão bom, seria uma enorme lástima se você morresse amanhã ou depois…”).  Fico imaginando a cortesania que havia dentro dos muros do vaticano como parte do ritual de preparação para suas orgias, algumas delas homossexuais. O Conde vai cair da cadeira quando descobrir que já teve papa que morreu assassinado a pauladas pelo próprio marido por tê-lo traído! Isso ocorreu durante a “gloriosa” Idade Média, para piorar.

Mas a questão não se restringe à demagogia. A cortesia que o homem dispensava à mulher era apenas algo anterior ao casamento. Depois deste, o homem passava a ter posse sobre o corpo de sua mulher. Apenas não era aconselhável fazer tanto sexo com a esposa quanto se fazia com as prostitutas quando solteiro, nem era aconselhável fazer sexo anal ou oral.

Fora isso, a mulher era tratada com despreso por seus pais e maridos, não tendo direitos a participar efetivamente da sociedade. Elas eram bajuladas e mimadas como animais de estimação e eram sobrecarregadas de tarefas domésticas para não pensarem em “bobeiras”. Muito se diz que as mulheres são tratadas como objetos hoje. Mas durante a Idade Média, eram tratadas como animais. E isso não é exagero, basta conferir este post chamado saborosas monstras, onde se lê:

“Noutros casos a metáfora mulher/animal serve para dar livre curso à misoginia, socorrendo-se de uma série de metáforas moralistas. Num poema francês do século XIV, intitulado Os Vícios de uma Mulher, diz-se que a mulher é venenosa como uma serpente, impetuosa como um leão, parecida com um leopardo pela voracidade; falsa como uma raposa; combativa como um urso; semelhante a uma cadela por ter os sentidos apurados; como uma gata quando morde; uma ratazana para destruir ou um rato para se esgueirar.”

Dama da Idade Média sendo exaltada em um altar por um cavalheiro cortês.

Ou seja, o sexo cortês nunca existiu; o que existiu foi a paquera cortês que terminava logo após o casamento. O sexo não era tão evitado como se diz. Ele era feito na surdina e suas variações eram mais raras do que hoje, mas mesmo assim existentes. E esse movimento cultural não caracterizou a Idade Média como um todo, mas apenas seu último período, então nem dá para dizer com a boca cheia que os homenzinhos daquela época eram defensores da moral. Basta saber que tal cultura da cortesania começou apenas no século XII, muito depois do início da Idade Média (séc. V), porém mais próximo de seu fim (séc. XV). Assim, a primeira alegação do Conde vai pro lixo.

Sobre a segunda, podemos notar que a uma altura dessas, ele já se tornou um fato irrelevante. Ele está se referindo a uma conduta apenas pré-nupcial, seguida por uma prática sexual mandatoriamente submissa para as mulheres. É evidente que isso não é sinônimo de sexo com recato, então de que vale a alegação de que o cristianismo o criou? O engraçado é que ele usa um tom todo esnobe para tomar para o cristianismo a autoria de tal “código de cortesania”. Bem, eu pergunto a ele do mesmo jeito que ele perguntou aos ouvintes: quem inventou a roda? E o fogo, a agricultura, a culinária e a filosofia? Foram os cristãos? Não, meu caro! Foram os pagãos! Aqueles homenzinhos rudes e bárbaros que não tinham Deus em seus obscuros corações!  A diferença é que tudo isso que citei é bem mais importante para a humanidade do que as normas de paquera cortês e sexo submisso.

Essas duas alegações foram ditas para defender a ideia de que o sexo deve ser regido pelo código de ética da Idade Média feita pelos cristãos, ou de forma mais abrangente que a moralidade, inclusive a sexual, só pode vir do cristianismo. Além dos problemas que já citei, completo com o argumento de que ele não responde a questão: “qual é a vantagem da conduta apresentada sobre a conduta atual ou qualquer outra conduta que não seja bárbara?” Na verdade, até que ele tenta responder isso, só que bem mais para frente (afinal de contas, ele parece se esforçar para não criar coerência entre as ideias apresentadas).

