O que Não é um argumento? – Parte 2: Justificativas, causas e explicações

Nos posts anteriores eu apresentei os argumentos e expliquei que eles são compostos de duas partes: a parte formal, ou lógica, que dá validade ao argumento e a parte informal, que dá solidez a ele. Para contextualizar o leitor, repito o que já disse antes: que o argumento tem o propósito de sustentar uma conclusão através de uma premissa ou um conjunto de premissas. É importante que se diga isso, pois uma construção organizada formalmente como um argumento válido e sólido pode não ser um argumento. Vamos ver um exemplo:

O filho do Pedro está no hospital, por isso ele se ausentou do serviço nos últimos dias.

Isto é um argumento ou não é? Acertou quem disse que depende do contexto. Vejam bem, essa frase está construida mais ou menos na forma “A logo B”, então podemos afirmar que a “conclusão” à qual se deseja chegar só pode ser B, ou seja, que Pedro se ausentou do serviço dos últimos dias. Então, se A – o fato de seu filho estar no hospital – tiver sido apresentado para provar que essa conclusão, então trata-se de um argumento sim. Vejam um possível contexto:

João: O Pedro é um funcionário exemplar, nunca falta ao serviço. Cheguei de viagem ontem a noite e estranhei muito quando ouvi dizer agora há pouco que ele não aparece há alguns dias. Eu não acredito que isso seja verdade.
Tereza: O filho do Pedro está no hospital, por isso ele se ausentou do serviço nos últimos dias.

Essa conversa pode ter ficado um pouco irreal, mas serve bem aos propósitos desse post. Entendam o que aconteceu: João não sabia se Pedro tinha faltado no serviço mesmo e precisava de ser convencido disso. O que Tereza fez foi demonstrar que isso realmente ocorreu apresentando a razão do acontecimento. Seu argumento foi:

P1: O filho do Pedro esteve no hospital nos últimos dias.
P2: Pedro precisou acompanhar o filho no hospital ou ficou sem cabeça para trabalhar. (premissa implícita)
C: Pedro não pôde trabalhar nos últimos dias.

Mas suponhamos um contexto que não visa demonstrar B porque B é algo já sabido e cuja veracidade seja trivial ou mesmo consensual. Entretanto, mesmo assim os motivos que levaram ao acontecimento de B são desconhecidos e A precisa ser apresentado para sanar esse problema. Vejam este novo contexto:

João: O Pedro tem feito muita falta aqui na firma e eu até agora não sei porque ele sumiu!
Tereza: O filho do Pedro está no hospital, por isso ele se ausentou do serviço nos últimos dias.

Notem que existe uma diferença sutil entre os dois casos. Agora, João sabe que Pedro se ausentou nos últimos dias, só não sabe porque. Ele demandou uma causa, uma justificativa ou uma explicação para algo que ele sabia que acontecera. Apesar da resposta de Tereza ter sido estruturada como um argumento, não se tratava de um, pois argumentos visam dar veracidade a alguma conclusão e não justificar um fato verdadeiro.

Vejam este outro exemplo que compara dois raciocínios semelhantes:

  1. O Brasil investe pouco e muito mal em esportes e dá pouco suporte a nossos atletas. Como consequência, mais uma vez nosso país terá um desempenho fraco nos Jogos Olímpicos.
  2. O Brasil investe pouco e muito mal em esportes e dá pouco suporte a nossos atletas. Como consequência, mais uma vez nosso país teve um desempenho fraco nos Jogos Olímpicos.

No primeiro caso, quem quer que tenha feito a declaração, a fez antes dos jogos e tentava convencer o leitor de que a delegação brasileira não traria muitas medalhas para nosso país, como tem acontecido nas últimas edições. Trata-se, então, de um claro argumento.

Já no segundo caso, o autor fazia sua declaração após os jogos e contava com o fato que seus leitores sabiam que nossa delegação continuou tendo poucos resultados e tentou mostrar o porquê disto ter acontecido. Como sua conclusão já era algo previamente estabelecido, então ele não tentou convencer ninguém, logo não houve um argumento.

Compreenderam a diferença? Para quem ainda tem dúvidas sugiro o artigo “Argument” do site IEP. Para quem deseja se aprofundar, sugiro o artigo “Theories of Explanation”, que eventualmente será trazido para este blog.

