Luciano Ayan: Idiota Savant, Analfabeto Funcional e Cristão Enrustido

Autores: Blog do Mensalão com colaboração de Rebeldia Metafísica

Este artigo começa com uma discussão sobre as respostas as três artigos do Rebeldia Metafísica – um sobre a origem da ciência, um sobre a causa do holocausto e outro sobre o Teste da Fé do Infiel (OTF) dadas pelo editor do blog Luciano Ayan. Depois, parte para uma análise da capacidade do citado editor de ler e interpretar textos corretamente, de criar objeções sérias e concisas contra argumentos dos quais ele discorda, de se achar capaz de refutar qualquer texto com o qual ele não concorde (e pior, usando a alcunha de cético) e da autenticidade de sua alegação de ser ateu/agnóstico. Tais análises serão complementadas com dados biográficos fornecidos pelo próprio.

Já aviso que o texto a seguir precisa de um pouco de paciência para ser lido (quebrei a página só para não sobrecarregar a Página Inicial) e que não é nenhum exemplar de romance do século XVIII em questão de polidez e educação (mas nada de exagerado ou de grotesco). Leitura obrigatória para quem gostou dos três textos do RM, para quem leu as respostas do Luciano Henrique, para quem não gosta dele e quer vê-lo levando uma que não esperava ou para quem gosta dele e precisa ter sua idolatria em um homem (melhor seria dizer: criança grande) abalada. Reservem de meia a uma hora e divirtam-se!


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O texto do blog Rebeldia Metafísica que pela primeira vez apresentou explicitamente o Teste da Fé do Infiel de John W. Loftus contém cáusticas insinuações  sobre o comprometimento neurocognitivo do blogueiro conservopata Luciano Ayan. Tais insinuações foram motivadas por sua desvairada réplica a dois capítulos do livro The Christian Delusion cujas traduções foram publicadas pelo Rebeldia Metafísica, O Cristianismo Não foi Responsável Pela Ciência Moderna e O Ateísmo não Foi A Causa do Holocausto, escritos por Richard Carrier e Hector Avalos, respectivamente. As suspeitas sobre a integridade cerebral e a correlata sanidade mental do referido blogueiro são plenamente justificadas e amparadas pelo conteúdo das postagens em que pretende ter refutado a argumentação dos dois acadêmicos. Antes de mais nada, em seus comentários aos dois artigos impera o automatismo que o estigmatizou e o fez cair em desgraça nos fóruns e espaços virtuais para debates, rendendo-lhe, da parte do editor do Rebeldia Metafísica, o epíteto de “idiota savant”.

Na verdade, compará-lo a um idiota savant, além de um insulto aos autênticos savants, é cometer uma “manipulação de categorias” que pode iludir o leitor quanto à real extensão de suas habilidades e talentos. Idiotas savants (em tempos de ditadura do politicamente correto, a designação apropriada seria “portador da síndrome de savant“, mas com certeza ao menos o idiota em que estão há de perdoar e talvez até aplaudir esta irrisória subversão) são indivíduos que, embora portadores de incapacidades mentais severas a ponto de inviabilizar sua autonomia e sociabilidade, exibem habilidades, talentos e aptidões que impressionariam mesmo se ostentados por uma pessoa comum. O nível de habilidade varia enormemente entre os portadores da desordem, indo desde uma extraordinária capacidade de memorização de trivialidades (truques erísticos, técnicas, rotinas e falácias, por exemplo) até algum espetacular virtuosismo artístico, como a capacidade de reproduzir esculturalmente, de memória e com uma estonteante verossimilhança e riqueza de detalhes, paisagens, animais em movimento visualizados de relance, obras musicais complexas ouvidas apenas uma vez, etc.. Outro aspecto relevante dos savants compartilhado pelo blogueiro é sua escassa compreensão associada ao exercício de seu dom, baseado meramente na repetição habitual, característica do furor com que enquadra mesmo a frase mais banal de seus interlocutores numa das entradas de seu  estapafúrdio catálogo de “truques”, “técnicas”, “rotinas” e demais categorias válidas exclusivamente em seu densamente povoado universo mental, entradas estas devidamente acompanhadas de uma resposta supostamente neutralizante.

Assim, por exemplo, ao subscrever as críticas infundadas supostamente levantadas por um de seus leitores (é curioso como quem primeiro proferiu os disparates foi o Adilson Stotelz, mas nos primeiros parágrafos de seu esperneio Luciano os atribui indebitamente a seu fake Investigador de Ateus), mais especificamente à colocação de Carrier de que o fato de as idéias apresentadas nas obras dos filósofos e cientistas medievais serem formuladas em termos amigáveis ao Cristianismo e à Bíblia ser mais revelador da atmosfera intelectualmente opressiva em que seus autores trabalhavam do que de sua hipotética inspiração bíblica:

c – A cereja do bolo é quando ele diz que os cristãos que fizeram ciência tinham que “se esconder” ou “fingir”, realizando leitura mental, apelação que o Carrier já tinha feito quando tentou dizer que Antony Flew ao dizer que acreditava em Deus não queria dizer isso na verdade.

Luciano Ayan inadvertidamente coloca-se diante de um dilema: na melhor das hipóteses, admitir que não leu o artigo de Carrier, e mesmo assim endossou as disparatadas críticas de seu leitor cristão sem averiguar se elas procediam, violando assim o ceticismo pleno que apregoa ad nauseam em seus textos; ou, na pior das hipóteses, reconhecer que leu o artigo e não o compreendeu, o que, dada a extraordinária clareza com que Richard Carrier expõe suas idéias, é um sintoma incontestável de seu analfabetismo funcional.