Ainda em [P6], ele apresenta uma nova afirmação, que na verdade mais parece um resmungo. Ele diz que os homens medievais foram rotulados como elementos das trevas, apesar de terem criado o cavalheirismo. Em primeiro lugar, já vimos que o cavalheirismo não era nada de mais. Um pensamento racional e sensato sobre direitos e respeito já é o suficiente para que as pessoas paquerem e se conquistem de forma adequada. Havendo respeito, não é necessária uma cartilha com um passo-a-passo para conquistar uma mulher. Isso sim, aliás, é desrespeito: dar um presente para um mulher e a tratar de forma “sofisticada” e achar que ela tem que gostar. Cada mulher tem um jeito de ser conquistada, sem contar as mulheres que preferem conquistar a serem conquistadas. Esse código de cortesania é um desrespeito às mulheres e é essencialmente misógino. Ele é um deboche à diversidade de opiniões, personalidades e comportamentos.

Imaginem que houvesse um manual feminino para conquistar homens. Se ele incluísse dar uma camisa de futebol do meu time para mim, eu até acharia bom. Mas se incluísse dar um livro de romance eu iria achar ruim porque não gosto e, acima de tudo, não gostaria que as mulheres me dessem só porque a cartilha diz que devo gostar de receber. Não é assim que as coisas funcionam. Manuais e códigos são coisas de gente burra, incapazes de pensar por si só e autistas o suficiente para não conseguir interagir socialmente com níveis satisfatórios.

Além disso, rótulos são alcunhas que generalizam e distorcem um determinado grupo de pessoas ou objetos. A Idade Média é conhecida por ser uma época na qual mulheres que ajudavam outras durante o parto eram queimadas vivas. O governante era decidido por hereditariedade ou pela espada. Os governantes e o clero viviam no luxo ocioso em detrimento da miséria da população. O analfabetismo era lugar comum entre os mais pobres. A medicina se restringia a mais um ramo da superstição. A alcunha de Idade das Trevas não é nenhum rótulo, mas sim algo muito condizente com a realidade da época.

Uma vez estabelecido que a moralidade, inclusive a sexual, só pode vir do cristianismo, ele vem dizer no sétimo parágrafo que o ateísmo quer acabar com ela. Para tanto, ele usou uma citação de Nelson Rodrigues: “educação sexual é coisa de vira-lata”. É óbvio, dada a desonestidade de Leonardo, que Nelson nunca disse isso. Na verdade, ele disse: “A educação sexual só devia ser dada por um veterinário.” É bom notar que Nelson Rodrigues usa a palavra vira-lata para se referir ao complexo de inferioridade brasileiro e não para definir comportamentos sexuais. Mas tal mudança sutil acaba sendo irrelevante, pois o que ele queria mesmo era estabelecer sexo por prazer é coisa de animais. Aliás, o brilhante argumento dele é que sexo por prazer é coisa de animais porque Nelson Rodrigues disse. Afinal, o Nelsão falou então está falado, né?

Creio que a melhor forma de atacar um apelo à autoridade é mostrar que a personalidade citada não é uma referência tão boa quanto se quer fazer parecer. Vejam algumas pérolas do nosso querido Nelson Rodrigues que fariam nosso igualmente querido Leonardo Bruno tirar seu eterno sorrisinho cínico do rosto por alguns segundos:

“Nem todas mulheres gostam de apanhar, só as normais.” (uma grande demonstração de cortesania e de agrado delicado e sofisticado)

“A prostituta só enlouquece excepcionalmente. A mulher honesta, sim, é que, devorada pelos próprios escrúpulos, está sempre no limite, na implacável fronteira.” (uma crônica que escancara os perigos de se levar uma vida sexualmente livre)

“O dinheiro compra até o amor verdadeiro.” (cortesia pra quê? Se você for rico já basta!)

“A mulher ideal deve ser dama na mesa e puta na cama.” (aqui, Nelson defende a ideia da dama idealizada e inatingível)

A uma altura dessas, eu já estou concordando com as referências do Conde mais do que ele mesmo!!

Continua…

Você quer só ganhar o debate? – Parte 2: Prove o que sei que está errado

Aproveitando o artigo Pseudoceticismo: pode isso, Arnaldo?, vou comentar algumas considerações que tenho. Lá eu disse que só se investiga o que não se sabe, certo? Pois então. Suponha que você tem certeza que o universo seja finito no tempo, certeza absoluta mesmo. Isso não é sequer uma conclusão derivada de fatos, você acha que isso é um fato mesmo. Existe alguma coisa que alguém possa dizer que te provará que isso está errado? Neste caso, é claro que não!