Referências e Leituras Recomendadas:

A sexualidade vira-lata dos ateus militantes – Parte 1: Transcrição

Essa série sobre o blogueiro Leonardo Bruno, vulgo Conde Loppeaux, vem mostrar às pessoas o que há de pior entre os defensores das religiões que não estão preparados para argumentar sobre esse assunto.

Faço isso porque, infelizmente, existe público para este tipo de gente. As pessoas adoram ver esses tipinhos falando e depois pensar coisas como: “nossa, esses ateus realmente são tão imorais!” ou como “essa sociedade está mesmo cada vez pior”. Esse segundo tipo de raciocínio é bem manjado e eu já falei sobre ele no artigo Mundo Corrupto na minha comunidade de orkut WatchGOD. As pessoas se sentem infelizes e ficam resmungando, dizendo que o mundo está podre, cheio de pecados, cheio de iniquidades etc. Esse tipo de comportamento é inercial, ou seja, a pessoa que fica resmungando tende a não fazer nada, nem mesmo entender melhor a realidade ao seu redor. Provavelmente é justamente por causa dessa “inércia resmungona” que faz tanto sucesso: agir assim é mais fácil do que apresentar argumentos coerentes e se esforçar para conseguir mudanças.

Vou começar com a análise do vídeo “A sexualidade vira-lata dos ateus militantes” gravado pelo referido blogueiro. Ele apresentou nesse vídeo pouquíssimos argumentos (vou contar quantos), mas todos eles foram falaciosos ou já foram refutados.

Estou reescrevendo este artigo, que já estava no orkut há um certo tempo (A sexualidade vira-lata dos ateus militantes) para evidenciar os erros que os oradores cometem e que forçam as pessoas à essa “inércia resmungona”. Meu objetivo é fazer as pessoas pensarem sobre aquilo que vêem e ouvem e notar os erros que estão aceitando sem ver. Aliás, a palavra certa não é nem “aceitar”, pois dá a ideia de alguém que está propositalmente enganando os outros. O mais correto é dizer “os erros que elas estão perpetuando sem notar”, pois esse tipo de discurso que vou apresentar vem de baixo para cima, e não o contrário.

Segue abaixo uma transcrição do vídeo feia por mim. Eu escrevi aqui exatamente o que ele falou (somente a partir dos 15 segundos) para evidenciar os vícios de linguagem e o despreparo do autor.

[P1] E eu estou lendo aqui uma matéria muito… muito “interessante”, do ponto de vista assim, entre aspas, né… interessante entre aspas, né, porque realmente é uma notícia da chamada cultura inútil.

[P2] Uma pesquisa realizada pela Universidade do Kansas, nos EUA, concluiu que ateus vivem o sexo com mais prazer.

[P3] É engraçado que esse pessoal aí [mosquinhas verdes] gostam de “departamentizar” a natureza humana, como se ela fosse algo mensurável, controlável, né. Ou então, é… como se nós fôssemos uma espécie reprogramada para que… como se nossos comportamentos pudessem ser previstos. Então quer dizer, agora esse pessoal quer mensurar o prazer sexual, quer mensurar, quer mensurar o orgasmo, né.

[P4] E para, claro, como eles são ateístas militantes, eles precisam se envaidecer e acreditar que realmente têm mais felicidade sexual que os religiosos, não é mesmo?

[P5] Só que existe um problema aí, né? Quem foi que criou a norma, nossos códigos de ética amorosa, as nossas etiquetas, né? As… a nossa reverência, principalmente à mulher, né, o cavalheirismo etc. Foram os pagãos? Foram os ateus? Não, meus queridos! Foram os cristãos!, e em particular na Idade das Trevas. Foi a partir da, foi na Idade Média que surgiu os códigos da cavalaria, os códigos do amor cortês e os códigos da… da cortesania, da gentileza, hm?

[P6] Quer dizer que, na verdade, por exemplo, se a gente pegar as trovas medievais, né, o culto do amor à mulher, né, a figura idealizada, inatingível, ou então quando um homem é… dá uma flor para uma mulher, ou agrada, né, de maneira delicada, de maneira sofisticada… foram aqueles homenzinhos medievais que se chamam, que são rotulados, né, de elementos das trevas que criaram toda uma espécie de ritualidade, de cortesania amorosa.