Deixando de lado o fato de a interpretação de Carrier ser vastamente respaldada pela longa e aterradora história de abuso de poder e supressão da liberdade de pensamento da Igreja Católica, paradigmaticamente resumida no caso Galileu, o próprio parágrafo que motivou a acusação de leitura mental contém uma frase que a desabona completamente _ Tal atmosfera compeliu todos a encontrar maneiras criativas de vender quaisquer novas idéias como perfeitamente cristãs, até mesmo bíblicas, independentemente de seu real motivo ou inspiração palavras estas perfeitamente compatíveis com a atribuição de uma devoção sincera, em vez de uma piedade simulada, a estes pensadores cristãos. Estes poderiam muito bem ser cristãos devotos ao mesmo tempo imbuídos do espírito científico tão caro à cultura greco-romana de que àquela altura eram herdeiros, e que tentavam conferir respeitabilidade intelectual às suas ridículas crenças religiosas conciliando-as com a herança helenista.

Sobre a acusação de “leitura mental” tão recorrente nos textos do Ayan e lançada a torto e a direito por seus discípulos, mais algumas palavras. Primeiro, não há nada de absurdo ou intelectualmente desonesto em especular sobre o que se passa na mente de alguém, sejam idéias ou sentimentos motivadores, ou mesmo no universo mental de populações inteiras que viveram há séculos. Prova disso é a existência de um campo de estudos nas ciências humanas designado Psicologia Histórica (que provavelmente não figura entre os míseros 0,01% da Psicologia que estão corretos), que levanta hipóteses sobre o universo espiritual de uma cultura, suas “atividades e funções psicológicas: aspectos do espaço e do tempo, memória, imaginação, pessoa vontade, práticas simbólicas e manejo de símbolos, modos de raciocínio, categorias de pensamento”, a partir de seu legado arqueológico, artístico e literário. Outra fato que põe por terra a validade desta acusação é a teoria da mente do influente filósofo e cientista cognitivo Daniel C. Dennett, que a esta altura dispensa apresentações. Segundo o próprio, sua teoria, que pode ser sucintamente chamada de funcionalismo de ocorrência, propõe que

Para todo x, x sustenta a crença numa determinada proposição p se e somente se pode-se fazer a predição de que x sustenta a crença em p.

Naturalmente, a defesa desta teoria vai muito além do escopo deste pequeno texto, mas vale observar que a teoria de Dennett é a que melhor responde a certos desafios do problema mente-corpo sobre os quais se sustentam algumas teorias dualistas.

O curioso, contudo, da desesperada insistência de Luciano Ayan nesta acusação é sua inconsistência com seu alegado ateísmo. Sendo o ateu darwinista hardcore que ele constantemente, e de maneira muito suspeita, reivindica ser, o esperado seria que ele mantivesse uma posição ou neutra ou mais afinada com seu alegado naturalismo no que concerne ao problema mente-corpo. Mas subjacente à sua acusação de “leitura mental” encontra-se a noção de acesso privilegiado que uma pessoa tem a seus estados  e conteúdos mentais, frequentemente invocada por teístas em debates sobre a natureza da mente para conferir alguma plausibilidade à noção de alma imaterial. Mas, sejam lá quais forem os méritos desta noção, ela não parece ser de grande valia para quem afirma adotar um suposto paradigma sociobiológico darwinista e põe-se constantemente a fazer previsões sobre o comportamento de seus adversários baseado em teorias da dinâmica social. Será ele capaz de explicar satisfatoriamente esta aparente incoerência em seu discurso?

Já o texto em que dá livres rédeas à sua imaginação quixotesca contra o artigo de Avalos é demasiado longo e francamente irrelevante para ser submetido a uma análise minuciosa; serão destacados apenas os pontos escandalosamente problemáticos e que confirmam também, além da idiotia savant, o diagnóstico de analfabetismo funcional. Primeiro, extremamente revelador também de sua indigência intelectual, são os CINCO parágrafos em que ele fracassa miseravelmente em contestar a afirmação de Avalos de que não há diferença ÉTICA entre matar por motivos religiosos ou motivos raciais. Responda-nos, Luciano Ayan, objetivamente, sem tergiversar, e atenha-se aos fatos: o que torna um assassinato por razões raciais mais ou menos condenável do que um assassinato por razões religiosas? Você terminou seu comentário sobre o tópico afirmando que “uma violência cometida por motivos étnicos e/ou nacionais, não é o mesmo que uma violência cometida por motivos religiosos”, sem, entretanto, esclarecer qual seria esta diferença de um ponto de vista ÉTICO.

O fato é que, embora apresente-se como bastião da resistência conservadora contra os alegados excessos da ética humanista, este energúmeno é beatificamente ignorante dos princípios e argumentos que fundamentam a moral secular, e, em vez de procurar se informar a respeito, prefere agradar a seu público de carolas e bancar o conservador dramático quando se depara com uma conclusão que ofende seus arraigados preconceitos cristãos. Ou talvez esteja apenas advogando em causa própria, já que se posiciona contra a eliminação de mongolóides e anencéfalos. De qualquer maneira, para o bem do que ainda resta de sua esfrangalhada reputação e para minimizar a desinformação de seus leitores, deveria abster-se de fazer qualquer pronunciamento sobre o tema.

Um pouco mais adiante em seu texto, Luciano Ayan teve a pacholice de, mesmo depois de todos os problemas identificados por Avalos com a credibilidade das Conversações Íntimas, apresentar triunfantemente uma citação desta fonte questionável como a pá de cal sobre o argumento de Avalos interpretando o Cristianismo Positivo como uma forma de Cristianismo tão válida quanto qualquer outra. Mais uma vez, somos obrigados a perguntar: terá Luciano Ayan realmente lido o texto? Se o leu, será ele um analfabeto funcional?