Se você sabe que a Rita matou o João porque você viu isso e um policial chega pra você e diz: “Olha, abrimos um inquérito para investigar o assassinato do João e tudo aponta que o Márcio foi o assassino.” Como você vai reagir? Dizendo “prove, proove, prooooove!!!!!!!11!!”? Óbvio que não. Você sabe que ele não pode oferecer provas verdadeiras porque você sabe que aquilo não aconteceu. Você sabe que as provas que ele apresentar serão falsas. Então se você é uma pessoa normal, você dirá como você sabe que foi a Rita que matou João.

Se você sabe de algo, você não pede provas a quem alega o contrário, você explica PORQUE é o contrário.

Ou será que estou falando muita besteira? Creio que não. Se você tem certeza de algo, então não faz sentido requerer provas àquele que alega o contrário. O sensato é: como você sabe (ou acha que sabe) que o outro está errado, mostre isso a ele. A não ser que você seja um torturador sádico querendo ver o outro se debater para provar o que não pode ser provado, então você só pode ser incapaz de provar o que você (acha) que sabe.

Requerer provas é uma atitude de quem considera que há alguma que possa ser dita e que seja capaz de mudar sua convicção. Caso contrário, é uma requisição tola. E supérflua, porque força o outro a perder tempo fornecendo provas que não vão surtir o efeito almejado.

Por exemplo, se você não viu a Rita cometendo o crime, mas tem certeza disso por algum motivo que nem você saiba, ou por pura teimosia, então ficar pedindo provas pro policial que acha que foi o Márcio parece a melhor saída mesmo.

O criacionista que fica gritando “prooove que a evolução aconteceu, ateu, proooove!!1!!” provavelmente não pode defender seu ponto de vista. Se pudesse, o faria ao invés de pedir algo que ele (acha) que não pode ser feito.

Mas como pedir provas e depois comemorar o fato delas não virem ganha muitos debates, principalmente aqueles feitos para plateias mais bobas, a prática acaba sendo popular. Fazer o que, quanto mais debates o crente ganha de maneira desonesta, mais feliz Deus fica, né?

Imagens aleatórias

Começo com um tema mais polêmico do que mamilos: o estado LAICO. Não vou entrar na onda de certos sites por aí que ficam gritando: “O Estado é laico, laaico, laaaaaico!!1!” o que não quer dizer que eu seja contrário á laicidade. By the way…

Por exemplo, discordo que a bancada evangélica seja uma afronta ao tão aclamado Estado Laico, e na verdade até torço por ela. Misturar religião com política é a cartada final do desespero brasileiro. Depois que verem que nem ela presta, finalmente perceberão que não existem heróis para salvar a pátria, que Não há mais lugar para redentores no Brasil, e finalmente se tornarão mais adultos e maduros. E de tabela, desconfiarão mais das religiões heheh

Em contrapartida, concordo quase que totalmente com a retirada dos símbolos religiosos das repartições públicas. Não que eu me sinta ofendido quando vejo uma cruz, mas não deixo de achar a decoração cafona. Ateus também possuem senso estético. O problema maior mesmo é de ordem prática: imagina se os advogados começam a apelar de sentenças usando o argumento de que o tribunal é religioso e que seu cliente perdeu porque é ateu? Imagina um ateu psicopata sendo solto por causa de uma babaquice como essa? Imagina a sobrecarga gerada por milhares de apelações simultâneas com o mesmo teor?

Imagina um Tribunal Desportivo que condena o Vasco por uma infração, sendo que possui um escudo do Flamengo na Sala de Julgamentos? Qualquer um poderia contestar a sentença, não? É complicado…

E esse argumento de que o cristianismo é histórico? Uma piada completa! Um tribunal é um tribunal e não um museu. Quem quer saber mais sobre o nosso período de colonização, que visite um museu de história brasileira ou leia um bom livro de história. Tribunal não é lugar para isso.

E o argumento de que Jesus inspira a justiça então? “Serve para lembrar os juízes de que o maior de todos os homens foi condenado injustamente.” Injustamente uma ova! A lei foi cumprida, ninguém feriu nenhuma lei ao colocar Jesus na cruz! Talvez isso seja uma inspiração para que legisladores não façam leis que condenem tanto criminosos comuns quanto deuses: estes últimos devem ter liberdade constitucional de agirem de forma criminal. E se você acha que essa última frase não tem nenhum problema, então você tem sérias dificuldades de diferenciar ‘lei do homem’ de ‘lei de Deus’. Jesus mesmo disse que são coisas diferentes, não é mesmo?