[P7] Mas o que vêm os ateus a nos propôr, né, com essa história de que eles vivem melhor o sexo? Já dizia Nelson Rodrigues que educação sexual é coisa para vira-latas, e eu não tiro a razão dele.

[P8] Uma vez, recentemente aqui em Belém, houve um caso de uma jovem que foi… que filmou, né, uma cena de felação, em que ela estava abocanhando o pinto do namorado, uma menina de treze anos e acabou virando chacota pelo fato do vídeo ter espalhado. E uma senhora que era pedagoga, psicóloga, sei lá, o que seja, veio dizer assim: “Ah! Esta criatura precisa de educação sexual.” Aí eu perguntei, eu pensei [inaudível]: “Bom, uma criatura dessa, que já sabe chu… que já sabe chupar uma piroca… bom, com certeza não vai precisar de educação sexual porque acho que ela já tem até de sobra, né. O que tá faltando talvez educar nas, nos adolescentes são valores, né, são como direcionar o sexo, né. Hoje em dia, praticamente, o que é educado nas pessoas é como se o prazer, como se o sexo pelo sexo fosse a coisa mais importante, quando na verdade os elementos mais é… sutis do relacionamento, que é no caso o amor, que é no caso a ligação de um homem e uma mulher, a construção de uma família estão sendo redundamente ignorados.

[P9] É interessante notar que hoje em dia, cada vez mais uma sociedade que trepa adoida.. doidamente, ou pelo menos diz trepar e cada vez mais frustada sexualmente. E o que é pior, né, cada vez mais solitária, uma sociedade que cada vez… cria menos vínculos possíveis com as pessoas, não é. Não temos, nós somos uma sociedade em que os vínculos afetivos são cada vez mais fracos, apesar da exaltação da sexualidade, né… e os ateus muito orgulhosos que trepam que nem cachorro agora estão, né, se vangloriando porque eles se acham é… “orgiasticamente” superiores aos cristãos ou aos religiosos.

[P10] Olha, sinceramente, quem publica uma matéria dessa é muito babaca. É muito idiota, hm? Quer dizer que vocês agora, vocês acham que vocês sentem mais prazer sexual, que vocês são mais desinibidos que os cristãos, né? É interessante que eles gostam dizer que eles gostam de trepar sem sentimento de culpa, né? … Olha, quem trepa sem sentimento de culpa, pra mim, é um ca-chor-ro, é um cão, é um, é simplesmente um vira-lata. Qualquer tipo de relação amorosa sexual tem que ter o mínimo necessário de drama de consciência.

[P11] É por essas e por outras que esta sociedade está parindo gente na rua que nem cagado, que nem cagado, que nem jogado no lixo, justamente porque todo mundo trepa sem a menor crise de consciência. Não não somente a crise de consciência faz a diferença entre os humanos e os animais, como também essa crise de consciência é que nos engendra o juízo de valor necessário, necessários para ver até que ponto vale a pena fazer o sexo. Quem não tem esse juízo de valor, quem não tem essas crises, tanto do âmbito afetivo, moral na questão sexual, me desculpe: está andando de quatro. Realmente prova que a evolução das espécies é uma farsa. Existe, pelo contrário, a involução das espécies.

[P12] Mas parafraseando o meu grande amigo reacionário Nelson Rodrigues: “educação sexual é para vira-latas”. E a sexualidade dos ateus com certeza é muito, muito, muito triste.

Apologista Vigiado: Conde Loppeaux de la Villanueva

A partir de hoje dispensarei um pouco da minha atenção a este ser que, mesmo involuntariamente, preenche nossos monitores e caixas de som com seu fino e refinado humor. Sim, meus caros, trata-se de um humorista involuntário e vou provar isso. Seu nome é Leonardo Bruno e ele tem um blog e um canal no youtube! Links no menu à direita.