Em seu desespero (injustificado para um suposto ateu) para isentar a qualquer custo o Cristianismo de qualquer responsabilidade pelo Holocausto, Luciano Ayan insiste no argumento pífio de que “uma idéia deturpada, a partir de uma idéia original, não culpa a idéia original por sua deturpação.” Correndo o risco de entediar o leitor, levanto mais uma vez a pergunta que não quer calar: teria Luciano Ayan realmente lido o texto ou seria ele um analfabeto funcional? Além de ignorar sumariamente o parágrafo em que Avalos explica sucintamente a lógica que governa o surgimento e a evolução de religiões em geral e do Cristianismo em particular _ se não se sentir convencido pelas palavras de Avalos, sugiro que leia atentamente os posts “Um olhar antropológico sobre o(s) cristianismo(s)” e a série “A evolução do cristianismo“, escritos por um antropólogo cultural _ ele não percebe que, levado às últimas consequências, seu argumento concluiria pela inautenticidade de, sem exceção, todas as denominações cristãs atualmente existentes e boa parte das que já existiram? Na verdade, como a crença autenticamente cristã foi apenas aquela dos adeptos do irrisório, revitalicionista e apocaliptista Movimento de Jesus, todos os acréscimos e transformações posteriores não passam de “deturpações da idéia original”, e portanto, de acordo com a lógica do blogueiro, não contam como Cristianismo. Obviamente, seguindo esta lógica, o Cristianismo também não pode ser responsabilizado pelo surgimento da ciência moderna, contradizendo a tese que ele endossa ao subscrever as objeções do Adilson Stotelz/Investigador de Ateus.

Outra consequência deste princípio que o retardado também não antecipou e decerto lhe soará inaceitável é o fato de ele, se aplicado consistentemente, também isentar o ideário iluminista pelas agendas esquerdistas contemporâneas que ele tanto fustiga, já que, a rigor, nenhuma delas preserva integralmente as propostas originais. É pouco provável que ele esteja disposto a arcar com um custo a tal ponto estratosférico.

Uma outra incoerência presente neste argumento ridículo que passa por cima de 2000 anos de contínuas reinterpretações, restaurações, assimilações e cismas característicos da evolução do Cristianismo, é o fato de seu proponente, supostamente ateu, arrogar-se a autoridade para decidir o que conta e o que não conta como autêntico cristianismo. Este é um julgamento teológico. Até o presente momento, os mais destacados e talentosos teólogos e apologistas não desenvolveram nenhum método confiável para resolver definitivamente questões levantadas e debatidas há séculos e que impulsionam a proliferação epidêmica de novas seitas. Estaria Luciano Ayan de posse de tal revolucionário (num sentido não-esquerdista do termo, claro) método para alcançar o consenso sobre o verdadeiro sentido da mensagem bíblica? Acho isso pouco provável, principalmente à luz de sua irrisória carga de leituras teológicas e filosóficas (segundo as palavras do próprio). De qualquer maneira, poderia ele explicitar o critério pelo qual valida ou rejeita as mais variadas doutrinas cujos adeptos reivindicam o rótulo de cristãos, lembrando-se de que ele deve ser aplicado consistentemente, e não de forma a produzir as conclusões que melhor lhe convém?

Se ele leu o segundo capítulo da série “A evolução do Cristianismo“, sabe que as divergências entre as inúmeras correntes do cristianismo primitivo foram suprimidas por decreto (a única maneira de dar cabo de polêmicas religiosas. Os textos canônicos são vagos o bastante para permitirem interpretações contraditórias. Deus, se existe, parece não estar muito preocupado com as sangrentas consequencias desta diversidade ao ponto de manifestar-se e resolve-las em definitivo. Para apaziguar os ânimos exaltados e as turbulências sociais decorrentes, só mesmo recorrendo à força). Tem ele consciência de que, houvessem os nazistas vencido a Segunda Guerra Mundial, a imagem que os europeus teriam hoje de Cristo seria a do precursor do nazismo, o primeiro ariano a denunciar e a se rebelar contra a corrupção e degradação judaica? E tal nazificação do caráter de Cristo meramente espelharia a elitização pela qual passou quando os teólogos antigos realçaram seu aspecto divino em detrimento do caráter popular de Jesus, borrando os limites entre teologia e política _  o teto da Basílica de Santa Sofia, em Istambul, representa Cristo Deus de mãos dadas com o imperador, deixando de fora o povo. O mesmo caráter de crítica aos poderes constituídos e clamor por justiça social características da tradição messiânica hebraica, na qual se inscrevia o Movimento de Jesus, da qual descende a maior parte da esquerda moderna e contemporânea, e em cuja fonte bebe a Teologia da Libertação que o conservopata rejeita como uma “deturpação do Cristianismo” obviamente sem explicar o porquê e, mais obviamente ainda, de maneira suspeitamente condizente com sua visão de mundo.

Enfim, é absolutamente impossível levar a sério esta objeção, além de levantar sérias dúvidas sobre seu tão alardeado ateísmo. Se ele ao menos tivesse sido bem sucedido em montar seu caso, poderíamos compreender seu afá em defender uma tese controversa que vai de encontro a no mínimo um século de história do antissemitismo. Mas com uma defesa tão tosca e passional, só nos resta crer que Luciano Ayan, ao contrário do que repete incansavelmente, , não se tornou ateu coisíssima nenhuma. Só no post sobre o artigo de Avalos ele afirmou ser ateu duas vezes _ por que ele repete isso com tanta frequência? Se isso fosse um fato, não deveria estar nítido e inequívoco em suas palavras e atitudes a ponto de tornar tais afirmações quase pleonásticas? Quantas vezes vocês já viram o editor do Rebeldia Metafísica afirmar ser ateu? Quantas vocês vocês já viram o autor deste blog afirmar que é ateu? E alguém tem alguma dúvida disso? Ironicamente, quem precisa ficar confessando sua crença em algo são os cristãos, que precisam lembrar pelo menos umas dez vezes ao dia que amam e acreditam em Deus. Aparentemente, hábitos arraigados são difícieis de ser mudados, principalmente quando se trata de mentes tão inferiores do ponto de vista intelectual. A discussão de sua objeção ao Teste da Fé do Infiel (OTF) dissipará qualquer dúvida que porventura ainda paire sobre isso.