Para terminar essa parte com chave de ouro, o argumento de que também é usada a imagem da deusa Dice. Em primeiro lugar, ninguém acredita nela como uma deusa aqui no Brasil. O Helenismo é considerado uma religião extinta. E isso faz toda a diferença, pois a lei não permite o apoio a cultos e não podemos cultuar uma religião que não existe mais. Além disso, Dice não é encarada como uma divindade a ser reverenciada, mas como uma representação de uma virtude. Tanto é que nem existem textos escritos por ela/sobre ela orientando qualquer pessoa a agir de qualquer forma. Diferentemente do caso de um certo judeu que morreu crucificado por agir como um rebelde político. (Fora que a deusa Dice é uma decoração bem mais agradável do que um marmanjo peladão morto e pregado numa cruz.)

Agora vejam a capa desse livro:

Sim, eu sei que é assunto velho e requentado, mas e daí? Old, but gold… não é como dizem? Proponho aqui uma pequena reflexão: você já viu ateu colocando na capa do livro que é ex-cristão? Esse negócio de ex-não-sei-o-quê é puro marketing para pegar otário. O fato de alguém ser ex-alguma-coisa não que dizer muito, aliás, não diz quase nada. Não sei o que diabos deu na cabeça de Antony Flew ao colocar na capa de seu livro os dizeres “How the world’s most notorious atheist changed his mind” (Como o ateu mais notório do mundo mudou de ideia), mas o fato é que ele apelou para o mesmo tipo de estratégia que muitos pastores adotam por aí, como o do panfleto aqui embaixo. Sinal que sua reconversão foi pra valer mesmo.

Ok, tudo bem que a diferença é que Flew (provavelmente) diz a verdade e que o pastor está mentindo (pelo menos na questão de ter filhos com uma mulher sem útero). E Flew não aceitou Jesus, só se tornou deísta. O que quero dizer é que o efeito psicológico pega-trouxa é o mesmo.

Esse último aqui não é tão conhecido assim, mas mesmo para quem já viu, sempre vale a pena rir um mais um pouco dos contorcionismos praticados pelos negacionistas da ciência para fingir que ela não é tão confiável quanto é.

Bem, já que o autor deste texto nunca sentiu a energia elétrica, sugiro a ele que coloque seu dedinho especialmente projetado por Deus na medida certa para segurar bananas e fique lá por alguns minutos (o primeiro link é imperdível, mas esse aqui também é divertido). Será bom pra ele, que vai ir ver o Papai do Céu mais cedo, e bom pra humanidade, que vai ficar livre de certas baboseiras. Ele bem que fez por merecer um Prêmio Darwin, não concordam?

Craig x Ehrman Parte 5: A primeira Refutação de Ehrman

Quatro Respostas e Três Perguntas

Apolônio de Tiana

Transcrição do debate em português: Arquivo pdf
Transcrição do debate em inglês: Arquivo pdf
Vídeo com áudio em inglês e legenda em português: Blog Deus em Debate

Depois do argumento matemático apresentado em um único e bem arquitetado golpe, chega a vez de Ehrman discursar novamente. Ele diz que uma mera prova matemática não mudará a opinião dele e em seguida apresenta quatro respostas às afirmações de Craig, seguidas de três perguntas que ele considera conclusivas para o oponente.

1. Quatro Respostas

1.a. Uso duvidoso de autoridades modernas

Neste ponto, Ehrman critica a atitude de Craig de usar sistematicamente referências a estudiosos modernos como forma de tentar aumentar sua credibilidade. Em primeiro lugar, o fato de várias pessoas concordarem com as conclusões dele não significa que elas estão corretas. Ehrman poderia citar que a maioria dos historiadores discordam de Craig, mas isto não significaria nada no debate. Além disso, as referências dele em geral também são cristãs e compromissadas com a autenticação do Novo Testamento, ou seja, são tendenciosas e de uso bem duvidoso. Por fim, Ehrman alega que conhece alguns dos que foram citados por Craig e garante que estes conhecidos não sustentam a mesma conclusão de que Jesus ressuscitou. Usando as palavras do historiador: “… sua impressionante lista de citações é tendenciosa, parcial e falha na tarefa de nos contar a história real, na qual ele representa a parte minoritária no debate.”

