O que é um Argumento? – Parte 4: Tipos de Debate

A argumentação não é a base apenas do debate clássico, mas de uma gama de outras formas de se transmitir ou compartilhar ideias. Todas as formas de “debate”, desde a ideia mais comum que temos do termo até as variações mais, digamos assim, exóticas, dependem de argumentos e, por esse motivo, todas elas estudam essa arte e se aprofundam as sub-áreas e nas habilidades que julgam mais importantes. Portanto, antes de prosseguir irei expôr quais são os tipos de debate.

Mas devemos ter um pouco de atenção aqui. Em um sentido mais amplo, qualquer troca de ideias entre duas partes pode ser considerada como um debate, apesar de definições amplas assim esvaziarem os verbetes e os tornarem um pouco inúteis. Num sentido mais restrito, a palavra debate se refere somente a discussões como aquelas do Craig contra ateus, e assim temos um verbete mais conciso. Não que seja errado usar o termo debate em um sentido mais geral, por favor não me entendam assim. Seria errado se ao menos tivéssemos uma opção, mas não é este o caso. Ficaria bem estranho se eu chamasse esse post de “Tipos de Difusão de Ideias entre Pessoas e/ou Grupos de Pessoas”, não? Tendo em vista tal multiplicidade de sentidos, peço aos leitores que fiquem atentos e que procurem distinguir os significados pelo contexto.

Vamos então às definições!

Debate: disputa entre duas ou mais partes e que possui um tema e um conjunto de regras previamente definidos e que visa a exposição pública de seu conteúdo, seja via auditório, seja via imagem (TV, internet), seja via escrita (livros, jornais, blogs, revistas) ou mesmo via combinação de um conjunto desses meios. O debate envolve habilidades como: análise formal de argumentos, validade e factualidade das premissas, persuassão, estratégia, oratória etc, sendo assim uma das formas mais complexas e completas já que envolve um pouco de cada um dos outros tipos.

Um bom debatedor deve possuir todas as habilidades acima além de ter a capacidade de saber quem é seu público-alvo, quem é seu oponente, quais são os meios de publicação e qual o alcance do debate. Um bom debatedor não usará um tom excesivavemente formal em um debate para estudantes de ensino médio e nem ficará muito preocupado com análises pós-debate em um debate que se dará exclusivamente a um auditório, sem nenhuma recordação física.

Conversação/diálogo: Também conhecido como debate informal, é similar ao debate, menos na formalidade. Envolve desde pessoas discutindo pessoalmente o novo CD do Luan Santana (ouch!) até dois grupos discutindo através de aparições isoladas em mídias de massa quais os melhores rumos para o futebol brasileiro pós-olímpiadas e pré-copa. Eles podem ser amistosos ou beliciosos. Além disso, a enorme popularidade impede que análises mais formais sejam comuns nessa modalidade, sendo que persuassão e estratégias são bem importantes.

Negociação: é o diálogo entre duas ou mais partes com o objetivo de alcançar um entendimento, de resolver pontos de divergências ou de produzir conciliação, de ganhar vantagem como resultado das resoluções, ou de barganhar vantagens individuais ou coletivas (wikipedia). Um bom negociador deve ser persuassivo e sensível aos interesses das outras partes. Por sensibilidade aos interesses, não me refiro à disposição em atendê-los prontamente mas sim à capacidade de detectá-los e usá-los para convencer a outra parte a cumprir seus próprios desejos.

Diálogo Erístico: é o ramo do debate no qual somente a vitória sobre a outra parte importa para o debatedor. O debatedor erístico não busca a verdade e nem conquistar objetivos pessoais, mas sim gastar seu tempo em discussões infrutíferas. A erística é a busca por conflitos ao invés da busca por respostas. O Sr. Mensalão foi muito feliz em usar o termo “[pessoas que gostam de] engalfinhar-se na lama com outros machos” para definir pessoas exclusivamente erísticas em um post recente. Schopenhauer escreveu um livro famoso sobre o assunto: “Como vencer um debate sem ter razão”, que também é usado como ferramenta em debates mais sérios quando uma das partes se perde de seu objetivo e passa a buscar a vitória em detritemento de buscar a razão. Em tempo: é raro encontrar debates meramente erísticos, mas mais raro ainda é não encontrar nenhum elemento de erística em um debate. Por isso a importãncia de seu estudo.

Debate científico: troca de ideias entre especialistas em uma determinada ciência afim de se buscar o desenvolvimento científico. Segue regras formais próprias, geralmente aquelas apresentadas por Karl Popper e Thomas Kuhn. A própria Epistemologia fornece o conjunto de regras para este tipo de debate. Envolve desde discussões entre especialistas até a publicação de papers.

Debate Legal: ao contrário do que o nome parace dizer, este é um dos tipos de debate mais entediantes que existe! São os textos feitos por advogados e promotores perante a juízes e juris com o objetivo de convencê-los da inocência ou da culpa do réu. É extremamente formalizado e controlado por regras, sendo que estas variam muito de lugar para lugar.

Debate político: muito famoso e não se restringe somente aos debates formais organizados pelas emissoras de TV nas vésperas de eleições, mas também a diálogos descontínuos entre políticos através de suas campanhas e até mesmo a conversas informais entre eleitores.

Também estão inclusas nesta categoria as disputas político-ideológicas como campanhas por aprovação (ou reprovação) de determinadas leis, manifestações públicas e movimentos de mudança social. Não digo que todas essas são antes de mais nada debates, mas que envolvem debates polítcos em algum nível.

Evidentemente, há outros tipos de debate e de discussões, mas não os considero relevantes para colocar e nem acho que posso pagar o preço de ser enfadonho ao apresentá-los. Alguns poderiam dizer que faltou o debate religioso, mas não creio que seja o caso. O acréscimo do modificador religioso só altera o tema do debate, ao contrário do que acontece no debate político, no qual existem regras e objetivos claramente diferentes. O debate religioso busca verdades sobre religiões, ou seja, busca verdades; já o debate político busca votos. Por este motivo, existe uma categoria seperada para estes últimos mas não existe para aqueles primeiros.

Para ampliarem as leituras, sugiro os verbetes “Argument Theory” e “Negotiation” nas referências. E falando em negociação, talvez eu faça uma série sobre o assunto depois que fizer uma sobre erística. O debate científico fica com o Fomon. Como ninguém aqui entende de direito o suficiente e como poucos se interessam pelo tema, não falaremos sobre argumentos legais. Sobre debates políticos, um dos objetivos do blog a longo prazo é tratar de política, mas não com esse foco. Portanto, não garanto que haverá algo neste sentido.

Referências e Leituras Recomendadas:

Anúncios

Quer fazer um comentário?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s