Ao longo de um texto recheado de acusações inflamadas, esquivas e comparações inválidas, Luciano Ayan utiliza doze vezes a expressão “manipulação de categorias” para tentar desqualificar o OTF, sem se preocupar em esclarecer o significado exato da expressão. “Manipulação de categorias” é uma acusação frequentemente lançada contra líderes sindicais que se aproveitam da filiação compulsória dos trabalhadores a sua respectiva entidade sindical para enriquecer ilicitamente às suas custas. A julgar pelas analogias com que malogra em demonstrar a invalidade do OTF, por “manipulação de categorias” Luciano Ayan talvez se refira a uma tentativa análoga por parte dos ateus de capitalizar sobre a filiação quase compulsória da maioria dos religiosos a alguma denominação, ao mesmo tempo em que ocultam sua própria adesão a alguma visão de mundo secular alternativa às religiosas.

Sim, é verdade que se os religiosos em massa submetessem suas convicções religiosas ao OTF, alguns dos objetivos de uma visão de mundo humanista secular seriam alcançados na medida em que seria atenuada ou suprimida uma parcela considerável da motivação para a violência ou o engajamento político religioso.  Mas de que modo isto retira a validade do teste ou a solidez de suas premissas? Para quem se diz um paladino defensor dos debates públicos das garras das falácias, aqui ele parece ou muito ingênuo ou muito hipócrita ao tentar refutar o OTF usando um Apelo à Consequência. Apresentar consequências indesejáveis de uma conclusão não é argumento contra a sua validade (da mesma forma que consequência desejáveis não atestam sua validade). Mais ainda, embora esteja formulado em termos de crenças religiosas, ele é aplicável à quaisquer crenças que satisfaçam às teses da diversidade e da dependência. Se visões de mundo seculares não são contempladas por estas teses (e em princípio não há nada que impeça que sejam), o problema não é com o teste; e aqueles perturbados com essa assimetria sintam-se à vontade para elaborar um teste análogo para outros tipos de crenças.

Luciano Ayan também utilizou uma vez no post a expressão “erro de categoria”, e quando questionado sobre algum post específico sobre o tema, remeteu o editor do RM a um post antigo que, malgrado um princípio promissor, termina pecando por seu costumeiro e injustificado excesso de autoconfiança, negligenciando algumas sutilezas implicadas pela diversidade religiosa que debilitam irremediavelmente a plausibilidade de toda e qualquer religião ou variação dentro de um mesmo tronco religioso, e brindando seus leitores com esta pérola da desonestidade apologética:

Dessa forma, mesmo se surgirem 50.000 religiões por minuto, nem isso seria um argumento a favor do ateísmo, pois a discussão de validade de uma religião pertence à OUTRA CATEGORIA do que a discussão da existência em Deus.

A “ingenuidade” (sendo caridoso) desta alegação pode ser conferida confrontando-a com o argumento exposto aqui. E depois ainda insiste não ser um apologista, os únicos seres do universo capazes de negar que tal fato é, no mínimo, uma objeção séria a se levar em conta. Aham… vamos todos fingir que acreditamos que ele não é [mais] um apologista.

Mas o que vem a ser um “erro de categoria”? Um erro de categoria ocorre quando se confunde o tipo lógico, ou categoria, de uma certa expressão. Por exemplo, se alguém se refere a um argumento como “inconsistente”, a uma proposição como “inválida” ou a um conjunto de proposições como “sólido”, está cometendo erros categóricos ao tentar concatenar inadequadamente predicados com sujeitos aos quais eles são inaplicáveis; “consistência” é um atributo de conjuntos de proposições, “validade” e “solidez”, de argumentos. Erros categoriais podem ser mais sutis; imagine, digamos, um desses adolescentes descerebrados estudante de escola pública e fã do Black Eyed Peas que por meio de uma promoção da Joven Pan e com corte de cabelo do Neymar (aí é pracabá) é agraciado com uma viagem para conhecer a Sony Music. A viagem inclui uma visita às fábricas de cd’s e dvd’s na Zona Franca de Manaus, aos escritórios dos executivos, aos estúdios onde os artistas gravam seus trabalhos, aos departamentos de marketing, culminando num almoço com o presidente da Sony na sede internacional em seja-lá-onde-for-a-sede-internacional. Imagine agora que após esta viagem com escalas em vários estados e países, nosso hipotético imbecil pergunte inocentemente, “Mas, de todos estes prédios e fábricas que a gente visitou, qual deles realmente é a Sony?” Ele falhou em perceber que a Sony enquanto uma multinacional não se confunde com suas instalações físicas; ela é o modo como todas estas instalações que ele visitou, bem como seu quadro de funcionários inteiro, encontram-se organizados e administrados, num nível mais abstrato. Não é à toa que a Generalização Apressada e o Dicto simpliciter (Regra geral) são falácias alocadas no gênero “Erros de Categoria”.