1.b. Uso duvidoso de fontes primárias

Ehrman diz que Craig erra ao dizer, por exemplo, que o apóstolo Paulo afirmou que José de Arimatéa sepultou Jesus em uma narrativa feita cinco anos após este acontecimento. Contudo, diz o historiador, Paulo nunca citou José de Arimatéa e escreveu suas narrações 25 anos após a suposta morte de Jesus. Além disso, Ehrman conta que nos escritos e Bill consta que Marcos apresenta uma narrativa livre de adulterações e que por isso é mais provável de ser histórica. Mas se é assim, ele tem que reconhecer que Mateus não é um relato histórico, por ser o livro mais adulterado de todos. Este raciocínio responde, segundo ele, à objeção anterior de que relatos posteriores e adulterados não diminuem a confiança dos primeiros relatos.

1.c. Uso de reivindicações duvidosas

Ehrman responde agora à alegação de que as histórias das mulheres serem as primeiras a verem a tumba de Jesus vazia e de Jesus ser sepultado por José de Arimatéa jamais poderiam ter sido inventadas pelos primeiros cristãos. Sobre a história as mulheres, Paulo jamais as cita. O primeiro a citá-las é Marcos e este faz uma reflexão teológica a respeito do sentido da vida de Jesus, sustentando a tese de que quem entendeu Jesus não foram os homens, nem os discípulos e nem os sábios, mas os renegados que o entenderam. Dessa forma, a narrativa das mulheres na tumba se encaixa perfeitamente na “agenda” de Marcos. A falha de Craig em analisar a natureza das fontes o impede de ver porque os autores dos evangelhos inventariam alguma coisa. O mesmo pode ser dito sobre José de Arimatéa: é muito conveniente para a história de Jesus o fato de ele ter um seguidor secreto entre os líderes judeus, é muito fácil entender porque uma história como essa seria inventada.

1.d. Uso de inferências duvidosas

Segundo Ehrman, Bill infere que Paulo acreditou na tumba vazia porque ele falou nas aparições de Cristo. Mas essa ideia é problemática porque naquele tempo as pessoas consideravam normal verem corpos espirituais. Ele cita alguns exemplos de fontes daquelas épocas narrando que era muito comum visões de pessoas que já morreram e alega que os discípulos podem ter presenciado uma visão de Jesus. Ou seja, ao verem Jesus, eles não necessariamente acharam que Jesus ressuscitou – como Craig afirma – mas sim que estavam diante de uma visão. Segundo Ehrman “[p]ara pessoas daquela época, aparições post-mortem não eram sinônimos de reanimações de corpo.” Inclusive, o corpo de Jesus “ressuscitado” podia fazer coisas que corpos normais não podiam, como entrar em salas trancadas por dentro.

1.e. Conclusão

Ehrman reafirma que historiadores não podem pressupor a existência de Deus ao tirar suas conclusões. Afirmações que fazem tal suposição são por natureza teológicas e, portanto, inalcançáveis ao método histórico. A história pode até concluir que Jesus morreu numa cruz, mas só a teologia pode dizer se Deus aceitou seu corpo como uma expiação. A história pode dizer que Paulo afirmou ter visto Jesus após sua morte, mas só a teologia pode dizer se Jesus de fato ressuscitou e saiu da tumba.

2. Três Peguntas

2.a. Bill, que alega ser um historiador, analisou criticamente os documentos que usou em sua pesquisa? Se sim, ele foi capaz de encontrar algum erro neles? E se ele não encontrou nenhum erro, como espera que acreditemos que ele está avaliando historicamente tais fontes? Por ser um adepto da inerrância bíblia, Craig deve pensar que os textos necessariamente são corretos.

2.b. Existem relatos feitos nos tempos de Jesus de outras pessoas que realizaram milagres. Estaria Bill disposto a acreditar que “Apolônio de Tiana” também ressuscitou dos mortos? Estaria ele disposto a discutir sobre as evidências de milagres realizados por conterrâneos de Jesus a parte da tradição cristã?

2.c. Como é possível que os milagres nos quais Craig acredita desde a adolescência sejam os únicos que possuem evidência histórica? Seria mera coincidência o fato de ele ter nascido na única cultura religiosa que pode ser provada historicamente?