Em primeiro lugar, ele assumiu para si um nome engraçado. Tipo, que graça tem chamar um humorista de Renato Aragão? Pouca… mas Chamar de Didi é muito mais divertido! Ninguém sabe o nome do Bozo, porque o que importa é que ele é o Bozo! Não digo que o mero uso de um pseudônimo seja engraçado, refiro aqui a ter um apelido divertido como forma de incorporar o humor ao próprio humorista. Por esse motivo, Leonardo Bruno decidiu entitular-se a si mesmo de Conde Loppeaux de la Villanueva! Escuto o leitor segurar risadas… só aviso que em breve não consigarão mais segurá-las.

Em segundo lugar, ele incorporou um esteriótipo exagerado e caricato. Sim, existem cristãos e conservadores meio bobos, assim como existem ateus bobos, mas o Conde se propõe a ser o chefe dos tolos. Leva o esteriótipo às últimas consequências, até que ele se torne uma caricatura daquilo que representa. Assim como Chaplin representou brilhantemente o homem alienado e sua impotência perante as máquinas em Tempos Modernos, Leonardo Bruno representa o cristão chiliquento, que caga de medo de ir pro inferno porque existem ateus malvados e comunistas psicopatas vivendo no mesmo país que ele!

Em terceiro lugar, assumiu um linguajar característico próprio. Quem tem mais de 50 amigos no facebook deve ver no mínimo uma montagem com o Mussum por dia com balões de fala que mimetizam seu popular jeito de falar, ‘né mes moçadis?’. O Conde não ficou pra trás e incorporou ao seu modo de falar uma infinidade de vícios de linguagem irritantes e uma infiniade maior ainda (uma contigência lógica facilmente vencida por sua extraordinária veia humorista) de expressões no diminutivo que visam (não me perguntem como) ofender alguém.

Ele não chama ninguém de mentiroso, mas diz que a pessoa contou uma metirinha. Ele não acusa feministas de terem sido falaciosas, mas diz que elas são burrinhas. Ele não diz que o comentário do leitor X foi fraco, mas que o leitor X deixou um comentariozinho. Esses dias para trás um tal de Rafael Gusmão deixou um comentário no post O Holocausto Judeu: O Mais Trágico Capítulo da História do Cristianismo do blog Rebeldia Metafísica. A julgar pelo linguajar, alguém tem dúvidas de que se trata do mesmo?

Diga-se de passagem: típico comentário de cristão ciliquento que não leu mas como viu que estava repassando a culpa do holocausto nazista para o cristianismo, resolvou dar piti porque é óbvio que ele segue a religião perfeita e que nenhum cristão seria capaz de fazer uma barbaridade em nome dela.

Visto o seu nome de guerra engraçado, sua performance caricata e esteriotipada e sua linguagem cômica e à prova de cópias, concluimos que só pode se tratar de um humorista. Quem duvida, que apresenta um argumento melhor que o meu ou que dê um chilique.

Um pouco de sua história: este rapaz é bem parecido com o ex-mascote desse blog: o Luciano Henrique. A fixação de ambos com a nobreza e com a criação de perfis fakes que ficam avacalhando no orkut, além de manias como a fragmentação de textos adversários como estratégia de distorção, não podem ser desprezadas. Comparem meu post Luciano Ayan: uma breve biografia – de troll no orkut a “líder” conservador fake e Notas sobre Leonardo Bruno Fonseca de Oliveira, zé ninguém. (A imagem que ilustra o post foi retirada de lá.) Abaixo, algumas transcrições como aperitivo:

Um certo Leonardo Bruno Fonseca de Oliveira, que se intitula, em provável processo de fuga da vida medíocre que suporta, “Conde Loppeux de la Villanueva”, publicou em sua página escatológica do Blogger um confuso post, no qual transcreveu minha matéria contendo críticas a um libelo de Roberta Kaufmann contra as cotas.  Repartido em vários fragmentos, meu texto deu margem a uma série de “observações” do “Conde”; na prática, uma grotesca combinação de xingamentos infantis, contestações do que eu não disse e alarmismo macarthista contra o perigoso subversivo que é Gustavo Moreira.

[…]

Eu diria que Leonardo Bruno obteve sucesso em uma única iniciativa, ao sustentar um perfil falso na comunidade Olavo nos Odeia: Rachel Piaszt. Durante meses, o “Conde” simulou ser uma pós-adolescente de Curitiba, de cabelos dourados e coxas bem torneadas, realçadas por um short branco e justo.  […]  Certa madrugada, entretanto, o sono traiu a farsa, e a assinatura digital “Conde” apareceu de súbito, logo abaixo do avatar da Rachel.