Quanto ao OTF, entretanto, este não incorre em nenhum erro de categorias. Recapitulando, o Teste do Fé do Infiel pode ser resumido da seguinte maneira:

Em poucas palavras, isto resume o OTF. É um argumento sobre crenças, o modo como são adquiridas, como isto influencia a probabilidade de que sejam verdadeiras ou falsas e sobre a melhor perspectiva para julga-las, dado este viés; em nenhum momento ele tenta atribuir às crenças ou às possíveis perspectivas predicados que não se aplicam a estas categorias. Tampouco infere erroneamente, a partir de achados no domínio epistemológico, conclusões de caráter ontológico _ falando num vocabulário popular, o argumento não conclui a inexistência de Deus a partir do modo como a crença em Deus é adquirida. De modo que, seja a acusação do Ayan contra o OTF a de que ele “manipula categorias” ou de que “erra categorias”, aparentemente nenhuma delas procede. Isso invalida possíveis acusações futuras de incorrer na famigerada Falácia Genética: o raciocínio que frusta tal objeção é o mesmo.

Duas analogias são apresentadas para ilustrar a alegada invalidade do OTF, a das divergências internas ao darwinismo e a dos compradores de carro, mas nenhuma delas serve para minar o OTF. O darwinismo, ou evolução biológica por seleção natural, é, antes de mais nada, uma teoria científica muito bem estabelecida e respaldada por evidências oriundas das mais diversas ciências naturais, como a geologia, a biologia molecular, os métodos de datação radioativa, etc. (O Luciano hoje se declara como um aplicador impiedoso do darwinismo, cujos textos afiados como navalha são capazes de destruir qualquer crença no homem de forma fria e dolorosa. Mas há alguns anos, como irei mostrar em sua biografia na terça feira, ele chegou a escrever com todas as letras que o darwinismo falhava. Duvido que sua mudança de opinião seja decorrente do entendimento das evidências do darwinismo, mas sim da compreensão de que ele pode ser usado como arma contra o ateísmo. Ele consegue amparar até mesmo sua crença em um campo científico bem estabelecido em cima de falácias, neste caso a do Apelo à Consequência: “o darwinismo é verdadeiro porque é útil a meus propósitos anti-ateus”.)

Já o sobrenaturalismo em todas as suas formas encontra-se num estado absolutamente miserável pelos padrões empírico-racionalistas das ciências naturais. Nenhuma evidência inexplicável por hipóteses naturalistas foi apresentada em seu favor, quanto mais um caso sólido em sua defesa. Ao contrário do que afirma em seu texto, não existem “vários darwinismos”, mas sim controvérsias quanto a quais entidades – genes, memes, organismos individuais, grupos de maior ou menor tamanho (famílias ou grupos cujos membros apresentam um parentesco mais longínquo) – satisfazem as condições para que o algoritmo evolutivo opere. Dga-se de passagem, sua afirmação de que existem vários tipos de darwinismo trai um objetivo implícito de distorcê-lo em nome de seus próprios e escusos objetivos pessoais.

O algoritmo da evolução natural em si, cuja fórmula é “Se houver replicação, pontuada por variações ou mutações aleatórias, e em decorrência da variação, aptidão diferencial para a obtenção de recursos, então os indivíduos mais aptos na obtenção de recursos serão mais bem-sucedidos em se replicar“, é uma verdade necessária a priori, ou seja, independe de averiguação empírica. Já o sobrenatural é uma mera possibilidade, uma contingência que inspira e consola a maioria das pessoas. Além disso, ao contrário das divergências religiosas, existem métodos empírico-racionais pelos quais estas alegadas divergências entre os darwinistas podem ser resolvidas; ao contrário das alegações religiosas, não existe nada de extraordinário nas teses darwinistas, no sentido irem de encontro aos fatos mundo tal como é; e a distribuição dos adeptos de cada possível aplicação do algoritmo darwiniano não satisfaz a tese da diversidade religiosa.

A analogia dos donos de carro é ainda pior. Não consegui encontrar um paralelo relevante entre “ter um carro” e “ter uma religião” (a existência de alternativas não é relevante); além disso, todas as razões que uma pessoa apresentar para justificar sua escolha por um modelo específico são empiricamente verificáveis e, se forem mera questão de gosto, de preferência subjetiva ou por atenderem a necessidades particulares, estando esta preferência ou necessidade ausente em quem optou por não adquirir um carro, ele está plenamente justificado em sua decisão. Parece-me a diferença decisiva entre “ter um carro” e “ter uma religião” é que a primeira ou se apóia em aspectos subjetivos que não precisam ser universalmente válidos ou se apóia em fundamentos objetivos empiricamente verificáveis. Já “ter uma religião”, se compromete com afirmações factuais sobre a realidade objetiva na melhor das hipóteses não-averiguáveis.

Do que foi exposto nos dois parágrafos anteriores, fica nítido que o verdadeiro “manipulador de categorias” é o sr. Ayan, que confunde doutrinas religiosas com teorias científicas, e questões de fato com questões de gosto, ou de valor. Entretanto, todos sabemos que Luciano Ayan é um pensador arrojado e vanguardista, e existe a (evanescentemente remota) possibilidade de que ele valendo-se de um recurso teórico ainda não dominado (quiçá nem mesmo dominável) por autoproclamados portadores da mentalidade empírico-racionalista, como o editor do Rebeldia Metafísica e os autores cujos textos ele traduz, por exemplo. Existe também a possibilidade de que seus assíduos leitores e comentaristas, como o JMK, o VV e o Acauã, entre outros, sejam membros de uma confraria de iniciados operando num nível de consciência transcendente ao de reles neoateus obcecados pela realidade sensível; iniciados estes a quem foi concedido o privilégio de uma compreensão profunda das doutrinas do “mestre“. Convidamo-los, portanto, na medida em que o compromisso com o mistério e a autoridade do culto lhes permita, a esclarecer e evidenciar a solidez da acusação de “manipulação” ou “erro de categorias”.

