Pseudoceticismo: introdução

Pseudoceticismo é um termo cunhado por Marcello Truzzi, um sociólogo americano, e que acabou caindo nas graças do povão. Se quiserem ler o artigo original onde ele introduz o termo, é só visitarem aqui, mas se quiserem uma tradução ao português, o site Ceticismo Aberto fez uma para nós.

O conceito por trás do termo é muito simples, não tem segredo nenhum: é o cara que não é cético mas que se declara cético para angariar simpatia e fazer suas ideias passarem com menos questionamento.

E como identificar um pseudocético? Simples, basta perguntar à pessoa como ela chegou à brilhante conclusão à qual ela foi guiada supostamente pelo ceticismo. A pessoa deve provar que partiu de uma dúvida e que as observações dela mostraram que faz mais sentido crer naquilo que ela alega. Se não conseguir montar este passo-a-passo então o alegado cético é pseudocético. Mas caso consiga, daí devemos partir para a análise dos argumentos, que poderão até estar errados, mas que pelo menos terão sido proferidos por alguém cético. Tá, se o raciocínio for ingenuamente errado, talvez até dê pra forçar o rótulo pseudocético… mas acredito que seja melhor tachá-lo de ingênuo mesmo. Vamos deixar o termo para ser aplicado só em um caso específico, ok?

Exemplo: suponha que você chega em casa com seu amigo e seu sofá está destruído e seu cachorro está em cima dos destroços. Você tem certeza que não foi o seu cão, que é um anjo, mas seu amigo discorda e diz:

Olha, foi seu cachorro. Eu apliquei um método de investigação baseado no ceticismo e cheguei à conclusão de que esta é de longe a melhor explicação para os fatos.

O que você responde? Por acaso seria algo como:

É, mas seu ceticismo é só mais uma alegação. Eu também estou cético quanto ao seu ceticismo.

Só se você fosse idiota. Dessa maneira estaria agindo da mesma maneira não cética que você alega que o outro está se portando. Entendeu? No fim das contas, seu amigo pode ser cético de verdade e você só um bobo. Não faça isso aí em cima, prefira por esse tipo de abordagem:

E como você chegou a esta conclusão?

Pronto! Se ele for incapaz de explicar isso, ele é pseudocético. Caso contrário, ele é no máximo um ingênuo. Vejam algumas possíveis respostas:

Você ama tanto seu cachorro que é incapaz de ver que foi ele! É óbvio que foi ele e só um crente iludido como você pode discordar!

Olha, ele está em cima da bagunça, só pode ter sido ele!

Veja as marcas de rasgo neste tecido: elas são consistentes com as patas de algum animal, então não foi uma pessoa. Elas também são consistentes com o tamanho da pata do seu cachorro, a julgar pela distância entre as unhas. Além disso, a terceira marca está mais fraca, o que coincide com a unha machucada do seu cão. Por fim, sua casa estava toda trancada, inclusive as janelas, e fica num apartamento no décimo andar de um condomínio seguro. A não ser que você ache que um animal grande o suficiente e com o mesmo padrão de unhadas do seu cão tenha entrado aqui e feito isso, então realmente foi o seu.

A primeira resposta até seria válida se você tivesse se recusado a aceitar a argumentação do seu amigo sem dar nenhuma explicação. De todo jeito, se seu amigo der a terceira resposta, então ele realmente empregou o ceticismo na investigação e não pode ser declarado de pseudocético.

E mais, tem gente que acha que refutou com ceticismo só porque apresentou um contraexemplo bonitinho e ainda se chamam céticos. Ora, não é preciso ser cético porcaria nenhuma para questionar as pessoas das quais discorda. Acorda, filhão! E ficar dando motivinhos baseados em astúcia e não em investigações sérias e dizer no final que refutou é coisa de pseudocético. Jogar “dúvida sobre algo” produz apenas uma “dúvida sobre algo” e uma não certeza de que algo está errado. Como bem disse Truzzi:

“Críticos que fazem alegações negativas, mas que erradamente se chamam “céticos”, frequentemente agem como se não tivessem absolutamente nenhum ônus da prova sobre eles, ainda que tal posição só seria apropriada para o cético agnóstico ou verdadeiro. Um resultado disto é que muitos críticos parecem sentir que só é necessário apresentar um caso para sua contra-alegação fundado em plausibilidade em lugar de evidência empírica.” Marcello Truzzi

Entenderam o que é um pseudocético agora? Pensa num zé mané que diz aplicar um método chamado Ceticismo Flamenguista para responder a uma alegação vascaína de que a arbitragem do clássico foi tendenciosa. Só que o máximo que consegue fazer é apresentar uma lista de vezes em que o Vasco teve erros de arbitragem a favor e que os vascaínos é que são beneficiados pela arbitragem mas que insistem no contrário como parte do esquema desonesto para vencer ilicitamente e ainda fazer parecer que foi vítima de algum complô. Piraram no pseudoceticismo do framenguista? O cara fez uma alegação negativa baseada em especulações baratas mas astutas e convictas e chama isso de ceticismo!

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2 opiniões sobre “Pseudoceticismo: introdução”

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