Recentemene, ele andou tendo umas rusgas com o próprio Luciano Henrique. O Conde acusava o inseto que mente em proporções bíblicas de defender absurdos como o aborto enquanto este devolvia a acusação de que o primeiro cometia erros políticos graves ao defender a religião sem usar o Bypass político para pregações apologistas. E assim caminha a humanidade…

Ele é um típico representante do povão que já leu mais do que a média, o que não quer dizer que leu muito (e com certeza o pouco que leu era somente o que interessava). Mas mesmo assim, ou talvez por isso mesmo, ele insiste em fazer discursos repletos de disgressões sem sentido, choradeiras, resmungões e, como não poderia faltar, falácias. Quando você analisa o texto desses tipinhos, depois que você tira todas as disgressões desnecessárias, você só verá chororôs e um ou outro argumento falacioso.

Por isso, vou mostrar aqui os chiliques homéricos do Conde e desconstruir sua imagem de liderança cristã apresentando seus erros infantis. Sou ateu sim, mas não desejo um líder como o Conde nem ao pior dos meus inimigos. O pouco do amor cristão que me sobrou me obriga a abrir os olhos dos demais cristãos e de fornecer aos ateus um passatempo para quarta-feiras.

Uma esquerda elitista e chantagista surge no Brasil

Título Original: O padrão suicida das greves
Autora: Ruth de Aquino
Publicado Originalmente em: Revista Época

“A Polícia Federal está com concurso na rua, salário inicial de R$ 7.700 para agentes e escrivães, funções de nível superior. Você acha que esses salários são exorbitantes em relação às atividades que esses profissionais desempenham?”

Recebi esse e-mail de um leitor da coluna, incomodado com minha crítica suave às greves dos servidores públicos federais. Greves que considerei irresponsáveis por infernizar a vida de inocentes que ganham bem menos. Como o piso dos jornalistas – profissão que também exige diploma universitário e pode incluir riscos de vida – varia entre pouco mais de R$ 1.000 e pouco mais de R$ 2.000, respondi que os servidores parados estão descolados da realidade do país.

Será difícil para grevistas com estabilidade e salários em torno de R$ 10.000 ganhar apoio, ainda mais pelo desrespeito à população. Por que os 300 mil funcionários parados não vão para Brasília e fazem um protesto gigante na Praça dos Três Poderes? Talvez porque o ar esteja seco demais na Capital. Dá preguiça. Exige planejamento.

O motivo principal é que protestos democráticos não causam o prejuízo emocional e financeiro de bloqueios em estradas, aeroportos, portos, hospitais e universidades.

O leitor desta coluna tem a resposta para o impasse – ele convida todos a fazer parte da casta dos servidores: “Os salários do funcionalismo são um pouco mais altos para reter no serviço público funcionários compromissados, que desempenham atividades essenciais ao funcionamento do país, como se pode inferir dos transtornos que temos observado nos últimos dias. Se tais salários são invejáveis, os cidadãos que os invejam podem também participar dos concursos, basta vontade de estudar por meses, até anos”. Podemos deduzir que só os servidores estudam com afinco – e que nosso trabalho não é essencial.

Provavelmente, a maioria dos leitores achará mesmo “exorbitantes” os salários iniciais da Polícia Federal. E mais exorbitante ainda o aumento exigido: eles querem R$ 12.000. De piso. Esse bando de baderneiros de uniforme e boné vem distribuindo bombons e pizzas nos aeroportos para famílias, assalariados, crianças e idosos. Reféns enfileirados por horas, impotentes diante de uma operação-padrão de chantagem.

– Vocês deveriam distribuir nariz de palhaço, não bombons! –, disse um passageiro aos policiais federais no aeroporto Juscelino Kubitschek, em Brasília.

Há 643.404 civis trabalhando para o Poder Executivo, ou seja, para Dilma. O piso dos auditores da Receita Federal, entre 2003 e 2010, deu um salto mortal (para nós, não para eles): foi de R$ 5.000 para R$ 13.600, um aumento 55% acima da inflação. É exorbitante. Mas eles não estão satisfeitos.

