O que é um Argumento? – Parte 3: Forma e conteúdo

Este post trata das diferenças entre a forma e o conteúdo de um argumento. A forma, ou a estrutura formal, é a maneira como as premissas se relacionam entre si e com a com a conclusão. A forma de um argumento independe da validade das premissas, de forma que um argumento pode estar formalmente correto mesmo possuindo premissas absurdas como “todo azul é vermelho”.

O artigo da wikipedia Argument Form (link nas referências) apresenta um parágrafo interessante do ponto de vista histórico, cuja tradução apresento:

O termo “forma lógica” foi introduzido por Bertrand Russell em 1914, dentro de seu programa para formalizar a linguagem natural e a argumentação, o que ele chamou de lógica filosófica. Russell escreveu: “Algum nível de conhecimento de formas lógicas, apesar de não serem evidentes para muitas pessoas, está envolvido em toda compreensão de discurso. A função da lógica filosófica é extrair conhecimento de textos brutos e deixá-lo explícito e puro.

A análise da forma de um argumento se dá inteiramente no campo da lógica. É por isso que algumas pessoas preferem excluir todo o conteúdo de um argumento durante uma análise da formalidade, substituindo as ideias por letras. Por exemplo:

(1) Todo uberlandense é mineiro.
(2) João é uberlandense.
(3) Logo, João é mineiro.

Substituímos os termos similares de (1-3) por letras, para retirarmos o conteúdo e ficarmos somente com a forma:

(4) Todo U é M.
(5) J é U.
(6) Logo, J é M.

Os termos (4-6) representam a forma do argumento enquanto que as expressões correspondestes às letras (U, M, e J) são o conteúdo. Deste modo, (1-3) é o argumento completo: forma + conteúdo.

A análise formal nada mais é do que investigar se o raciocínio como representado em (4-6) é válido ou não. Existem diversos meios de se fazer isso e a maioria delas é introduzida no artigo da wikipedia chamado Silogismo (referências). Uma delas é aquela análise aristotélica que divide um argumento em duas premissas (maior e menor) e uma conclusão e as classifica como:

A – universal afirmativa (Todo homem é mortal)
E – universal negativa (Nenhum homem é mortal)
I – particular afirmativa (Algum homem é mortal)
O – particular negativa (Algum homem não é mortal)

Um argumento é válido se suas três proposições formam uma combinação válida. Das 64 combinações possíveis, apenas 19 são válidas. A lógica proposicional também é uma ferramenta clássica (ver nas referências). Por exemplo, a formação conhecida como Modus Ponens diz que todo argumento que segue a seguinte forma: “Se p então q; p; consequentemente q” é válido do ponto de vista formal.

Alguns argumentos são simples e não precisam de ferramentas previamente estabelecidas para serem validados ou invalidados. Outros são mais complexos e podem ser estudados pelo teste da paródia. Se você substitui o conteúdo do argumento por um outro conteúdo sabiamente correto mas mantendo a estrutura formal e chega a uma conclusão flagrantemente falsa, então o argumento apresenta um erro formal. Vejam este exemplo retirado do Rebeldia Metafísica:

“Todos os comunistas são favoráveis à medicina socializada e todos os socialistas são favoráveis à medicina socializada. Portanto, todos os comunistas são socialistas.”

Talvez seja um pouco difícil demonstrar que a lógica deste argumento falha, então fazemos uma paródia que substitui o conteúdo e mantém a forma.

“Todos os homens possuem cérebros. Todas as mulheres possuem cérebros. Portanto, todos os homens são mulheres.”

Como temos um resultado absurdo mesmo com premissas evidentemente verdadeiras no segundo argumento, podemos concluir que há um erro formal no primeiro argumento. Compreenderam? Agora vou mostrar dois argumentos, um que falha na forma e outro que falha no conteúdo. Leiam e vejam se conseguem dizer qual é qual:

Você prometeu que se hoje não fizesse sol, você não iria ao clube. Hoje faz sol, então você deve ir ao clube para cumprir sua palavra.

Todo brasileiro é europeu. Eu sou brasileiro, logo sou europeu.

Muito fácil, não? Talvez seja mais difícil explicar porque a primeira está errada do que dizer que seu erro seja formal. Procurem saber no artigo Lógica Proposicional da wikipedia porque a proposição ((¬p -> ¬q) ∧ p) -> q falha.

Por fim, abro aqui um parênteses que servirá como ponte para a série sobre falácias. Já ouviram dizer que existem falácias formais e informais? Pois bem, uma falácia formal é aquela que falha na lógica, independente das premissas. Já uma falácia informal é aquela que falha em seu conteúdo.

Referências e Leituras Recomendadas:

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2 opiniões sobre “O que é um Argumento? – Parte 3: Forma e conteúdo”

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