O que é um Argumento? – Parte 2: Definição

No primeiro post desta série, argumentei que sem os debates estaríamos estagnados intelectualmente e o conhecimento humano seria meramente a palavra do mais forte e jamais uma função iterativa que converge para uma verdade no infinito.

Assim sendo, vocês estamos prontos para seguir em frente e estudar o que é um argumento. Segundo o IEP (Internet Encyclopedia of Philosophy ou Enciclopédia Virtual de Filosofia, link no rodapé),

An argument is a connected series of statements or propositions, some of which are intended to provide support, justification or evidence for the truth of another statement or proposition. Arguments consist of one or more premises and a conclusion. The premises are those statements that are taken to provide the support or evidence; the conclusion is that which the premises allegedly support.

Ou em bom português:

Um argumento é uma série de afirmações e proposições conectadas, algumas das quais intencionam prover suporte, justificação ou evidência para a veracidade de outra afirmação ou proposição. Argumentos consistem de uma ou mais premissas e de uma conclusão. As premissas são aquelas afirmações usadas para dar suporte ou evidência; a conclusão é o que alega-se que as premissas suportam.

Em melhor português ainda: argumentar é dar motivos (premissas) para crer em algo (conclusão). É uma estrutura comunicativa que visa oferecer razões para se acreditar em alguma alegação. Qualquer outra estrutura que não envolva premissas suportando uma conclusão não pode ser chamada de argumento. Não julgo necessário estender demais aqui, pois a maioria das pessoas já possuem uma certa familiaridade com isso, mas só para não ter problemas com a consciência hoje a noite, apresento alguns exemplos:

  1. “Essa noite choveu.” Não é um argumento, mas uma simples afirmação (que por sua vez pode ser uma constatação, uma informação, uma opinião etc)
  2. “O jardim está todo molhado, logo choveu esta noite.” É um argumento, simples.
  3. “Joguei uma moeda pra cima e deu cara, logo choveu esta noite.” Acreditem, é um argumento.

Nos dois últimos exemplos, existem premissas (nem sempre explícitas) e uma conclusão, sendo assim considerados argumentos. Sim, o terceiro exemplo está completamente errado, mas não deixa de ser um argumento. Sugiro que fixem muito bem que argumento é apenas uma estrutura particular com um objetivo único e não caiam no senso comum de pensar que argumento é uma verdade ou, pior, um raciocínio com o qual você concorde.

Lembrem-se que um discurso pode conter um trecho que se enquadre na definição de argumento, mesmo sendo inválido formal ou informalmente. Não estou querendo me enveredar por uma defesa relativista daquilo que é falso, só estou pondo os pingos nos i’s. A terceira frase do exemplo contém um erro grave e deve ser considerada falsa, mas nem por isso qualquer crítica que façamos a ela será correta… querendo ou não, ainda é um argumento em sua forma e em seu objetivo.

Aliás, um detalhe muito importante é a forma do argumento – ele pode ser formal ou informal, admitindo níveis numa escala contínua entre esses extremos. Um argumento apresentado o mais formalmente possível é aquele conhecido como silogismo:

P1: Todo humano é mortal.
P2: Eu sou humano.
C: Logo, sou mortal.

Mas ele pode vir apresentado de maneiras um pouco menos formais:

Todo humano é mortal. Eu sou humano. Portanto, sou mortal.
ou
Sou mortal, já que eu sou humano e todo humano é mortal.

Até chegarmos em apresentações bem informais:

Sou mortal porque humanos morrem.

Todas as formas apresentadas dizem a mesma coisa, mas de formas diferentes. A formalidade acaba sendo mais um quesito estético do que funcional, apesar de um grau de formalização maior facilitar o entendimento. Em um livro de ciência com pretensões mais ambiciosas, um argumento do último tipo pode trair um certo desleixo, mas um do primeiro tipo pode tornar o texto excessivamente maçante. Contudo, sendo um texto didático que se propõe a ensinar conteúdos difíceis, o primeiro se torna um pouco mais indicado. Como tudo na vida, a formalidade é resultado de uma solução de compromisso; neste caso uma que envolve seriedade x fluidez da leitura.

Outro ponto que pode fazer coçar a cabeça de alguns é a presença de uma única premissa no exemplo 2 (“O jardim está todo molhado, logo choveu esta noite.”) Neste caso, temos simplesmente uma premissa oculta ou implícita, que são recursos absolutamente normais em conversações do dia a dia ou mesmo em textos mais formais. Por exemplo, se alguém elabora o seguinte argumento:

Callisto orbita Júpiter. Algo deve orbitar uma estrela para que seja um planeta. Se algo orbita Júpiter, então este algo não orbita uma estrela. Portanto, Callisto não é um planeta.

Existem premissas nesse argumento que são demasiadamente óbvias para praticamente qualquer pessoa, então a seguinte construção:

Callisto não é um planeta porque orbita Júpiter.

é um argumento válido. Uma pessoa que não entenda os passos perdidos pode até requerer uma explicitação por parte do outro argumentador, mas jamais alegar erro por causa disso. Devemos ser honestos e não dizer que um argumento está errado só porque existe algo escondido. É verdade que algumas vezes, escondemos premissas como forma de trapacear, mas isto é uma falácia que será tratada em momento oportuno. Por fim, existem os argumentos em que a conclusão é oculta, por ser infantilmente óbvia, como este:

“Querido, já são quase 00:00h e amanhã você tem que acordar cedo.” [Logo, está na hora de ir dormir.]

Fico por aqui. Sei que até agora está bem fácil, mas o correto é começar desde o elementar e caminhar pelo importante até chegarmos no novo. Recomendo que leiam toda a página da IEP que está nas referências, pois ela contém tudo que está aqui e mais um pouco. Daqui já temos base para tratarmos de assuntos novos, começando pela diferença entre argumento e justificação/explicação/causa e pela distinção entre argumento e alegação. A continuação direta da série tratará da distinção entre forma e conteúdo de um argumento, o que abrirá espaço para o estudo das falácias. Até mais!

Referências e Leituras Recomendadas:

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