Lula alimentou, em seus mandatos, a megalomania das centrais sindicais, que estão se achando. Dilma demorou a reagir, o sentimento de onipotência se alastrou entre os servidores, mas agora a presidente precisa do apoio do país e da Justiça para não ceder aos grevistas.

Se as exigências fossem aceitas, o impacto nas contas públicas seria de R$ 92 bilhões. Não dá. Não existe. Ponto. Lula demorou a apoiar Dilma, mas elogiou a atitude da presidente na quarta-feira: “O dinheiro é curto”.

Os grevistas acusam “a mídia desinformada” de jogar a população contra os servidores parados há meses. Os grevistas produzem as manchetes e se ressentem delas.

Há, sim, categorias com salários defasados. Elas erram e perdem a força ao se unir a coleguinhas bem remunerados e ensaiar um rolo compressor. Os reajustes pedidos variam de 20% a 70%. Que país pode hoje conceder esses níveis de aumento?

Somos reféns de chantagistas. Se o governo aceitasse o que os grevistas querem, iria à falência.

Cito outro e-mail que recebi, de Virginia Paranhos Jardim, servidora do Ministério Público Federal de Goiás: “Não se pode juntar toda a categoria de servidor federal num só bolo. Tanto o Ministério Público Federal como o Judiciário Federal estão sem qualquer reajuste há mais de seis anos. Enquanto isso, assistimos à inflação corroendo nosso poder aquisitivo todos os dias”. Virginia me pediu que não divulgasse seu salário. Entendo sua revolta. Mas quem está colocando tudo em “um só bolo” são os 300 mil grevistas de mais de 30 categorias. Eles apostam na orquestração do caos.

Eles não têm o direito de parar o país, parar você, me parar, parar os carros e caminhões, parar o estudo de nossos filhos, parar a assistência médica a nossos parentes, parar a importação de remédios. Isso não se chama greve, mas abuso de poder. O governo deveria regulamentar as fronteiras da greve no serviço público, de uma vez por todas.

Os sindicatos oportunistas estão incomodados com o “autoritarismo de Dilma”. Dilma responde que está mais preocupada com quem não tem direito a estabilidade e nem consegue emprego. Estou com Dilma. Os grevistas incomodados que se mudem… para a Zona do Euro!

O que é um Argumento? – Parte 3b: Validade e Solidez

Esse post é um curto adendo á parte três da série sobre argumentação e visa reparar um erro que infelizmente cometi. Aliás, não foi exatamente um erro, mas sim a omissão de dois conceitos importantes que aconteceu enquanto eu escrevia a parte 3. Tratam-se dos conceitos de Validade e de Solidez.

Um argumento é válido quando sua estrutura lógica é formalmente correta. Em outras palavras, um argumento válido está corretamente amparado por um princípio lógico, é imune a testes de paródia e sua conclusão sempre será verdadeira quando suas premissas assim o forem. Isso é algo muito importante: um argumento válido não necessariamente possui uma conclusão verdadeira. (Aos pobres desprivilegiados que porventura possam achar que relativizo aqui o conceito de certo e errado, recomendo a leitura de textos que exigem menos capacidade intelectual para serem compreendidos, como uma entrevista do Neymar.) A validade de um argumento garante que a conclusão será correta caso as premissas sejam corretas.

Um argumento sólido, por sua vez, é aquele argumento que é simultaneamente válido e cujas premissas são corretas. A solidez de um argumento (soundness) faz com que sua conclusão seja necessariamente verdadeira.

Segundo o IEP: Um argumento é válido se e somente se possuir uma estrutura formal logicamente correta ou se for impossível que a conclusão seja falsa quando as premissas forem verdadeiras. Um argumento é sólido se e somente se for válido e suas premissas forem verdadeiras.

Por exemplo, considerem esses dois argumentos:

Todos macacos são aves.
Nenhuma ave é um animal.
Logo, nenhum macaco é animal.

Todos tigres são mamíferos.
Nenhum animal mamífero possui escamas.
Logo, tigres não possuem escamas.

Notemos que os dois argumentos seguem a mesma forma lógica:

Todo A é B.
Nenhum B é C.
Logo, nenhum A é C.

