O que Não é um argumento? – Parte 1: Alegações e Opiniões

Já estamos bem avançados na série “O que é um argumento”, e neste post abro um parênteses para explicar o que não é um argumento, já que muitas falas e muitos textos podem parecer argumentos, enquanto que na verdade não são. Este post aqui irá tratar da diferença entre alegações/opiniões e argumentos, já que esta é a dúvida mais comum. Mais uma vez, uso o texto da IEP como referência.

Conforme já explicado nas partes 2 e 3 de “O que é um argumento”, uma construção deve possuir um determinada forma e um determinado objetivo para que seja considerada um argumento. Normalmente, uma alegação visa convencer um interlocutor de alguma ideia que o locutor possui, tendo portanto um objetivo similar ao argumento. A diferença está na forma: uma alegação e uma opinião não apresentam premissa alguma, não sendo portanto a conclusão de nada.

Vejam como a mesma ideia pode ser expressa de formas diferentes:

“Choveu durante essa madrugada.” Alegação
“Eu acho que choveu durante essa madrugada.” Opinião
“Lá fora está tudo molhado, então choveu essa madrugada.” Argumento

Tanto a alegação quanto a opinião são proposições ou afirmações que não estão sustentadas sobre argumentos, mas qual a diferença entre as duas? Uma alegação é algo mais forte e mais enfático, que visa passar uma ideia certeza. Em alguns casos está relacionada a uma observação direta através dos sentidos, mas em outros casos pode representar uma ideia. Alegações do primeiro caso não precisam ser provadas ou explicadas, mas alegações do segundo tipo sim. Vejam:

“Segundo os resultados do meu teste, havia uma relação linear entre tensão elétrica e velocidade do motor.”
“Há uma relação linear entre tensão elétrica e velocidade para este tipo de motor.”

A primeira é uma alegação no sentido de constatação: estou apenas dizendo o que os resultados dos meus testes me mostraram. Ela é particular, só se refere aos resultados obtidos pelo meu procedimento, sobre as minhas condições e sobre o meu sistema. Não preciso argumentar, no máximo exibir os resultados. Já a segunda é universal e visa dizer que a relação linear é sempre válida para aquele tipo de motor. Neste caso, a construção é uma alegação no sentido de ideia e deve ser provada com argumentos e evidências.

Opiniões, por outro lado, são afirmações mais fracas. Normalmente são as hipóteses que queremos testar (num contexto filosófico ou científico) ou representam apenas um estado mental do interlocutor. Por exemplo:

“Eu acho que há uma relação linear entre tensão elétrica e velocidade para este tipo de motor.”
“Minha cidade é muito bonita.”

No primeiro caso, não se pode exigir do autor que ele prove o que diz. A não ser que se peça para ele rubricar um declaração onde jura perante a lei que realmente tem aquela opinião, risos! O que se pode fazer é pedir para explicar porque ele acha aquilo. Evidentemente, como não se pode exigir muito de uma opinião, também não se pode esperar muito dela… em um debate sério, opiniões dificilmente encontrarão espaço, especialmente se estiverem disfarçadas de argumento.

Normalmente uma opinião é construída com o uso de conectores enfraquecedores (weakeners) tais como “eu acho”, “na minha opinião”, “até onde eu sei”, “se eu não me engano”. Mas existem os casos onde são desnecessárias por serem muito óbvias, como quando eu disse que minha cidade é bonita.

Uma observação interessante é que às vezes podemos ter um argumento que oculta tanto premissas quanto a conclusão, de modo que só reste uma premissa. Nestes casos, o argumento irá parecer uma mera alegação e só uma leitura do contexto poderá nos mostrar a diferença. Mas atenção, nestes casos a suposta alegação entra como premissa e não como conclusão do argumento. Vejam:

“O Vereador Zé da Feira foi o redator do projeto que duplicou o salário dos vereadores do município.”

Parece uma mera informação, certo? Mas suponha que esta afirmação tenha sido feito após o interlocutor ter feito a seguinte declaração:

“Será que voto no Zé da Feira para prefeito?”

Neste caso, a alegação é um argumento camuflado. Para facilitar sua compreensão, apresento ele em forma de silogismo:

P1: Um político que dobra seu salário está interessado em governar em benefício próprio.
P2: Um político interessado em governar em benefício próprio é um político ruim.
P3: Nas eleições, não devemos votar em políticos ruins.
P4: O Zé da Feira redigiu um projeto para duplicar o próprio salário.
C: Logo, não devemos votar no Zé da Feira.

Contudo, em um contexto adequado apenas a quarta premissa é suficiente para que se transmita toda a ideia do argumento. Concordam? Então, aquilo que está ali parecendo uma mera alegação ou uma mera constatação é, na verdade, um esplendoroso argumento. Nem tudo que reluz é ouro e nem todo ouro reluz, se me permitem adaptar o famoso provérbio. Uma mera informação no momento certo vale tanto quanto um silogismo.

Em resumo, expliquei aqui as diferenças entre os dois tipos de alegações, opiniões e argumentos e mostrei como reagir à falta de motivos ou explicações dos primeiros. Deve-se tomar cuidado para não pedir provas de opiniões, até porque elas não costumam ser muito eficazes nas mãos de quem está em um debate mesmo. Alegações originadas de observações (“minha casa é azul”) também são um pouco complicadas de se provar através de discursos racionais. Por fim, apresentei um tipo de argumento que parece alegação mas que não é.

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