Mas ainda há algo mais de muito estranho e suspeito na relutância obstinada do suposto ateu Luciano Ayan em admitir a existência da diversidade religiosa. Ele afirma que “O que ocorre é que, dentro do cristianismo, temos pessoas que COMPARTILHAM a crença em Deus da mesma forma que um judeu ou islâmico” e que “É irrelevante se o cristão e o judeu chegam em um judeocristianismo genérico, se ambos mantém a MESMA crença em Deus, eles são TÃO CÉTICOS em relação ao ateísmo quanto o ateu é CÉTICO em relação ao teísmo”. Ele também diz que os proponentes do OTF “fingem que há várias fés religiosas”, e que “a tese da diversidade religiosa é um estratagema bobinho”. Lemos também que “…antes de existir o ‘duelo’ entre islamismo, judaísmo e cristianismo, existe um ‘duelo’ entre teísmo e ateísmo”. Neste comentário, ele ainda apresenta a analogia das versões discrepantes do ocorrido numa reunião sem registros com a presidência. Tudo indica que nesta analogia Deus seja representado pela figura do presidente. Como um ateu pode propor, para explicar a existência da diversidade religiosa, uma analogia que pressupõe a existência de um ser em que ele não acredita é algo que extrapola meu modesto entendimento. Parece-me também um desafio insuperável à inventividade exibida na profusão de desculpas esfarrapadas com que a muito custo alivia a dissonância cognitiva de seu séquito.

Ao afirmar que “…antes de existir o ‘duelo’ entre islamismo, judaísmo e cristianismo, existe um ‘duelo’ entre teísmo e ateísmo” ele demonstra uma completa incompreensão da lógica do argumento. O ateísmo sequer é mencionado nas premissas, e o máximo de descrença sugerido pela conclusão, após sucessivas aplicações do teste, é o agnosticismo. Em última instância, o teste corroboraria sua cosmovisão supostamente  agnóstica. Além disso, ao contrário do que ele diz, os “duelos” entre religiões concorrentes precedem em séculos os debates modernos e contemporâneos entre ateus e religiosos _ basta ver a abertura deste debate do Craig em que o moderador conta (no final da terceira página) a história de um debate entre um cristão e um judeu; de fato, eles podem sim, inclusive, figurar num argumento probabilístico em favor do ateísmo. Quanto às demais afirmações, uma delas enriquece o dicionário de novilíngua orwelliana com o verbete “ceticismo” (que segundo o Ayan significa tanto “suspender a crença em proposições para as quais não há evidências suficientes” quanto “assentir na crença em proposições para as quais não há evidências suficientes”); todas levam em conta apenas os monoteísmos abraâmicos, negligenciando sua incompatibilidade indissolúvel com outras concepções sobrenaturalistas; em comum, todas incorrem na falácia essencialista, ou seja, pressupõem a existência de um denominador comum exterior aos discursos das três tradições sobre a divindade.

Mas como é possível chegar a um acordo sobre as determinações de uma realidade confinada às páginas que a contém? Pior ainda, como um autoproclamado ateu pode valer-se de um argumento incompatível com o ateísmo e ao mesmo tempo ingênuo e desonesto a ponto de sua falsidade ser evidente até mesmo para ignorantes fundamentalistas cristãos e islâmicos?

Esclarecendo este último ponto: Luciano Ayan supostamente é um ateu. Como ateu, não acredita na realidade objetiva de nenhuma divindade, seja o Javé do Pentateuco, seu filho Jesus dos Evangelhos ou ainda seu heterônimo árabe, Alá. Assim como não acredita em qualquer dos olímpicos do panteão grego, seja o supremo Zeus, seus irmãos Poseidôn e Hades, sua esposa-irmã Hera ou sua filha Palas Atena, nem em nenhum de seus correlatos romanos com suas respectivas idiossincrasias, (Júpiter, Netuno, Plutão, Juno, Diana, etc.; todos eram divindades romanas que posteriormente, em virtude da helenização da península itálica e de afinidades funcionais, foram amalgamadas e identificadas com as gregas). Ele decerto não argumentaria, contra um helenista que exibisse a incompatibilidade das versões de Prometeu de Hesíodo, Ésquilo e Platão, que se trata do mesmo imortal, sobre o qual os três autores divergem em pontos irrelevantes. O mais sensato seria concordar com os estudiosos que compreendem o personagem como três construções diferentes que refletem os valores, as preocupações e as circunstâncias em vigor em três diferentes períodos na Grécia Antiga.

Em relação às escrituras hebraicas e cristãs, 150 anos de estudos bíblicos empreendidos por arqueólogos, antropólogos, linguistas, historiadores, entre outras classes de estudiosos, levaram à conclusão de que pouquíssimo, se tanto, dos personagens e episódios nelas descritos e relatados são factuais. Um ateu, descrendo na realidade concreta e objetiva de qualquer divindade, explica a existência da crença nelas por meio de hipóteses e teorias de projeções antropomórficas sobre a totalidade dos cosmos de forças, tensões e anseios psíquicos, bem como de estruturas socioculturais efêmeras e historicamente contingentes, além da simbolização de fenômenos e elementos do mundo natural. Assim sendo, é compreensível que a concepção da divindade evolua temporalmente ao sabor da atuação de forças naturais e históricas impessoais, bem como varie geograficamente segundo determinações ecológicas e seus correspondentes efeitos nas formas de organização social. A cada nova configuração socio-economico-cultural, uma nova concepção da divindade. Na medida em que estas são idealizações completamente dependentes das condições materiais que refletem, é puro nonsense afirmar que todas se referem à mesma realidade última, absoluta e incondicionada. Esta teoria das projeções e da dependência ambiental e cultural encontra-se precariamente enunciada num dos fragmentos supérstites do pré-socrático Xenófanes:

Se os bois e os cavalos tivessem mãos e pudessem pintar e produzir obras de arte similares às do homem, os cavalos pintariam os deuses sob forma de cavalos e os bois pintariam os deuses sob forma de bois. (…) Os egípcios dizem que os deuses tem nariz chato e são negros, os trácios, que eles tem olhos verdes e cabelos ruivos.

Essa é uma possível razão pela qual Javé é concebido como um monarca absolutista cósmico  que resgata os hebreus do jugo egípcio, concede-lhes um território e prescreve-lhes leis supostamente distintivas dos demais povos, acompanhadas das implacáveis punições aos transgressores; de maneira similar, o Novo Testamento, a despeito de sua heterogeneidade (fenômeno também presente no Antigo), torna-se mais compreensível se se atenta para o contexto da ocupação romana helenizante desorientadora sob a qual viviam os judeus do época do surgimento do Cristianismo; assim como as reivinidicações exclusivistas do Alcorão, malgrado sua reciclagem das antigas fábulas judaicas e cristãs, reflete o ressentimento de certas comunidades árabes por não disporem de uma teofania dirigida exclusivamente a elas.

Mas não é necessário ser ateu ou lançar mão de teorias de projeções antropomórficas para reconhecer a pluralidade teológica exibida dentro de uma categoria cujos membros partilham afinidades significativas. O conservador teísta simpatizante das religiões tradicionais Luiz Felipe Pondé, por exemplo, declara com a verve iconoclástica que lhe é característica:

Veja, por exemplo, os eventos para diálogo inter-religioso. A discussão não pode durar mais do que meia hora, e logo deverão servir os drinks e os croquettes, porque mais do que meia hora implicaria começar a falar a sério sobre as diferenças entre as religiões (as religiões não querem todas a mesma coisa, isso é conversa “de mulherzinha”). Imagine cristãos e judeus conversando sobre suas religiões. Cristãos assumem que Jesus foi o Messias que os judeus esperavam (e também que ele é Deus), e, portanto, os judeus teriam perdido o bonde da história ao não reconhecer Jesus como Messias. Por sua vez, os judeus pensam que os cristãos pegaram o bonde errado ao assumir que Jesus foi o Messias. Logo, conflito. Melhor tomar drinks e comer croquettes.

Mas por que deveríamos ignorar o que os próprios adeptos de cada uma das religiões concorrentes tem a dizer sobre o assunto? Por que razão as Testemunhas de Jeová batem de porta em porta tentando converter ao “autêntico” e “genuíno” cristianismo, o único que realmente agrada a Jeová, e persuadindo católicos, batistas, presbiterianos,  mórmons ou adeptos de qualquer outra denominação a abandonarem suas práticas e crenças deturpadas, na verdade instituídas por mentiras semeadas pelo Adversário? Sabemos também que os muçulmanos hostilizam o Ocidente como “O Grande Satã”, responsabilizando-nos por todos os males de que o mundo padece. Alguém além do Luciano Henrique seria tão desatinado a ponto de dizer que tal epíteto não implica concepções da divindade radicalmente inconciliáveis? Que tal a declaração de Franklin Graham, filho de Billy Graham, patentando a inspiração parcialmente religiosa da guerra americana ao terror:

Não estamos atacando o Islã mas o Islã nos atacou. O Deus do Islã não é o mesmo Deus. Ele não é o Filho de Deus da fé cristã ou judaico-cristã. É um Deus diferente, e acredito ser o Islã uma religião perversa e imoral.

O fato é que, para nos restringirmos apenas aos monoteísmos abraâmicos, qualquer adepto de uma de suas formas que fizesse a menor concessão à qualquer reivindicação de veracidade das doutrinas distintivas das outras duas incorreria em blasfêmia; um muçulmano contemporâneo seria condenado à morte por isso, e o mesmo aconteceria com um cristão medieval ou um judeu da antiguidade (no caso deste último, em relação às religiões das populações vizinhas). Em todo caso, não podemos negar a possibilidade (mais uma vez, implausível no limite do absurdo) de que o conservopata e a esta altura claramente um cristão enrustido esteja de posse do revolucionário  (mais uma vez, num sentido não-esquerdista do termo, por favor) argumento capaz de encerrar as disputas religiosas demonstrando a identidade das três versões da divindade abraâmica, e intimamo-lo a publicá-lo, já que até o presente momento ele se limitou a alegar sem oferecer provas.

Caso seja bem sucedido, sugerimos que ele se candidate ao cargo de embaixador da ONU e inicie uma promissora carreira mediando diálogos inter-religiosos nos quatro cantos do globo, contribuindo para atenuar a violência sectária e construir um mundo melhor, mais pacífico e agradável de se viver, quem sabe até pavimentando o caminho para sua futura canonização (caso consiga converter judeus, muçulmanos, protestantes e católicos não-ortodoxos ao catolicismo romano) ou para um prêmio Nobel da Paz! (Antes que algum conservopata afrescalhado enxergue um viés humanista/esquerdista nessa sugestão ingenuamente utópica, adianto que sua única inspiração é a esperança de que ele seja sumariamente executado quando afirmar diante de um xiita que Alá e Javé são o mesmo Deus, contribuindo assim para tornar a blogosfera um ambiente menos poluído).

A insistência apaixonada e que beira a obsessão deste mito conservador-ateu em negar a diversidade religiosa e em dizer que os deuses dos três monoteísmos são o mesmo só faz mesmo sentido sendo ele um ainda teísta.

Este indiciamento poderia terminar por aqui. As evidências fornecidas são mais do que suficientes para justificar o enclausuramento do demente numa cela acolchoada e  sua utilização como cobaia em testes de novos psicofármacos. Mas, como até hoje nenhum diagnóstico perdeu em exatidão por excesso de informações, dediquemos mais alguns parágrafos à prospecção do post em que o blogueiro exibe para além de qualquer dúvida razoável os graves transtornos de que é portador. (Abro um parêntese para especular sobre a possível origem destas desordens. Eu, particularmente, acredito serem fruto de defeitos congênitos exacerbados por hábitos deletérios. Sabemos que ele possui um passado esquerdista. Todos sabemos que esquerdistas são notórios pelo abuso de psicotrópicos. Durante sua adolescência, Luciano Henrique provavelmente enfiou a cara nos tóxicos e lesou ainda mais suas já defeituosas e rarefeitas sinapses. Sabemos também que ele vem de uma família de advogados. Mas lemos no relato de seu passado esquerdista que ele precisou trabalhar para ajudar a custear seus estudos. Uma educação assim tão dispendiosa provavelmente foi empreendida numa faculdade privada. Mas a maioria dos que cursam faculdades privadas o fazem porque não possuíram competência ou conhecimentos o bastante para serem aprovados nos concorridíssimos vestibulares das universidade públicas. Os que chegam ao fim do ensino médio _ segundo grau em sua época _ com esse déficit ou foram alunos medíocres ou estudaram em precárias escolas públicas. Das duas uma: ou Ayan vem de uma família de advogados fracassados e sem grandes recursos, daqueles que conquistam clientela distribuindo cartões de visita na porta de cadeias, ou uma família de workaholics negligentes para com a prole _ sabemos também como o descaso afetivo dos genitores pode deixar sequelas irreversíveis na formação e na constituição psicológica dos filhos. A criação de fakes para a autoadulação pode ser um resquício de mecanismos compensatórios desenvolvidos na infância ou mesmo uma manifestação psico-somática de seus desejos de praticar a auto-felação).

Comentando as evidências fornecidas pelo editor do Rebeldia Metafísica de que o célebre e renomado apologista cristão William Lane Craig utiliza um duplo padrão ao defender seu argumento kalam para a existência de Deus, Ayan escreveu:

Como sempre, mais fraudes. Na verdade, Craig não utiliza dois pesos e duas medidas, pois ele não “defende a ideia da criação a partir do nada”, mas sim argumenta que sua crença é COERENTE com essa ideia. Portanto, ele não usa o Big Bang para provar a existência de Deus, para para mostrar que ele é CONDIZENTE com a crença em Deus. Aliás, eu me lembro dos meus tempos de teísta que Craig sequer usava um argumento, mas uma sequência de argumentos CUMULATIVOS.

O que Luciano escreveu sequer faz sentido como uma refutação à afirmação de que Craig defende a criação a partir do nada. Craig a defende sim, e cita astrônomos e cosmólogos contemporâneos para respalda-la, como pode ser visto neste artigo. Ademais, se Craig acredita que Deus criou o universo a partir do nada, no sentido temporal de que Deus fez surgir o universo sem uma causa material em algum ponto do passado finito, como lemos na página 672 de seu monumental “Filosofia e Cosmovisão Cristã“, escrito em parceria com o também acadêmico cristão J.P. Moreland, é trivial que sua crença seja coerente com a idéia de criação a partir do nada. Toda proposição é coerente consigo mesma; se p então p, oras. Além disso, Luciano Henrique ignorou completamente o ponto central do argumento do editor do Rebeldia Metafísica, que é a existência de um critério objetivo pelo qual se pode averiguar a consistência de alguém ao defender suas posições e atacar as que lhe são opostas. Mais uma vez, o que se torna patente nas palavras do conservopata é sua mania incontrolável de enxergar fraudes, técnicas, rotinas e truques no discurso de seus adversários, mesmo onde elas não existem (ou seja, sua idiotia savant); sua incapacidade de apreender o sentido real e pretendido das palavras de seus adversários (ou seja, seu analfabetismo funcional); a abnegação com que se lança em defender o indefensável (ou seja, seu cristianismo enrustido); e uma amnésia em relação a eventos recentes (Luciano escreveu seu post transcorrido menos de um ano da época em que torturava sua psiquê transtornada com leituras de apologética), provável sequela dos abusos psicotrópicos de seu passado esquerdista, que deveria preocupá-lo por serem sugestivos de um mal de Alzheimer precoce (ou nem tanto, já que, considerando-se verdadeiras as migalhas autobiográficas espalhadas em seus posts, ele já está rondando os quarenta).

Em face do quadro mórbido exposto acima, uma das coisas que mais surpreendem é a popularidade de seu portador. Com razoável frequencia ele lança mão de previsões sombrias e apocaliptistas como ferramenta de persuasão, antagonizando caricatamente o otimismo utópico que atribui a seus adversários. É uma curiosa variação do discurso típico de profetas milenaristas, que mais de uma vez levaram à morte voluntária centenas de seus discípulos. De minha parte tal desenlace seria antes louvável que lamentável _ e de bom grado agraciaríamos postumamente seu responsável com um Darwin Awards por aliviar este superpopulado planeta do peso de exemplares do Homo sapiens carregando genes que os tornam tão disfuncionais a ponto de serem vulneráveis à influência de tais celerados. A sensibilidade humanista contemporânea, entretanto, recomendaria antes sua vigilância ostensiva, a qual  a partir deste momento deixamos a cargo das autoridades competentes.

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3 opiniões sobre “Luciano Ayan: Idiota Savant, Analfabeto Funcional e Cristão Enrustido”

    1. Uau, que título criativo! Merece o prêmio Maria Remedeira 2012! Poooow, num dá pra fazer melhor que isso não?

      E de fato, se for pra ficar escrevendo fraude em cima de cada figura, então refutar é a coisa mais fácil do universo mesmo. Não dá trabalho nenhum, 100% eficiente. Agora, eficiência é diferente de eficácia…

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