Como a forma lógica de ambos é correta, ambos são válidos. Porém, o primeiro argumento é claramente falacioso e não possui solidez, e isso ocorre por que suas premissas são evidentemente falsas. O segundo argumento, por sua vez, apresenta duas premissas verdadeiras sendo portanto um argumento não somente válido, como também sólido.

Agora considerem esse argumento:

Todos papas moram no Vaticano.
Bento XVI mora no Vaticano.
Logo, Bento XVI é um papa.

Alguém pode pensar que como as duas premissas são verdadeiras e como a conclusão é verdadeira, que logo o argumento é sólido. Nada mais errado. Este argumento é inválido, portanto não-sólido, falacioso e falso. Vejamos a forma que ele segue:

Todo A é B.
X é B.
Logo, X é A.

Esse raciocínio não procede e isso pode ser visto através da lógica proposicional (ver nas Leituras Recomendadas). Um teste da paródia simpes também serve:

Todos papas moram no Vaticano.
Alguns cardeais moram no Vaticano.
Logo, alguns cardeais são papas.

Nota-se aqui claramente como este argumento é inválido. Um argumento inválido não garante que duas premissas corretas levarão a uma conclusão correta, como ocorre neste último caso. Já no caso anterior, as duas premissas também eram verdadeiras mas a conclusão era verdadeira por pura sorte. Isso não valida o argumento de forma alguma e nem o torna melhor do que este último.

Muitos teístas cristãos que conheço jamais seriam capazes de admitir que um argumento tão fraco quanto o ontológico seja falso, como se sua falsidade de alguma forma provasse a não existência de Deus. Lamento a ignorância deles. Deus pode existir e o argumento ontológico pode ser falso, simultaneamente. Eu poderia dizer: “Bananas não voam, logo Deus existe” e isto seria falso mesmo se Deus existir.

Se um argumento é sólido, sua conclusão é verdadeira. Isso implica em dizer que um argumento sem solidez não necessariamente possui uma conclusão falsa: ela pode ser verdadeira por mero acidente de percurso. E também implica, pelos mesmos motivos, que uma conclusão verdadeira não garante a solidez do argumento.

Além disso, existem alguns argumentos que são um pouco controversos. Veja estes dois exemplos interessantes:

Minha mesa é redonda. Portanto, ela não é quadrada.
Minha mesa é redonda. Portanto, ela não é de madeira.

Nota-se que um deles é verdadeiro e que o outro é falso. Mas ambos possuem a mesma forma! Como pode?

A é B. Logo, A não é C.

E para piorar, a forma é claramente inválida. Como pode um argumento inválido ser sólido? Prestemos bastante atenção. O primeiro argumento possui uma premissa oculta e implícita: “Nenhum objeto redondo possui forma quadrada (ou triangular, ou elíptica etc.)”. Sendo assim, temos um argumento do tipo: “A é B. Nenhum B é C. Logo, A não é C.” que é válido. Já o segundo argumento, coitado, não existe premissa oculta que dê solução. Ele de fato é inválido.

Por fim, chamo a atenção para a relação entre a construção gramatical de uma premissa e sua forma. Duas construções gramaticais idênticas podem não ser interpretadas do ponto de vista lógico da mesma forma. Compare esses dois argumentos:

Tom é um tigre feroz. Portanto, ele é um animal temível.
Bob é um tucano. Portanto, ele tem um bico comprido.

Aqui no Brasil, a afirmação “Bob é um tucano” pode significar que Bob é uma pessoa filiada ao partido político PSDB. Portanto, a conclusão de que Bob tem bico comprido só faz sentido quando a conotação da palavra tucano não for esta. Da forma como apresentei, nada garante qual o significado do termo, então o argumento está inválido. Já o primeiro argumento não admite mais de uma interpretação e assim está correto.

Então, dois argumentos gramaticalmente idênticos são formalmente diferentes ou possuem representação lógicas que podem ser distintas. Devemos tomar este cuidado. Quem quiser entender melhor ou ver mais exemplos, pode visitar a página “Validity and Soundness” no IEP (ver Referências), apesar deste artigo conter muitas definições e exemplos retirados de lá.

Referências e Leituras Recomendadas: